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Dos ‘balcones’ de Cartagena ao balcão no Congresso 03.12.2017

Marco Antônio Pontes

 

Os balcões de Cartagena,...

 
Há duas semanas elogiei aqui a bem humorada festa cívica a que assisti em Cartagena. Retomo agora as lembranças da Colômbia para falar de uma louvável iniciativa cultural ainda de Cartagena, o concurso de balcões.
Os balcones são algo como ‘varandas’ que compõem as fachadas superiores de muitos dos velhos sobrados do centro histórico, delimitado por sua famosa muralha. Embora o certame ocorra anualmente em dezembro, eles não são premiados por eventual decoração natalina; o que se observa é o cuidado com a preservação dos componentes arquitetônicos tradicionais, em destaque os riquíssimos ornamentos dos gradis em madeira ou ferro.
 
...o dinamismo, a boa comida...
 
Da capital colombiana, escala seguinte, tive a impressão de que transpira dinamismo, provável reflexo do bom momento que vive o país.
Isso é percebido já no desembarque no majestoso aeroporto – não há nada semelhante no Brasil em conforto, espaço e eficiência dos serviços. Ademais, surpresa pra quem sofre os preços escorchantes nos restaurantes e bares daqui, alimentação e bebidas não custam mais caro que nos estabelecimentos similares da cidade.
E por falar no assunto come-se muito bem em Bogotá, inclusive do que oferece a excelente cozinha tradicional. Deliciei-me no centenário restaurante La puerta falsa (nome intrigante...), situado numa rua estreita a poucos passos da Plaza Mayor.
 
...e os museus de Bogotá
 
A enorme Plaza é um museu a céu aberto, com os palácios do Executivo, do Parlamento e a vetusta catedral, do século XVIII.
Numa rua bem ao lado fica o Museu Militar; não tive tempo de visitá-lo, mas soube de sua qualidade por informações de Inês Casasanta, como sempre ótima companheira de viagem, que lá estivera em abril passado.
(Haverá de dizer algo da história e interesses humanos a excelência dos museus militares; conheci alguns, todos fantásticos, especialmente o abrigado no Hôtel des Invalides, em Paris.)
Interessantíssimo, em Bogotá é o ‘Museu da Inquisição’, como lá é conhecido o rico acervo da história da Colômbia, da Hispano-América e daquela cruel instituição da Igreja.
 
Duplo 2 de fevereiro
 
Como quase todos os que conheci na capital colombiana, o Museo de la Inquisición ocupa um casarão seiscentista bem no coração do centro histórico, admirável testemunho da arquitetura colonial espanhola com suas muitas janelas, portas, portais e o tradicional pátio interno, arborizado e fresco.
Foi lá que tive notícia de personagem que me deixou curioso: uma heroína negra, sacrificada pela Inquisição sob acusação de feitiçaria, a cuja memória dedica-se o dia 2 de fevereiro.
Meus amigos soteropolitanos terão percebido a coincidência com a data consagrada a Iemanjá e como eu estarão a conjeturar: será? mesmo só coincidência ou a herança cultural africana, importante na Colômbia como no Brasil, terá produzido algum intercâmbio entre afrodescendentes de lá e de cá?
 
Moeda e valor
 
O Museo de la Moneda guarda precioso acervo da evolução, não só na Colômbia, da riqueza e suas traduções monetárias, num relato didático a partir da história da mineração – de ouro, prata, platina e gemas, particularmente a esmeralda, emblema da pujança colombiana – desde as civilizações ancestrais que habitaram os Andes e usavam esses metais, pedras preciosas e mais o cobre na representação de preceitos religiosos.
Passa por sua exploração pelo invasor espanhol e chega à atual significação desses elementos, ainda símbolo e reserva de valor.
 
O fenômeno Botero
 
Outro museu, o dedicado a Botero, é um encantamento. A longa sucessão de quadros e esculturas do genial artista colombiano chega a aturdir, tem-se vontade de permanecer horas diante de uma obra e ao mesmo tempo correr em busca de outras aparições, ver tudo antes que se encerre o tempo de visita.
A humanidade gorda, sua marca registrada, transmite inusitada sensação táctil, a gente não precisa (nem poderia) tocar para sentir na ponta dos dedos e num recôndito insuspeitado do cérebro o calor e sensualidade daquelas carnes enxúndias.
 
Caveira gorda
 
Foi Alice, a netinha que me acompanhou naquela e outras peregrinações pelos incríveis museus de Bogotá, que do alto de seus perceptivos dez anos alertou-me para a façanha de Botero:
“Até a caveira que ele pintou gorda!”.
 
Nação artificial
 
Findas, por enquanto, as impressões da vilegiatura na Colômbia, passo à menos prazerosa visita ao Panamá só para confirmar antiga impressão de um país que nasceu artificialmente e segue em busca de identidade – quem sabe? a encontraria se retornasse ao ninho antigo?, à Colômbia da qual foi violentamente arrancado pelos interesses multinacionais que patrocinaram a construção do Canal.
É claro que senti, na segunda passagem pela capital do Panamá (a primeira foi há coisa de meio século) o cheiro de prosperidade e muito dinheiro, tudo evidenciado na arquitetura modernosa, altíssimos arranha-céus, cassinos hospedados em hotéis de alto luxo.
 
Panamenhos-colombianos
 
Não quero ser injusto com os panamenhos, gente boa e cordial que recebe bem os visitantes, cultiva tradições e modos de viver que têm nada do artificialismo, da violência que inaugurou seu país. Eles parecem colombianos, é como se a drástica secção territorial não houvesse afetado a unidade cultural, a expressão artística, o belo artesana-to produzido fora da ‘Zona do Canal’.
 
Velha questão
 
De volta ao Brasil, e aos nossos recorrentes problemas, reconheço-me perplexo ante a marcha das negociações e o velho ‘toma lá, dá cá’ em torno da reforma da previdência social.
Ajudem-me, leitores: até que ponto uma boa causa?, a reversão da óbvia falência do atual sistema previdenciário, pode ocorrer via procedimentos escusos, imorais, corruptos e corruptores? Em que medida os fins justificam os meios? – reedita-se a antiquíssima questão.
 
Barganha imoral
 
Pois o governo pretende reverter a insolvência do sistema previdenciário mediante trocas de favores com os parlamentares dos quais depende a reforma, e esses deixam claro que só o farão se forem atendidos em reivindicações nem sempre lícitas, todas inoportunas porquanto eivadas de vício original: a barganha é em si imoral, e nenhuma retribuição em cargos, emendas e demais favores justifica-se em processo de tamanha relevância.
 
Dúvidas...
 
Afora os aspectos formais, o conteúdo das propostas em discussão deixa-me ainda mais preocupado.
Décadas de exame e conjeturas sobre o tema não me ensejam opinião definitiva. Tenho dúvidas quanto à solução mais efetiva e socialmente justa, entre os extremos em que se coloca a questão. E espanta-me que tanta gente esteja tão segura das opiniões que emite, todas com escassa fundamentação.
 
...e certezas
 
Só estou certo de que o sistema previdenciário em vigor está falido e há de ser reformulado. Do contrário, em curtíssimo prazo estará inadimplente e deixará à míngua os aposentados que dependem dos subsídios para sobreviver.
Afora essa fatalidade tenho outra certeza: a de que os principais oponentes de atualização do sistema, as corporações sindicais, aferram-se a dualismos ultrapassados e empenham-se em manter privilégios, sob a capa de benefícios que tentam elevar ao status de direitos.

Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br


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