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Crônica da tragédia anunciada 09.10.2018

 Marco Antônio Pontes

 
Rejeição majoritária
 
As pesquisas pré-eleitorais, malgrado alguns equívocos no varejo, costumam acertar no atacado. Se não erram desta vez indicam inédito, estapafúrdio segundo turno em que se oporão os candidatos mais rejeitados pelos eleitores.
É esta a crônica do absurdo anunciado: o próximo presidente trará consigo o estigma da repulsa majoritária.
 
O centro incapaz,...
 
Afora improvável cataclismo – escrevo na madrugada de sábado –, amanhã te-remos de escolher entre ficar na frigideira ou saltar para o fogo. E nem conjeturemos, por irrelevante, de quem nos fritará em óleo escaldante ou incinerará na fornalha.
O espanto e indignação enderecemos aos experientes, sapientes (sabidos...) líde-res dos partidos de centro, centro-direita, centro-esquerda e respectivos candidatos, in-capazes de evitar a insana dicotomia.
 
...egoísta, ‘esperto’...
 
Eles teriam superado o maniqueísmo se, com mínimas inteligência e percepção do processo, pactuassem para conjurar o mal maior: a preponderância dos extremos que eles próprios recusam e a sociedade repudia.
Acordo neste sentido pareceu possível quando insinuado por Fernando Henrique, há três semanas; mas a proposta, não suficientemente clara, caiu no vazio.
 
...consuma a tragédia
 
Seria complicado, porém viável: os candidatos de centro e vizinhanças renuncia-riam às vésperas do pleito (nesta semana) em favor do que entre eles mais bem se situ-asse nas pesquisas. O ungido certamente chegaria ao segundo turno e derrotaria o ex-tremista restante.
Prevaleceram, porém, o egoísmo, a intransigência, a falsa esperteza... e a tragédia está prestes a consumar-se.
 
Millôr socorre-nos
 
‘Pra não dizer que não falei de flores’ e não ser irremediavelmente pessimista nesta quadra de maus augúrios, valho-me de interessante (promissora?) coincidência.
Ao iniciar esta coluna, ainda na madrugada de quinta para sexta-feira, assisti à Conversa com Bial (TV Globo) que focou Millôr Fernandes ao entrevistar Fernanda Torres, Cora Rónai e Cássio Loredano, todos discípulos-amigos do genial jornalista, humorista, cartunista, pintor, escritor, tradutor, pensador (“Livre pensar é só pensar”) – o intelectual múltiplo, multifacetado e abrangente.
Tinha que vir de Millôr, o alento.
 
Ainda dá pé!
 
O alento: Fernandinha lembrou um cartum de Millôr em que uma pessoa, sub-mersa a não ser pela mão, segura nela uma flor; um ‘balão’ expressa-lhe o pensamento:
“Ainda dá pé!”
 
(Des)concordâncias
 
– O Brasil é um país cada vez mais violento. Na raiz da violência, está a atuação de certos grupos de esquerda: antes os que optaram pela ação armada; hoje, os que optam pela guerra verbal, com poder ofensivo quase igual àquela. Essa ação estimulou reações violentas e também condenáveis da direita. Aliás, estruturou a direita no Brasil.
O diagnóstico, duro em forma e conteúdo, é de Everardo Maciel, que nunca foi de meias palavras. Endosso a conclusão mas, paradoxalmente, discordo das premissas.
 
Radicais, insensatos... e sinceros
 
São díspares o “antes” e o “hoje” referidos por Maciel e não só no tempo, so-bretudo quanto aos atores “de esquerda” a que atribui estímulo a “reações [...] da direi-ta” (em sua opinião; eu as diria ‘ações’ da direita, e imotivadas).
No tempo pregresso, o subsequente ao golpe de estado de 1964, “os que opta-ram pela ação armada” foram a tanto compelidos pelo autoritarismo que tentou elimi-nar ideias discordantes e cerceou, quase suprimiu a atividade política. Sem espaço para o dissenso, alguns ‘revolucionários sinceros porém radicais’ (no contexto a expressão é correta) encontraram nenhuma alternativa que não a de rebelar-se sincera, radical (e insensatamente), armas na mão.
 
Maioria frustrada,...
 
Sim, Everardo, eu sei. Já antes do golpe discutia-se na esquerda qual o melhor caminho para construir o socialismo, se a luta política necessariamente longa, paciente, a ocupar paulatinamente espaços conquistados à elite dominante, ou a insurreição que atropelaria o poder, manu militari.
Quase todos os socialistas brasileiros privilegiavam a primeira hipótese até que os sucessivos golpes nas instituições – 1964, 1965 e sobretudo o AI-5 de 1968 – e a du-ríssima repressão desfizessem as esperanças de evolução pacífica das disputas políticas.
 
...minoria imolada
 
Ainda assim a maioria dos militantes de esquerda, por convicção ideológica ou mero bom senso, recusou a aventura; só uns poucos nela imergiram e imolaram-se na empreitada.
A admiração por sua coragem não exclui a crítica: erraram na formulação estra-tégica e pagaram caro por isso, muitos com a vida. Seus atos no máximo terão oferecido pretextos à exacerbação da ditadura, processo que avançou de moto próprio desde 1964.
 
Falsa dicotomia
 
Retomo as conclusões de Maciel, agora quanto à consolidação da direita no Bra-sil, hoje.
De fato foram os erros, sobretudo os crimes de líderes e governantes petistas que estimularam os conservadores fundamentalistas a ‘sair do armário’ e apresentar-se como melhor solução para remover o atraso econômico, o ‘aparelhamento’ do estado, a cor-rupção e têm conseguido impor uma falsa dicotomia entre a extrema direita, que mal ou bem encarnam, e uma suposta esquerda igualmente extremada.
 
Esquerda ‘fake’
 
A imprensa tem-se deixado iludir pela retórica simuladamente esquerdista do PT.
A simplificação que os jornalistas adotamos em situações que tais – é complicado explicar a diferença entre discurso e realidade?, então apelamos à expressão mais simples: parece esquerda, fica sendo esquerda... – sedimentou a falsificação ideológica e contaminou a opinião pública, inclusive parcelas expressivas da intelectualidade, círculos acadêmicos, artistas...
 
Populismos simétricos
 
Contaminou, parece, até Everardo Maciel que em raro lapso, talvez desatento endossa a oposição ‘direita versus esquerda’ nesta trágica disputa eleitoral.
A qual de fato contrapõe o populismo obscurantista identificado com a extrema direita – aquela que nos infelicitou mais de duas décadas ao cercear a liberdade de ex-pressão, encarcerar, torturar e matar opositores – a outro populismo, este travestido de esquerda e viés também autoritário, que se valeu da corrupção para manter e tentar per-petuar-se no poder.
 
Barbárie, decadência
 
Retomo a provocadora mensagem de Maciel, que traduz um dito emblemático atribuído a Levy Strauss: “O Brasil passará da barbárie à decadência, sem conhecer o apogeu”. E este primor de ironia, a propósito do incêndio do Museu Nacional:
– Nunca imaginei que o critério adotado pela UFRJ para fixar a verba do Museu tenha sido equipará-la à do Senado para lavar carros. Pouco criativo e muito ir-responsável.
 
Abraço desencantado
 
– Abraço do leitor semanal – envia-me Sérgio Alves, junto com sintético e muito preciso diagnóstico das alternativas que nos apresentam as urnas, amanhã e num pro-vável segundo turno:
– Perto dos setenta anos, nunca vi a sociedade brasileira tão dividida. Entre o lulopetismo corrupto e o autoritarismo militarista, prefiro anular meu voto.
 
Voto contra todos
 
Retribuo o abraço ao ilustre acadêmico, agradecendo-lhe a honrosa leitura. E permito-me sugerir alternativa: melhor votar em branco, ainda que entendimento a meu ver equivocado da legislação atribua ao ato igual valor ao do voto nulo – zero.
Mas pelo menos assim a gente afirma opinião: queremos votar, mas recusamos os candidatos apresentados.
 
Cacareco, macaco Tião...
 
Aliás, Sérgio, creio que o voto nulo fazia sentido no tempo em que o eleitor marcava ou escrevia na cédula os nomes preferidos. Então era possível protestar, até mediante ‘sufrágios’ em não candidatos ou, a aprofundar ironias, ‘eleger’ o Cacareco (rinoceronte do zoológico paulistano), o macaco Tião (de seu correspondente na Quinta da Boa Vista, Rio)...
 
Voto facultativo
 
Na era da urna eletrônica o protesto perde significado; se anulamos o voto equi-paramo-nos a quem não consegue manejá-la.
Acredito até que se deveria excluir a alternativa: ou bem o eleitor vota – em can-didato ou em branco – ou forçadamente se abstém, por inabilidade.
Melhor ainda se a mudança acompanhar-se de outra, conceitualmente mais im-portante: a adoção do voto facultativo.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 
 


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