Brasília, 23 de Abril de 2018
Página inicial
Quem somos
Contato
Cadastre-se
Anuncie aqui
Notíias | Entrevistas | Notas | Artigos | Enquete | TV Câmara | TV Senado | Agendas

Anuncie Aqui

Velhos press√°gios, novos pesadelos 17.04.2018

Marco Antônio Pontes

 

Maus presságios

 
Embora provavelmente mais velho, este colunista não quer emular o Velho do Restelo, agourento personagem d’ Os Lusíadas.
Partiam as caravelas da expedição de Vasco da Gama, com a missão de finalmente dobrar o temido Cabo das Tormentas e abrir o caminho marítimo até as Índias e o timorato ancião, a contemplar a esquadra às margens do Tejo, lamentava por antecipação o destino do filho embarcado.
“[...] Por que de mim te vais?, ó filho caro,/a fazer o funéreo enterramen-to,/onde sejas de peixes mantimento! [...] Por que is aventurar ao mar iroso? [...]” – é Camões quem dá voz ao ansioso pai.
 
Novas tormentas
 
Este provecto escriba recusa o pessimismo do Velho do Restelo, emblema de uma certa elite portuguesa que se opunha à modernidade, ao avanço tecnológico que propiciou as grandes navegações, alargando os horizontes europeus e o intercâmbio entre os povos, a prometer tragédias aos que ousavam enfrentar o “mar tenebroso”.
Emprego a analogia, mesmo assim, porque o mundo de hoje tem novos e tormentosos cabos a dobrar, inclusive no Brasil.
 
Vácuo de liderança
 
Vejam como se desenham aqui as próximas eleições, à qual as forças que dominaram a cena política por três décadas chegam desarticuladas e indecisas.
O populismo petista e os partidos de esquerda que o orbitam (ou orbitavam) perderam o maior líder e candidato natural, inelegível e fadado a assistir ao pleito de trás das grades.
Não se organizam melhor as forças de centro e adjacências, à esquerda ou à direita: desentendem-se quanto a quem melhor as represente, oscilam entre candidaturas próprias, alianças e com quem aliar-se, num vácuo de liderança de preenchimento improvável em tempo hábil.
 
Indefinição anárquica
 
Quem deveria ocupar esse espaço e aglutinar o centro, o presidente da República – membro de partido que já foi de centro-esquerda, aliou-se ao populismo, pendeu à direita e hoje é uma coisa nem outra, muito ao contrário... – tende a figurar no processo eleitoral como um ‘pato manco’ (e de asas quebradas), mercê da incapacidade de liderar e superar as vicissitudes sem tornar-se refém do fisiologismo do próprio MDB e aliados.
Enquanto isso a direita tradicional, civilizada, perde espaço e movimenta-se, uma parte, rumo ao centro e dissolve-se na indefinição meio anárquica dos novos parceiros, enquanto outra é cooptada pela ultradireita retrógrada, reacionária.
 
Semelhança preocupante
 
Nada de bom augura este quadro. Num dos cenários possíveis a eleição seria disputada por sete ou oito candidatos que deveriam ser viáveis – seja porque respaldados pelos partidos ou coligações mais fortes, seja por destacarem-se nas pesquisas –, afora outro tanto dos chamados ‘nanicos’.
Tudo em preocupante semelhança com o ocorrido em 1989, nas primeiras eleições presidenciais pós-ditadura, quando o então presidente claudicou, abdicou da liderança do processo e políticos tradicionais, respeitáveis (Aureliano, Brizola, Covas, Ulisses) perderam terreno e acabaram suplantados pelas ‘novidades’ de então, Collor e Lula.
Deu no que deu.
 
Perverso fato novo
 
Dir-se-ia que as situações são incomparáveis, o Brasil evoluiu. Sim, evoluiu mas nem sempre (ou em tudo) para melhor.
É certo que as instituições amadureceram; se continuam imperfeitas, estão mais resistentes.
Entretanto, o atual processo eleitoral mal começou e já se deixa marcar por um novo, perverso ingrediente: o ódio a conformar a ação política, fruto do perverso ‘nós contra eles’ inaugurado na campanha presidencial de 2014 e exacerbado no impeachment.
 
Pesadelos reais
 
Em meio a tanta incerteza, nada é impossível; nem a realização dos piores pesadelos.
Quem ousaria imaginar há um século que a Alemanha, pátria do racionalismo, geraria a suprema irracionalidade do nazismo? Que a civilizadíssima Itália de nosso tempo (foi anteontem!) entregar-se-ia ao burlesco Berlusconi e ainda hoje se deixe assombrar por tal aberração?
 
Grotesco... e possível
 
Convém-nos colocar barbas de molho: nas circunstâncias em que se ferirá a campanha eleitoral, sob controvérsias e viciada por fake news nas redes sociais, nem o grotesco Bolsonaro estará descartado – ainda que lhe falte fôlego ao perder o adversário dos sonhos, o decadente e condenado Lula.
Afinal até a sólida democracia estadunidense resvalou na insanidade, elegeu o destrambelhado Trump e agora seu decantado esquema de freios e contrapesos ameaça desandar. Terão os freios perdido a eficiência?, estará descalibrada a balança?
 
Crimes reiterados
 
Ao encerrar-se a semana a Procuradoria Geral da República denunciou Jair Bolsonaro por crime de racismo – no STF, pois ele ainda goza de privilégio de foro. A ação contempla também as investidas do parlamentar fluminense contra índios, quilombolas, homossexuais, transgêneros e outras minorias, afora o reiterado desrespeito às mulheres e seus direitos, previstos em lei.
 
Inelegível
 
A denúncia, por si mesma, é um petardo nas ambições políticas de Bolsonaro. Fará crescer a já enorme rejeição da sociedade a seu discurso obsoleto. Se for aceita, somar-se-á a outro processo em que já é réu e poderá ferir-lhe mortalmente as pretensões.
Bastará alguém propor um interessante silogismo: o STF decidiu (naquele imbróglio do Renan) que réus em ações penais não podem substituir o presidente da República em eventuais ausências; portanto, muito menos se habilitariam à própria Presidência; logo, não podem candidatar-se à função.
 
Afronta à lei
 
Mais uma vez a Justiça é colocada no centro da controvérsia ao ter de preencher o vazio político gerado pela omissão da Câmara, que dá raia livre ao discurso intolerante de Bolsonaro.
Antecipo possível objeção: qualquer cidadão, portanto também o parlamentar, tem direito a expor opiniões, mesmo estapafúrdias e odientas.
Tudo bem. Só não podem afrontar a lei, como tem feito Bolsonaro.
Que os tribunais decidam, pois.
 
Justiça retardada
 
E então o que seria solução embute outro problema: a Justiça não decidirá, não a tempo de evitar indefinições e instabilidade nas eleições deste ano. Agisse com presteza, definiria o destino de Bolsonaro antes que se consumasse a candidatura e ultrapassaria a controvérsia.
É mais um débito na conta do foro privilegiado, que afoga de processos os tribunais superiores e retarda a prestação de justiça. E justiça retardada, tem-se ouvido até no STF, não é justiça.
 
Tartaruga aleijada
 
Valho-me do precioso auxílio do intelectual pernambucano Jesus Ivandro Campos – e assim começo a cumprir a promessa de partilhar com os demais leitores a densa mensagem com que me honrou. Ele esgrime um libelo contra o ‘foro especial por prerrogativa de função’:
– Das centenas de pessoas denunciadas nesses quatro anos da Lava Jato, a serem julgadas pelo STF face ao famigerado ‘foro privilegiado’, apenas os casos da senadora Gleisi e marido e do senador Jucá estão andando, a passos de tartaruga aleijada. Ridículo.
Semana que vem tem mais, de STF e seu crítico.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 


ABC POLITIKO - LINHA DIRETA COM O PODER
COMENTE ESTE ARTIGO   LEIA COMENT√?RIOS (0)  

Voltar a P√°gina Principal Voltar a P√°gina Principal Voltar a P√°gina Principal Voltar a P√°gina Principal
VEJA MAIS

21.04.2018 Val√©ria de Velasco, milit√Ęncia e ternura
21.04.2018 Terminou
18.04.2018 Porandubas Políticas
17.04.2018 Velhos press√°gios, novos pesadelos
16.04.2018 O uso dos nomes em v√£o

VEJA TODOS

SRTVN Quadra 701 Bloco B Sala 826 - Centro Empresarial Norte | Brasília - DF | CEP 70710-200 | Fone: (61) 3328-2991 | Fax: (61) 3328-2152