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Vadia e delirante 12.09.2018

André Gustavo Stumpf

Campanhas eleitorais são sempre imprevisíveis, no Brasil e no exterior. Jair Bolsonaro levou uma facada em Juiz de Fora, Minas Gerais. Não foi golpe fatal, mas fez estrago na região do abdomem, ainda assim o candidato continuará a fazer seu proselitismo. Porém, o capitão se transforma em vítima. Este violento incidente tem o poder de amplificar o discurso de quem está em primeiro lugar na corrida para o Palácio do Planalto. Uma boa dose de sangue, se bem aproveitada pelos marqueteiros, poderá coloca-lo no Palácio do Planalto já no primeiro turno. Este é o sonho daqueles que apoiam a candidatura do militar. Vale tudo na política.

É muito cedo para apontar responsabilidades. Na política o que importa é a consequência ou a narrativa, como gostam de dizer os petistas. Recentemente, aliás, os petistas decidiram que o comitê de direitos humanos, órgão assessor do Conselho, decidiu por liminar (!!) que Luís Inácio Lula da Silva deve concorrer ao cargo de presidente da República, apesar de a legislação brasileira apontar em sentido contrário. Vale a versão. A presidente do Partido, Gleisi Hoffman já declarou que a ONU determinou ao governo brasileiro a libertação imediata de Lula. As narrativas são desvairadas e absolutamente dissociadas da verdade.

Eduardo Campos morreu no decorrer da eleição passada. Ele saiu de cena e provocou rápida e profunda rearrumação na posição dos candidatos. Naquele momento, Marina Silva assumiu o lugar do companheiro falecido, Aécio Neves ascendeu ao segundo lugar e passou a disputar, voto a voto, com Dilma Rousseff. A candidata de Lula venceu com uma diferença de 3% dos votos. Coisa mínima. Hoje como ontem, aparece na frente dos candidatos a possibilidade de o Sobrenatural de Almeida, imortal personagem de Nelson Rodrigues, entrar em campo e mudar substancialmente o encaminhamento dos fatos.

Os fatos políticos são rápidos e provocam efeitos duradouros. O suicídio de Getúlio Vargas em agosto de 1954 colocou os trabalhistas em posição de destaque até hoje. O trabalhismo do PT não é o mesmo daquele praticado por Vargas, mas os líderes de agora não gostam de falar das diferenças. Preferem se esconder atrás da divisão do país entre nós e eles. A tremenda campanha em favor de Lula demonstra que a organização dos sindicatos, processo iniciado nos anos trinta do século passado pelo ditador gaúcho, se projetou no tempo e persiste vivo no Brasil.

Em agosto de 1961, Jânio Quadros levantou, num repente, da cadeira presidencial e anunciou que renunciava ao cargo de Presidente da República. Isso aconteceu no dia do soldado, 25 de agosto. Correu para a base aérea de Cumbica, em São Paulo, na doce ilusão de que o povo iria buscá-lo. Ninguém apareceu lá. Ato contínuo embarcou melancólico num navio cargueiro com destino a Europa. Deixou no Brasil a crise chamada João Goulart, vice-presidente, líder trabalhista, que estava em visita a China comunista, o que na época era pecado mortal.

A história política do Brasil é vadia e delirante. Não há linha reta. Nenhuma previsibilidade. Tudo é novidade. Cada dia tem sua agonia. O que pode ser previsto é desprezado. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) não explica porque o Museu Nacional não tinha sistema de prevenção de incêndio, nem seguro contra sinistros. Não explica também a incrível sucessão de incêndios em suas unidades. Desde 2011 pegaram fogo o Palácio Universitário, a Faculdade de Letras, o Centro de Ciências da Saúde, o alojamento estudantil e até o prédio da Reitoria.

O desastre do Museu Nacional é consequência lógica da administração daquela instituição. Tudo se encaixa. Displicência, desorganização e descompromisso. E na política, quando os eleitores começam a se definir, emergem soluções simplistas. Tentativas de morte são recorrentes na história. No Brasil e no exterior.

André Gustavo Stumpf é jornalista
 



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