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Porandubas Políticas 09.08.2018

Gaudêncio Torquato

Nuvens em dissipação

Mês de agosto é mês do azar, mês do cachorro louco, como reza o ditado popular, mas nesse ano eleitoral é também o mês em que as nuvens começam a se dissipar nos horizontes da política. Com as convenções realizadas, parcerias formadas e nomes de vices escolhidos, o pleito entra no ritmo de campanha. Dia 16 de agosto, começa a campanha de rua e a propaganda via internet. Já a propaganda no rádio e na TV terá início em 31 de agosto e fim em 4 de outubro.

13 candidatos

Com a saída de Manuela D Ávila, cujo partido, o PC do B, fechou aliança com PT, serão 13 os candidatos:

CANDIDATO VICE PARTIDOS DA COLIGAÇÃO
Álvaro Dias (Podemos) Paulo Rabello de Castro (PSC) Podemos, PSC, PRP,PTC
Cabo Daciolo (Patriota) Suelene Balduino Nascimento (Patriota) Patriota
Ciro Gomes (PDT) Kátia Abreu (PDT) PDT, Avante
Geraldo Alckmin (PSDB) Ana Amélia (PP) PSDB, PP, PTB, PSD, SD, PRB, DEM, PPS, PR
Guilherme Boulos (PSOL) Sônia Guajajara (PSOL) PSOL,PCB
Henrique Meirelles (MDB) Germano Rigotto (MDB) MDB, PHS
Jair Bolsonaro (PSL) Hamilton Mourão (PRTB) PSL,PRTB
João Amoêdo (NOVO) Christian Lohbauer (Novo) NOVO
João Goulart Filho (PPL) Léo Alves (PPL) PPL
José Maria Eymael (DC) Helvio Costa (DC) DC
Luis Inácio Lula da Silva (PT) Fernando Haddad (PT) PT, PROS
Manuela D Ávila (saiu do páreo)   
Marina Silva (Rede) Eduardo Jorge (PV) REDE,PV
Vera Lúcia (PSTU) Hertz Dias (PSTU) PSTU

Quatro blocos

Um ligeiro exercício de análise de posicionamentos aponta quatro grupos de candidatos: o maior, reunindo o centro, que agrega os candidatos Geraldo Alckmin, Álvaro Dias, Henrique Meirelles, João Amoêdo e José Maria Eymael; o grupo de esquerda, com Guilherme Boulos, Lula (Fernando Haddad) e Vera Lúcia; o grupo de direita, abrigando Jair Bolsonaro e Cabo Daciolo; e o grupo de centro-esquerda, juntando Ciro Gomes, Marina Silva e João Goulart Filho. Mas há quem não aceite mais essa classificação.

Duas posições

O cientista político espanhol Manuel Castells, no Caderno Aliás, do Estadão, pontua que a grande questão “não é mais o embate entre direita e esquerda e sim de partidos democráticos (ainda que corruptos) contra uma coalizão neoautoritária apoiada por grupos de interesses ideológicos extremistas internacionais”. Tem certa lógica. A rigor, não se trata da versão clássica entre direita e esquerda.

Leitura comparativa

Após a queda do Muro de Berlim, ficou difícil sustentar o escopo do socialismo clássico ou do comunismo, ainda mais quando seu principal partido, PT, afundou-se na corrupção, flagrado com outros nos dois maiores escândalos da atualidade: mensalão e Lava Jato. Portanto, a divisão que estamos fazendo sobre os quatro grupos leva em consideração os escopos temáticos dos partidos - mesmo não se sabendo o que todos pensam sobre a densa agenda nacional -, estando sujeita a objeções. Para o leitor, a inserção dos candidatos no arco ideológico ajuda a entender as diferenças entre uns e outros.

Cenário I

Façamos algumas reflexões. O primeiro cenário é o da polarização entre esquerda e direita. Trata-se da paisagem que coloca na arena de lutas o capitão direitista Bolsonaro e o substituto de Lula, no caso, Fernando Haddad. Esse cenário leva em consideração o poder de fogo do ex-presidente Luiz Inácio, significando transferência de votos. Haddad poderia chegar, por exemplo, aos 20%, índice satisfatório para ingressar no segundo turno. Bolsonaro sustentaria sua posição, tornando-se o comandante da artilharia contra o PT e as esquerdas. As margens dividiram seus votos entre os dois, mas as classes médias revoltadas tenderiam a caminhar na direção de Bolsonaro, visto como um “antídoto” ao PT.

Cenário II

O segundo cenário é o que mostra a clássica competição entre PSDB e PT. Nesse caso, o tucano Geraldo Alckmin seria guindado ao segundo turno, deslocando, assim, o candidato Bolsonaro. O PT garantiria seu nome. Nesse caso, o voto racional seria direcionado ao ex-governador de São Paulo. Esse voto racional seria o voto de contingentes das classes médias, que não gostariam de ver um perfil da extremidade do arco ideológico governando o país. In medium virtus. A virtude está no meio. Esse lema pode explicar o cenário. Ademais, a chapa totalmente militar de Bolsonaro - com um vice que é general aposentado e radical - causa certo temor: o de vermos novamente um general no comando da Nação.

Cenário III

O terceiro cenário coloca no segundo turno o candidato tucano, Alckmin, contra Bolsonaro. Nesse caso, a opção eleitoral exclui o PT e abre o embate entre o eleitor emotivo do capitão e o eleitor racional do Alckmin. As margens e classes médias indignadas fechando com o militar e as classes médias-médias apostando em um perfil representando maior equilíbrio. Esse cenário leva em consideração o fato de que o eleitorado de Bolsonaro se manterá firme até o final, enquanto Alckmin, com estrutura partidária capilar e grande exposição na mídia eleitoral avançaria sobre eleitores de Ciro, Marina e Álvaro Dias.

Cenário IV

O temor social contra os extremos - Bolsonaro e Haddad - conduziria o voto para espaços centrais, o centro e o centro-direita do ex-governador paulista contra o perfil de centro-esquerda assumido pelo ex-governador cearense Ciro Gomes. No segundo turno, Ciro levaria os apoios de toda a esquerda, enquanto Alckmin ganharia o apoio de fortes contingentes centrais e os blocos conservadores da direita.

Cenário V

Esse é o cenário que colocaria Bolsonaro contra Ciro Gomes. O eleitorado não gostaria que PT e PSDB voltassem ao Palácio do Planalto, e decidiria trazer para a frente de lutas os candidatos de linguagem contundente, a chapa militar do capitão e do general Mourão e o ex-ministro de fala destemperada. Seria uma disputa com alta concentração de artilharia entre os competidores.

Marina e Meirelles

A candidata Marina Silva, mesmo vestindo o figurino mais ético, será tragada pelos candidatos com maior poder de fogo no campo midiático-eleitoral. Marina recolheu-se ao seu refúgio, na Rede Sustentabilidade, fechando portas para parcerias. Em política, tudo é possível, até um milagre que possa entronizar a amazônica figura no altar presidencial. Cenário sonhático. Já Henrique Meirelles trará o discurso sobre a redenção do país. Dirá que livrou o Brasil da maior recessão de sua história. Este consultor continua inserindo o candidato do MDB nas improváveis hipóteses.

Fatores de influência I

Um conjunto de fatores balizará a tomada de decisão do eleitor. Apresento alguns (a ordem de apresentação não quer significar mais força ou fraqueza): 1. Economia - o estado de satisfação social, que se pode resumir em minha tradicional equação: BO+BA+CO+CA= Bolso, Barriga, Coração, Cabeça, ou seja - Bolso cheio, Barriga satisfeita, Coração agradecido, Cabeça votando em quem propiciou bem-estar; 2. Ordem contra a bagunça (a corrupção); 3. Esperança - o candidato que melhor incorpora o espírito social, melhor atende às expectativas da sociedade; 4. Recall do passado - Associação com figuras/perfis que proporcionaram bem-estar.

Fatores de influência II

Taxa de indignação/ódio - Como estarão os ânimos sociais na primeira semana de outubro? A campanha alimentou ou amainou o ódio entre grupos, militantes, bases eleitorais? Algum fenômeno de alto impacto social ocorrido durante a campanha; 6. Tempo de Exposição - O espaço midiático-eleitoral dos candidatos tem importância. Alguns, com poucos minutos, serão canibalizados pelos candidatos com maior tempo de exposição.

Renovação

Não será desta feita que veremos renovação política no Congresso. Essa meta ficará para as eleições de 2022, quando o país avançar com sua reforma política, objeto de retalhos e fatiamento.

Tiririca

Depois de desistir da reeleição, o palhaço Tiririca se arrependeu e decidiu voltar à Câmara. Viu que o mar não está pra peixe. O mercado do riso está encolhido. E, ao que dizem seus críticos, o riso dele está fora de moda. Melhor ser deputado e ter direito a um bom salário. Melhor do que está sempre fica.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato
 



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