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Nosso projeto adiado e o da FIFA vitorioso 06.07.2018

Marco Antônio Pontes

 

Projeto adiado

Pois é.
Não foi dessa vez que a seleção brasileira de futebol chegou à sexta conquista da Copa do Mundo.
Os brasileiros afundamos algumas horas, ou dias os mais sensíveis, em senti-mentos como decepção, tristeza, até revolta dos que acham que ‘foi culpa do juiz’.
Com habitual tendência ao exagero, a imprensa esportiva diz tratar-se de ‘comoção nacional’...
Enfim nada que não passe rápido, logo a gente volta para os problemas reais, individuais ou coletivos para constatar que o mundo não acabou.

Rússia exibida

Aliás nem a Copa acabou mas já atingiu os principais objetivos, tanto os dos promotores locais quanto os da Federação Internacional do Futebol, a FIFA.
A Rússia, mais extenso país do planeta, potência nuclear, economia e influência mundial em ascensão, tornou-se nação quase proscrita do concerto internacional em função de conflitos políticos com o ocidente.
Usou a Copa para mostrar-se ao mundo mais favoravelmente, exibir a riquíssima diversidade física, étnica, as belezas naturais, a portentosa tradição cultural e artística, além de modernidade nas grandes cidades, nos transportes, na tecnologia.

Janela seletiva

Parte disso é ilusão, a exemplo dos estádios modernosos como os brasileiros da Copa anterior, muitos fadados a igual destino: ‘elefantes brancos’ à míngua de público.
Afora os problemas que a Rússia não mostrou, como os da política interna.
Ao fim e ao cabo, o conjunto ensejou que a relativizada democracia sob Putin abrisse uma janela pela qual o mundo visse o que quis mostrar.

Escândalos pra trás

A FIFA aproveitou bem o momento propício a obscurecer os escândalos recentes, quando teve que banir a cúpula flagrada em corrupção (e a da Federação europeia, parceira e rival).
Ficou mais rica, como nas anteriores copas e deixou os problemas – o tal ‘lega-do’ – com os russos, que por enquanto não parecem importar-se.

Hegemonia ameaçada

Assim a entidade, patrona dos interesses do futebol do Velho Mundo, pôde dar sequência ao projeto iniciado quando a seleção brasileira conquistou o quinto campeo-nato, em 2002 e os europeus constataram que lhes escapava de vez a hegemonia: dos 17 torneios até então ocorridos os sul-americanos conquistaram nove, além de destacar-se nos eventos interclubes.
O status afrontava os tradicionais donos do futebol, que trataram de revertê-lo.

Revolução no esporte

Era preciso traduzir no campo de jogo a supremacia dos órgãos que administram o futebol, afirmar o poderio econômico da UEFA (a União Europeia de Futebol, com a qual a FIFA mantém relações de amor e ódio), das federações nacionais e clubes do continente.
Desde o bicampeonato da seleção brasileira (1958–62) já se estudavam as qualidades dos jogadores sul-americanos, as estratégias e táticas baseadas no improviso, na habilidade e perfeição técnica dos dribles inusitados, dos chutes de improváveis curvas, tudo a revolucionar o esporte criado na Inglaterra.
Até então houvera sete copas, das quais brasileiros e uruguaios ganharam quatro.

Futebol globalizado

O passo seguinte foi a ‘importação’ de craques, muito limitada até meados do século XX e escancarada quando vencemos mais duas copas (1970 e 1994) e no intervalo os argentinos emplacaram as de 1978 e 1986.
Nesse meio tempo, em coerência com a globalização, o futebol internacionali-zou-se: todas (menos uma) principais seleções desta Copa têm maioria de jogadores atuando fora do país – a exceção é a da Inglaterra, não por coincidência nação detentora da mais poderosa federação e dos clubes mais ricos.

Europa colorida

O projeto supremacista tem forte apoio num importante fenômeno de nosso tempo, ironicamente rejeitado por amplos segmentos sociais europeus: a migração.
Jovens atletas descendentes de imigrantes do Magreb (o norte africano), da África subsaariana, do Oriente Médio, da Ásia Central, da América Latina destacam-se nos clubes europeus, quase sempre suplantam os craques autóctones e integram todos os grandes clubes e seleções do continente.
Dá gosto! assistir à saudável mistura de cores da epiderme, variedade de antro-pônimos e respectivos idiomas que impulsiona a Europa nesta Copa.

Xenofobia em alta

Assim o esporte reflete a realidade e põe a nu a irracionalidade, a vileza do ul-tranacionalismo xenófobo que assola o continente.
Hungria, Polônia, Áustria, Itália têm hoje governos reacionários que não querem receber migrantes (nem refugiados de guerra!); na Alemanha, França, Reino Unido, grupos radicais de direita seguem análoga cartilha e ameaçam a realista, pragmática e benéfica abertura de seus governos, em maior ou menor grau favoráveis à acolhida.

Colonialismo futebolístico

Tem dado certo a estratégia da FIFA e UEFA. A partir de 2006 ganharam todas as copas e reverteram o placar: com a atual, a marca está em Europa 12 x 9 América.
O futebol correspondeu, ‘dentro das quatro linhas’, à hegemonia econômica, política e organizacional dos clubes e federações da velha Europa, ‘metrópole’ a ‘colonizar’ a periferia e cooptar-lhe os melhores atletas e treinadores.
Brasil, Uruguai, Argentina, orgulhosos multicampeões do passado e demais na-ções americanas, africanas, asiáticas converteram-se em fornecedores de matéria-prima, aliás mão-de-obra dos clubes da ‘metrópole’, quando não de jogadores naturalizados que lhes integram as seleções.

Coisas estranhas

Não gosto de teorias conspiratórias, mas algo muito estranho ocorre na Copa da Rússia, junto com a benvinda arbitragem de vídeo.
Consta que os árbitros, os titulares dentro do campo e os auxiliares que usam velhas ‘bandeiras’ ou modernos equipamentos eletrônicos, foram instruídos a deixar correr o jogo, relevar faltas menos flagrantes, desconfiar sempre de que uma agarrada, empurrão ou toque seja suficiente para obstar a ação do adversário.

Missão impossível

É improvável, se não impossível que as câmeras do VAR afiram a intensidade da ação de um corpo sobre o outro, avaliem-lhe o efeito sobre equilíbrio do atleta atingido.
Muito menos o árbitro e seus assistentes têm algo como um dinamômetro no o-lhar, para medir se houve impulso suficiente para configurar ‘falta’.
Restou efetiva, assim, a sugestão de economizar punições e ampliar a aceitação do corpo-a-corpo, do uso da força nas disputas individuais. O que privilegia as equipes cujos integrantes são mais corpulentos, em detrimento das que se valem da habilidade, do drible, do improviso.

Embate desigual

Não é preciso ser especialista em regras do futebol (nada claras, sempre sujeitas a interpretações) para perceber quem se beneficia das recomendações da Comissão de Arbitragem da FIFA. Basta rever as partidas entre sul-americanos e europeus nesta Copa para perceber que a liberação do corpo-a-corpo ajuda as seleções europeias, que prevalecem à força de encontrões, empurrões, puxadas, ‘carrinhos’, camuflados (ou não) toques no joelho, canela, calcanhar...
Sem desconhecer que os europeus valem-se também da arte recém-adquirida dos imigrantes, seus principais craques.

Pronto!, mas...

Nada disso é fundamental em nossa frustração nesta Copa. Ocorreu que os bel-gas foram mais eficazes nos lances decisivos, por isso mereceram a vitória e... pronto!, perdemos.
Mas é também inegável que, como em partidas anteriores, fomos prejudicados pelos árbitros (com ou sem vídeo) em lances decisivos, tudo em decorrência das reco-mendações do International Board.

Arbitrar o arbítrio

Nada reverterá a derrota da seleção do Brasil e demais latino-americanas nesta Copa, mas haverá algo a fazer contra a pretensão hegemônica dos europeus e esses métodos nada éticos de que se valem para afirmá-la. Latino-americanos, africanos, asiáticos – os prejudicados pelos critérios da FIFA – haveriam de unir-se contra o arbítrio da Comissão de Arbitragem.

Reação possível

As confederação de futebol do Brasil, Argentina, Colômbia, México... e as enti-dades americanas (as tais CONMEBOL e CONCACAF, ineptas até nas siglas que sequer lhes explicitam os nomes) seriam líderes naturais da rebelião, mas afogam-se em seus próprios males, carecem de legitimidade e credibilidade.
E os clubes – ah!, os nossos clubes... – precisam organizar-se, aprender a utilizar em favor do esporte nossa força econômica; afinal o PIB brasileiro, vis-à-vis Europa, só é menor que os da Alemanha e França, equipara-se ao do Reino Unido e é muito maior que o das demais nações que nos ‘colonizam’ o futebol.

Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 



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