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Mais emoção ou mais razão? 11.09.2018

Gaudêncio Torquato

         A cinco semanas do pleito, nuvens pesadas empanam o cenário. Não enxergamos os atores do palco no segundo turno, mas dá para distinguir traços que poderão influenciar a decisão do eleitor, a começar por duas alavancas do sistema cognitivo: a razão e a emoção. A emoção abriga a torrente de sentimentos como raiva, desespero e por aí vai. A razão implica processos críticos, comparação, análises apuradas sob a sentença: o governante certo no momento certo e no lugar adequado. 

         Como se extraem índices de razão e emoção em uma campanha? Grupos submetidos a pesquisas qualitativas dão aos marqueteiros as respostas. Mas uma simples observação sobre o dicionário usado pelos figurantes e suas respectivas assistências é suficiente para se ter ideia dos vetores que movem o interesse. O clima geral do país – satisfação/insatisfação do consumidor – pode ser um ponto de partida. Como tenho enfatizado, o bolso enche a geladeira, que supre a barriga e comove o coração, fazendo com que a cabeça aprove candidatos. A recíproca é verdadeira.

         Na paisagem, o vermelho do sangue derramado pela violência clama contra a bandidagem. O Brasil, pelas ondas da criminalidade, tornou-se gigantesca delegacia de polícia. Daí o crescente discurso do fígado, sob o medo da população.
  
         A expressão ainda se alimenta de um composto político, caracterizado pelo radicalismo dos extremos do arco ideológico, onde exércitos de Bolsonaro atacam a militância petista, gerando recíproco tiroteio. Sob essas fontes – a bandidagem e o lulopetismo – expandem-se os fluxos de emoção e engajamento mais intenso em regiões menos desenvolvidas politicamente como Nordeste (26,62% dos votos), Norte (7,83%) e Centro-Oeste (7,29%), com eleitorado de mais de 61 milhões de pessoas. Está integrado ao território conservador, com voto populista/de cabresto e emotivo.

         O discurso da razão é mais intenso no meio da pirâmide social, particularmente no Sudeste (43,38% dos votos) e Sul (14,42%). Sulistas tendem a surfar na onda do voto nacionalista, enquanto os de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, estão próximos da racionalidade. A opção de votar fica para momentos finais.

         São observações gerais, ressalvando que há votos emotivos e racionais por toda a parte. Pelas características de cada área, é possível chegar a um razoável painel regional de tendências. O Brasil está rachado, sinalizando certa igualdade entre os números. De maneira aproximada, pode-se distinguir 30% de votos para cada margem extrema (direita e esquerda) e 40% para o centro e seus dois lados (centro-esquerda e centro direita). Nessa teia estão no páreo Jair Bolsonaro, Fernando Haddad, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e Marina Silva.

          A temperatura dos próximos dias, com o chamamento dos programas eleitorais, contribuirá para fechamento do processo decisório. De forma a direcionar o rumo a ser seguido pelos 147 milhões de eleitores.
 
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato



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