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Porandubas Políticas 12.09.2018

Gaudêncio Torquato

 

Abro a coluna com uma historinha do padre Elesbão, das Minas Gerais.

No confessionário

Numa cidadezinha de Minas, Padre Elesbão estava esgotado de tanto ouvir pecados, ou, como dizia, besteiras. Decidiu moralizar o confessionário. Afixou um papelão na porta da Igreja, dizendo: O Vigário só confessará:

2ª feira - As casadas que namoram.
3ª feira - As viúvas desonestas.
4ª feira - As donzelas levianas.
5ª feira - As adúlteras.
6ª feira - As falsas virgens.
Sábado - As “mulheres da vida”.
Domingo - As velhas mexeriqueiras.

O confessionário ficou vazio. Padre Elesbão só assim pode levar vida folgada. Gabava-se:

- Freguesia boa é a minha... mulher lá só se confessa na hora da morte!
(Leonardo Mota em seu livro Sertão Alegre)

Bolsonaro anima plateias

A campanha esquenta sob o calor da emoção gerada pelo atentado ao candidato Bolsonaro. O imponderável, mais uma vez, fez questão de nos visitar para adensar a fumaça no horizonte. A 25 dias do pleito, não se sabe o que vai acontecer. A militância bolsonariana está gritando seu nome nos bares, nas praças e, para agredir opositores, por ocasião de visita de outros candidatos a recantos das cidades. Militantes estão mostrando a cara. Nas redes sociais, desferem pauladas em quem se opõe ao capitão.

A emoção

A expressão cheia de bílis, que se ouve em todos os cantos do país, se alimenta de um composto político caracterizado pelo radicalismo que habita os extremos do arco ideológico, onde exércitos de Bolsonaro jogam sua artilharia pesada contra a militância petista, gerando recíproco tiroteio na arena das redes sociais. Sob essas duas fontes de conteúdo - a bandidagem e o lulopetismo - expandem-se os fluxos de emoção, provocando engajamento mais intenso em regiões menos desenvolvidas politicamente como o Nordeste (26,62% dos votos), o Norte (7,83%) e o Centro-Oeste (7,29%). A população eleitoral dessas regiões chega a mais de 61 milhões de eleitores. Trata-se de um eleitorado integrado ao território conservador, onde é forte o voto populista/cabresto, de teor emotivo.

A razão

Já o discurso da razão é mais intenso nos estratos médios da pirâmide social, particularmente nas regiões Sudeste (43,38% dos votos) e Sul (14,42%), com a observação de que os sulistas tendem a surfar na onda do voto de cunho nacionalista, enquanto os votos de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, onde habitam as mais poderosas classes médias e as maiores organizações sociais, estão mais próximos ao abrigo da racionalidade. Nesse caso, a opção de votar fica para os momentos finais, após uma varredura na moldura dos candidatos e análise de suas qualidades.

Entre 20% a 30%

Se Bolsonaro segurar seu índice de intenção de voto - 24%: subiu dois pontos segundo a última pesquisa Datafolha -, entrará no segundo turno. A dúvida é se conseguirá ou não sustentar sua posição. Pelo andar da carruagem, continuará fazendo campanha a partir do quarto do hospital Albert Einstein onde se recupera. De 8 segundos de TV, ganha visibilidade total na rede aberta. Seus filhos e adeptos continuarão a enviar fotos da convalescença. Pesquisa do BTG Pactual lhe deu 30%. Aliás, os bancos continuam a acompanhar a trajetória do candidato por meio de tracking - pesquisa telefônica. Esse tipo de pesquisa mostra que Bolsonaro cresceu mais que a oscilação de dois pontos para cima dentro da margem de erro.

Sudeste

Bolsonaro tem como ponto nevrálgico o Nordeste, onde se abrigam quase 27% dos votos. Lá, Ciro Gomes cresce. E no Sudeste, que tem 43,38% dos votos (63.902.486 votos), o capitão precisa evitar que eventual onda racional tire dele alguns votos. Só SP, com 22% do eleitorado (33 milhões de eleitores), foi o destino de 44% das visitas dos candidatos a presidente nessa primeira temporada de campanha. Essa é a região onde Alckmin espera crescer. Se não conseguir subir por aqui, Alckmin certamente não ganhará passaporte para o segundo turno. Ainda mais quando o Nordeste lhe fecha as portas. O fato é que da região mais esclarecida do país, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, poderá sair a vitória eleitoral. É aí onde o voto mais se esconde. No Nordeste, Norte e Centro-Oeste, onde o voto segue o coração, o sufrágio se repartirá em volumes maiores para Ciro, Haddad e Marina.

Marina cai

Ocorre que Marina Silva tomou uma queda nessa última pesquisa Datafolha. Este analista apontou essa possibilidade lá atrás. E a razão é sua pequena estrutura de campanha. Não tem apoio de grandes partidos e cabos eleitorais. Marina é a encarnação do perfil ético. Mas está difícil romper as velhas estruturas.

Ciro cresce

Já Ciro Gomes, com sua metralhadora falante, está crescendo. É quem melhor se expressa. Usa palavras fortes, faz duras críticas e está presente aqui e acolá. Ciro tem condições de lutar pelo segundo turno. Só nos últimos dias deverá ocorrer o processo de seleção final dos candidatos pelos eleitores. E é muito provável que Ciro seja o beneficiário do voto útil, aquele que não irá nem para o PT nem para Bolsonaro.

Alckmin devagar

Geraldo Alckmin caminha devagar. Seria o natural herdeiro do voto útil se tivesse encarnado o perfil do meio contra os extremos, Haddad e Bolsonaro. Mas o tucano anda a passos de tartaruga. Quase se arrastando. Se o eleitor enxergar nele condição de entrar no segundo turno, ainda seria possível destinar a ele o voto. Por enquanto, o ex-governador de São Paulo é uma incógnita. Hoje, está perdendo para Bolsonaro em São Paulo, Estado que governou por quatro mandatos.

Haddad, Andrade, Andar

Fernando Haddad ganhou ontem o status de candidato por obra e graça do “Salvador da Pátria”, dom Luiz Inácio. De dentro de sua sala de despachos na PF de Curitiba, Lula entronizou o ex-prefeito de São Paulo, batizando-o com o slogan: “eu sou você”. Sairá o “Lula dois”, o intelectual Haddad, a andar pelo país pregando a metamorfose: “Lula sou eu”. Dará tempo até 7 de outubro pregar a mentira e enfiá-la na cuca do eleitor? Andrade, como é chamado no Nordeste, não tem aparência como Lula. Não fala igual a ele, não pensa igual a ele, é um acadêmico - coisa que não combina com o perfil de Luiz Inácio - e também passa longe do feeling político do ex-presidente.

Transferência de votos

Mas se Lula conseguir usar seu bastão mágico e passar para Haddad uns 20% de votos, não se descarta a possibilidade do ex-prefeito paulistano adentrar a porta do segundo turno. Nesse caso, veremos a polarização entre perfis abrigados nas extremidades do arco ideológico. Nesse caso, teríamos o voto de exclusão. Parcela do eleitorado votando em Haddad para evitar Bolsonaro; e parcela do eleitorado votando em Bolsonaro para evitar Haddad. Ufa! Eleger alguém com um voto de exclusão - não por opção - é o retrato de um país rachado ao meio.

Derrota de Bolsonaro

Impressiona a rejeição a Bolsonaro: cerca de 40%. Um alto índice. Pela pesquisa Datafolha, perde para todos os candidatos, menos para Fernando Haddad. O fato é que ele carrega o facho de “candidato mais rejeitado”. A parte que o rejeita estabelece o nexo entre ele e os militares, nesse caso, lembrando os tempos de chumbo, a ditadura. Já os eleitores de Bolsonaro o identificam com a “ordem contra a bagunça”, o antídoto contra o PT. Essa é a visão geral do eleitorado.

Pacote de macarrão

Evitar ser flagrado em mentira ou dissonância: eis o calcanhar de Aquiles dos candidatos. E isso ocorre geralmente quando um candidato é instado a mudar de identidade ou esconder o que disse no passado. O eleitor percebe quando a pessoa torna-se artificial, um mero produto de marketing. E candidato não pode ser trabalhado como se trabalha um sabonete, um pacote de macarrão.

Alckmin e a marca anti-pt

Geraldo Alckmin vê distante a possibilidade de vestir o manto de “anti-PT número 1”. Perde a condição para Bolsonaro. Passou muito tempo de campanha atacando o capitão. Só agora começa a atacar o PT. Tarde. Deveria ser considerado o antídoto contra o lulo-petismo. Mas seus marqueteiros, possivelmente induzidos por pesquisas mal interpretadas, vestiram nele o manto de anti-Bolsonaro, esquecendo Fernando Haddad, só agora lembrado. Um erro. Deveria, ao menos, fazer sério alerta contra os dois. E de maneira criativa. Este spot não apareceu. Pelo menos até o momento.

Prisão de Richa

A prisão do ex-governador e candidato a senador, Beto Richa, no Paraná, deve respingar na campanha de tucanos pelo Brasil afora. Pela proximidade, a campanha de Alckmin em São Paulo ganha uma tropeçada.

Só agora

Tem-se a impressão de que só agora o eleitor toma conhecimento da campanha. O Não Voto - abstenção, votos nulos e brancos - refluiu bastante nos últimos dias. Queda de 10 pontos. Hoje, situa-se em torno de 25% a 28%. Já foi de 40%, segundo pesquisas.

Golpe? Não

O Blog do Noblat pesquisou: “Você é a favor de um golpe militar em vez da realização de eleições livres”? Responderam assim 9.565 leitores:

22% - Sou a favor do golpe
72% - Sou contra o golpe
06% - Não sei

Ambição desmesurada

No meu livro Marketing Político e Governamental, cito um pensamento do cientista político Robert Lane, em Political Life, que explica como a ambição desmesurada pelo poder funciona como um bumerangue. “A fim de ser bem-sucedida em política, uma pessoa deve ter habilidades interpessoais para estabelecer relações efetivas com outras e não deve deixar-se consumir por impulsos de poder, a ponto de perder o contato com a realidade. A pessoa possuída por um ardente e incontrolável desejo de poder afastará constantemente os que os que a apoiam, tornando, assim, impossível a conquista do poder”.

Campanha negativa

A campanha negativa é a do ataque ao adversário, seja lembrando frentes abandonadas, seja tentando vincular propostas novas com situações escandalosas, como promessas mirabolantes de acabar com inclusão do eleitor no SPC. Os profissionais de marketing podem, até, se respaldar em pesquisas para decidir usar as armas de ataque em campanhas. Em casos específicos, principalmente quando fica consagrada uma gestão irresponsável em alguma área - como a da saúde - mostrar cenários devastados pode gerar efeitos. Contanto que essa estratégia seja comedida, usada de maneira tópica. Não deve significar o eixo de um programa. O eleitor quer ver coisas positivas. Nos Estados Unidos, os ataques ganham mais eficácia em função do embate histórico entre os partidos democrata e republicano.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato



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