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De onde menos se espera... vem estresse na economia 08.01.2019

 Marco Antônio Pontes

 
Nada, mesmo
 
Otimista impenitente, acompanhei com favorável expectativa as primeiras mani-festações dos protagonistas do novo governo.
Pouco informaram os previsíveis discursos do presidente. Tanto na posse solene no Congresso, em que se permitiu fazer graça e reiterou estridências de campanha elei-toral, como na menos formal aparição do Parlatório do Palácio do Planalto, em pronun-ciamento veemente mas anódino, ele pouco acrescentou ao monocórdio discurso do deputado de muitos mandatos e poucas ideias.
Vale lembrar o chiste: “De onde menos se espera... é que vem nada, mesmo.”
 
Roubou a cena
 
Temperou a mesmice a intervenção nada protocolar e simpática, politicamente correta (sem aspas: correta, sim, inclusive politicamente) de Michele Bolsonaro.
Versada em LIBRAS – a linguagem brasileira de sinais –, sua mensagem de soli-dariedade e inclusão emocionou a audiência, quase fez chorar a intérprete que lhe verba-lizava os sinais e nem se prejudicou pelo final cafona, pouco adequado à ocasião, a atender aos que pediam: “Beija!, beija!”
 
Superexpectativa
 
Se pouco haveria de esperar-se dos discursos de Bolsonaro, enorme era a expec-tativa quanto a seus auxiliares, sobretudo os superministros que fez questão de qualificar na Economia, na Justiça e no núcleo militar que instituiu para acompanhá-lo de perto; lidera-o o general Heleno, titular do Gabinete de Segurança Institucional e o mais próximo conselheiro do presidente.
 
Experiência valiosa
 
Começo pelos militares – mas nem de longe imaginaria reeditar os infaustos tempos em que jornalistas perscrutávamos movimentos nos quartéis para entender os fenômenos políticos; agora é diferente, acredito no que repetidamente têm afirmado os líderes das Forças Armadas.
Pareceu correta a explicação do general Augusto Heleno sobre a presença de tantos generais no governo: em sua opinião trata-se de legítimo aproveitamento da expe-riência e competência de profissionais formados nas excelentes instituições militares de ensino (do fundamental ao doutorado), mantidas pelos impostos que todos pagamos.
 
Contra os cubanos
 
O general-conselheiro foi menos feliz ao ferir assuntos com que tem menos fa-miliaridade, ao repetir a cantilena contra a contratação de profissionais cubanos para servir às comunidades carentes, no bojo do Programa Mais Médicos; prefere em seu lugar os brasileiros. Haver-se-ia de perguntar-lhe: como?, se até agora não apareceram médicos, formados aqui, dispostos a servir aos desassistidos em centenas de locais sub-metidos à extrema pobreza, na apressada substituição tentada pelo governo depois que o então recém-eleito Bolsonaro anunciou a exclusão dos cubanos?
 
Todos incluídos
 
O augusto general atrapalhou-se também ao lidar com o conceito de ‘sociedade civil’, de que não gosta porque oporia civis a militares.
É nada disso: sociedade civil inclui os militares, na verdade compreende-nos to-dos. O termo ‘civil’ refere-se, no caso, a civilização, origina-se de civitas, cidade, porque a reunião de muitas pessoas em cidades intensificou a convivência e requereu instituição de normas civis (civilizadas, citadinas) de exercitá-la.
 
O vice, oportuno
 
No entanto, a mais oportuna intervenção de um militar (nada a ver com ‘inter-venção militar’, felizmente...) deveu-se ao vice-presidente, o general Hamilton Mourão, por enquanto uma grata surpresa de comedimento e moderação.
César Fonseca, no site Independência Sul-Americana, percebeu antes da demais imprensa o alcance e oportunidade da intervenção.
 
‘Assumindo’ o MRE
 
Enquanto o improvisado ministro das Relações Exteriores envergonhava a car-rière e perdia-se, já no discurso de posse, em lucubrações pseudofilosóficas eivadas de religiosidade mal digerida, o vice-presidente como que assumiu a política externa para consertar as trapalhadas do canhestro chanceler.
Do Mercosul disse que talvez se deva reformular, para fortalecer-se.
Encontrou-se com empresários chineses, a reafirmar a prioridade de nossas rela-ções e afastar ameaças de alinhamento automático com os Estados Unidos na guerra comercial desencadeada por Trump, aquela avantesma.
E descartou acirramento do conflito com a Venezuela (até intervenção armada é cogitada pelo celerado); sensatamente, Mourão preconizou presença brasileira nas tenta-tivas de reversão pacífica, multilateralmente concertada da catástrofe ‘bolivariana’.
 
Se até elle...
 
O ministro Sérgio Moro, embora parecesse tenso, pouco à vontade em seu pri-meiro discurso na atual condição, correspondeu às expectativas.
É dele que os não partidários nem opositores incondicionais do governo esperam o maior legado desta presidência.(Sim, é possível que algo de bom resulte deste governo que se gestou e começou equivocado: se até aquelle infeliz deixou algo de bom, ao in-surgir-se contra o cartório da indústria automobilística e verberar-lhe as “carroças”...)
 
Reversão da impunidade
 
Entre outras alvissareiras providências, Moro anunciou esforços para aprovar no Congresso mudanças no Código de Processo Penal para estabelecer cabalmente a exe-cução de sentenças confirmadas em segunda instância.
Será um grande avanço, a esclarecer de uma vez por todas as dúvidas ainda sus-citadas pelos garantidores da impunidade, que insistem em reclamar do STF nova revisão do conceito já três vezes reafirmado.
 
Conversa ortodoxa
 
O ‘ex-Posto Ipiranga’, agora exposto no proscênio da economia, disse a que vem. Fluente, informal na conversa quase amena em que converteu o discurso de assunção do cargo, Paulo Guedes deu seu recado.
Declarou-se absolutamente “liberal em economia”, politicamente “conservador como o presidente”, discorreu sobre o ideário de estado mínimo, desestatização, rigor fiscal, desregulamentação da atividade econômica privada e demais ortodoxias.
 
Segundo time
 
Guedes é economista de sólida formação teórica – ninguém passa impunemente pela Universidade de Chicago, na qual se doutorou –, mas não conseguiu ascender ao ‘primeiro time’ dos economistas brasileiros; não se lhe conhece um único, solitário artigo em veículos prestigiados, os que divulgam e debatem os grandes temas e desafios de sua área.
Não obstante, é desenvolto e convincente como poucos entre seus pares. Já o conteúdo das propostas...
 
Mais do mesmo
 
Aí é que a porca torce o rabo. “Insanidade é continuar fazendo a mesma coisa e esperar resultados diferentes” – a sacada de Albert Einstein aplica-se com precisão às propostas ortodoxas que o superministro pretende implementar.
Ele esforçou-se para convencer de que dará certo, insistiu no exemplo da recons-trução da Alemanha no pós-guerra e atribuiu o êxito aos gabinetes liberais (em econo-mia), destacadamente o liderado por Ludwig Erhart – embora “atrapalhados”, como acredita, pela socialdemocracia, em função da alternância no poder dos então maiores partidos alemães.
 
Êxitos na ‘vitrine’
 
Deveria ter acrescentado que o “milagre alemão” aconteceu graças a milionários aportes de recursos, quando a então Alemanha Ocidental era assim uma ‘vitrine’ da pu-jança do capitalismo, a frear os avanços do socialismo.
Talvez fosse demasiado perguntar-lhe por que a receita liberal imposta pela troica União Europeia–FMI–Banco Central Europeu não deu certo onde foi ministrada no continente, especialmente em Portugal, Espanha e sobretudo na Grécia, cuja economia regrediu uma década sob terapêutica análoga à defendida pelo superministro.
E ele haveria de considerar impertinente falar dos infortúnios da Argentina, pela enésima vez às voltas com o fracasso das políticas liberais.
 
Real heterodoxo
 
Até no Brasil as lições do passado recente haveriam de lembrar-se.
Não foi o receituário liberal, ortodoxo que derrotou a inflação, resistente a déca-das de tratamento convencional, porém a heterodoxia do Plano Real, corajosamente bancada pelo presidente Itamar Franco.
 
Contra privilégios
 
Registre-se que Paulo Guedes enfrentou desabridamente, sem meias palavras problemas cruciais, geralmente manuseados ‘com luvas de pelica’ para não afrontar poderosas ‘corporações’ sindicais e igualmente fortíssimos ‘cartórios’ empresariais.
Foi assim que defendeu a urgente reforma da Previdência Social, com severa crí-tica a privilégios e deu nome aos bois: “legisladores e julgadores” asseguram-se gordas aposentadorias enquanto as do povo mal permitem precária sobrevivência.
 
 ‘Plano E’, de errado
 
Entretanto cometeu um erro tático ao aventar ‘plano B’, caso o governo fracasse em reverter o estado pré-falimentar da Previdência: ameaçou desvincular e desobrigar as receitas públicas, hoje destinadas em cerca de 90% ao custeio da administração (in-clusive salários), da própria Previdência e a investimentos em educação e saúde.
Primeiro, não deveria admitir a possibilidade de insucesso.
Segundo, e pior: pode ser atraente a muitos parlamentares sabotar a redenção da Previdência, a cortejar as corporações e ao mesmo tempo garantir ao Congresso poder decisório sobre um orçamento sem vinculações.
 
Presidente desmentido
 
A semana terminaria sob estresse na área econômica. O presidente deu três palpites – um a ameaçar aumento de imposto, outro a atenuar a reforma da Previdência e um terceiro a questionar a aquisição da Embraer pela Boeing – e os dois primeiros foram desmentidos por seus subordinados.
O secretário da Receita garantiu que o estado não avançará mais no bolso do contribuinte e o ministro da Casa Civil disse que o chefe “equivocou-se” no primeiro caso e no segundo quis apenas tranquilizar a sociedade e acenar mudanças “mais huma-nas”, graduais das aposentadorias.
Tais acrobacias verbais foram pouco convincentes e o titular da Economia, não se sabe se cauteloso ou frustrado, cancelou compromissos públicos e fechou-se em copas.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br


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