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Apesar de tudo, tudo o que fizemos... 11.06.2017

Marco Antonio Pontes

 

 Cansaço,...

 
Permita, leitor, que lhe fale de cansaço.
Sim, eu sei que espera do colunista o exame dos problemas que o afligem e a crítica de sua abordagem na imprensa, sobretudo no concernente à política, nesta quadra em que política e políticos figurariam melhor nas seções policiais dos jornais.
Mas cansa este velho jornalista constatar que passado o mensalão, adiantada a Operação Lava a Jato persistam os vícios e os políticos pareçam viver noutro mundo.
 
...revolta...
 
Fique claro, leitor: como você, este jornalista revolta-se com a desfaçatez geral: o presidente da República recebe clandestinamente em casa um empresário pra lá de enrolado, o PT escolhe para presidi-lo uma senadora processada por corrupção, um de-putado chegado ao poder é flagrado a correr na rua com mala cheia de dinheiro... – seria cômico, se não fosse trágico.
 
...e fuga
 
Isso cansa, o leitor concordará. Mas antes de desistir leia o artigo A pinguela, do jornalista e professor Aylé Selassié Quintão (ayleq@yahoo.com.br).
Ele começa por inusitada provocação – “Os black blocs expressam o estado de espírito da população brasileira” – mas longe de justificá-los, exibe-lhes a equivocada e grosseira encarnação da revolta.
Leia Aylé, leitor, e depois fuja comigo para assunto mais ameno: a música popu-lar, especialmente a brasileira, nosso orgulho e consolo.
 
Cabeças sabidas
 
Ainda uma nota antes de fugir, leitor. Veja o que ouvi de um amigo sobre o inusitado (em mais de um sentido) julgamento no TSE:
– Dizem que de cabeça de juiz nunca se sabe o que vai sair. Pois dessa vez se soube; de sete juízes.
 
Seresteiro do céu
 
“Quando Expedito Baracho pegar o violão e começar a cantar, nunca mais [os anjos] quererão saber das harpas” – escreveu Marcelo Alcoforado (A propósito, O silêncio do cantor, 28.05.2017) na suave elegia dedicada ao grande seresteiro do Recife (potiguar de nascimento) que nos deixara no sábado, 27 e o cronista imaginava-lhe a chegada ao céu.
 
Seresteiro do céu (II)
 
Uma única vez assisti, de corpo presente, às ricas interpretações de Baracho, a que fora apresentado em um LP (ou vinil, como chamam hoje) e precárias gravações em fitas cassete.
Foi o bastante: acreditasse no paraíso, eu tentaria merecê-lo só para assistir às serenatas com que o cantor encantará os anjos. Ele e seus pares: Orlando Silva, Francisco Alves, Carlos Galhardo, Vicente Celestino, Sílvio Caldas...
 
É Ella!
 
Ella Fitzgerald, ‘a primeira-dama da canção’, teria completado cem anos em abril. A imprensa prestou-lhe devidas homenagens.
Destaco excelente matéria da GloboNews (Em pauta, 25.04): Roberto Pontual recordou o deleite de ouvi-la em Nova Iorque, anos 1960 e Eliane Catanhede informou que Amy Winehouse dissera escutá-la todos os dias.
De quebra, excertos de interpretações magistrais de Cry me a river e Summerti-me; só pequenos trechos; que pena!
 
Melhor entre melhores
 
Também conheci o cancioneiro estadunidense dos anos 1930–60 naquela privilegiada voz – e mais (entre outras) as de Billie Holiday, Frank Sinatra, Nat King Cole, Sarah Vaughan.
Seus song books, como o de Cole Porter, reuniram o melhor da música popular de todos os tempos e povos, à altura da que se fez aqui, no Brasil – e Ella Fitzgerald brindou-nos com um ‘disco duplo’ de Tom Jobim: honra a ambos.
 
Contraditória Amy
 
A propósito de Amy Winehouse: sua admiração por dame Fitzgerald confirma a sensibilidade que revelou na curta carreira e acrescenta frustração à tristeza por deixar-nos tão jovem – o que mais?, e tão melhor não cantaria?
Hoje me penitencio do mau-humor com que registrei sua morte, porém reafirmo o conteúdo: a excelente cantora tentou cantar mal, era linda e quis enfear-se, escolheu repertório aquém de sua cultura musical.
 
Belchior esquecido
 
Belchior precisou morrer para que seu talento fosse reconhecido. Esqueceram-no os jornais, revistas e, pior, as emissoras de rádio e TV que lhe haveriam de programar as canções.
Não teve melhor acolhida nas redes sociais, via internet, mas ali pelo menos po-dem-se encontrar reproduções de suas obras – entretanto só procuradas por raros inicia-dos ou saudosos de melhores tempos, como este colunista.
 
Tempos de surdez
 
Não foi o único esquecido, o bravo compositor cearense. Muita gente boa da MPB perde espaço para a mediocridade.
Está aí a degeneração do samba num popularesco ‘pagode’ (impropriedade até semântica), o cancioneiro rural que de tão desenraizado desembocou em anômalo ‘ser-tanejo’ dito ‘universitário’ (?), o atual ‘rock brasileiro’ cuja sensaboria desmerece pio-neiros talentosos, a malversação de novos ritmos urbanos (funk, rap), fruto da criativi-dade das periferias geográficas e sociais, que escorrega no preconceito e derrapa na grosseria...
 
Tempo de lembrar,...
 
Mas é bom lembrar Belchior. Eu vivi os duros tempos que ele cantou em Como nossos pais, cujo versos e estrofes resgatam episódios e revisitam a história da minha geração.
É uma história de esperanças e frustrações – mais dessas que daquelas – mas o poeta aposta na vida: “Viver é melhor que sonhar / e eu sei que o amor é uma coisa boa, [...] / mas qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”.
 
...desesperar , resistir,...
 
Belchior enfrenta a dura realidade: “Cuidado!, há perigo na esquina: / eles ven-ceram e o sinal está fechado pra nós, / que somos jovens, / para abraçar meu irmão e beijar minha menina, na rua [...].”
Resiste, porém: “[...] Eu vou ficar nesta cidade, / não vou voltar pro sertão, pois sinto vir vindo no vento / o cheiro da nova estação [...]”, mesmo que deva senti-lo “na ferida viva do coração”.
 
... duvidar, crer de novo...
 
A resistência é débil, porém. O poeta invectiva o interlocutor (a amada?, o velho companheiro de lutas?):
Nossos ídolos ainda são os mesmos, / [...] você diz que depois deles não apa-receu ninguém, / [...] mas é você que ama o passado e não vê / que o novo sempre vem!”
 
...e chegar à síntese
 
Sofrida embora, a dialética de Belchior chega a admirável síntese:
“Hoje eu sei que quem me deu a ideia / de uma nova e consciência e juventude / está em casa, guardado por Deus!, / contando o vil metal.”
E termina desiludido: “Apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos / ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.”

Perversa síntese
 
Eu não queria, leitor, mas é inevitável: a dramática conclusão do poeta traz-nos de volta a estes tempos infaustos.
Fizemos tanto! – ‘Diretas, Já!’, redemocratização com Tancredo, Constituição Cidadã, Plano Real, redução da pobreza – e ainda vivemos como os antepassados escra-vistas?!, a evocar Deus e contabilizar a vil riqueza de poucos à custa da miséria de mui-tos?
 
Marco Antonio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br


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