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A conspiração do silêncio 09.02.2019

 Marco Antônio Pontes

 
Brumadinho amanhã
 
Acompanhem-me, leitores, numa projeção dos desdobramentos da tragédia da Vale em Brumadinho daqui a uns seis meses.
Afora imaginação, valho-me dos registros do acontecido em Mariana e da me-mória de como se têm comportado, há décadas, as mineradoras, os governos que lhes concedem explorações e deveriam controlar e fiscalizar-lhes as atividades, como se so-correm as vítimas dos ‘acidentes’ e enfrentam-se os danos ambientais decorrentes.
 
Aconteceu nada,...
 
A conclusão será: nada ocorreu na barragem do Feijão naquela sexta-feira, 25 de janeiro.
Não houve tsunami de lama, ninguém morreu, as belas encostas da Serra da Mo-eda e vales abaixo continuam lindos e o Paraopeba flui como sempre, generoso, a servir aos ribeirinhos.
Todo o resto – terrífica montanha de dejetos a desabar sobre pessoas, bombeiros afundando em pântanos para resgatar corpos despedaçados, relatos dramáticos de so-breviventes –, tudo foi ficção, engendrada com truques cinematográficos e ocupação da mídia pelos inimigos do progresso.
Vocês nem imaginam! do que é capaz a imprensa arregimentada pelo ‘marxismo cultural’...
 
... foi indústria da multa
 
No mesmo lampejo de esclarecimento saber-se-á que ilusionismo análogo ocor-rera três anos antes, para simular catástrofe na Samarco – subsidiária da Vale!, vejam como a ‘indústria da multa’ é solerte.
Aconteceu nada em Mariana!, os moradores do distrito de Bento Ribeiro seguem felizes na paisagem privilegiada. Poluição do Rio Doce? – houve não!, tudo mentira forjada com manipulação de imagens.
 
Conspiração silenciosa
 
– O velho escriba pirou de vez!, isso é delírio!... – pensarão meus sensatos leito-res. É claro que deliro, deliberadamente deliro mas estou nada mais louco que de cos-tume.
Apenas caricaturo o comportamento da Vale e outras mineradoras – como o da Samarco após o crime do Fundão e o da multinacional que envenenou as águas da para-ense Barcarena – e suas consequências.
Pelo andar da carruagem é uma conspiração do silêncio, como no filme dos anos 1960.
 
Tristeza, contrição e...
 
É parar pra pensar e a gente entende. Num primeiro momento o presidente da Vale apareceu triste, contrito, arrependido, a prometer tudo:
doação imediata e incondicional de R$ 100 mil a cada família atingida, ressar-cimento dos prejuízos independentemente de decisão da Justiça, reparação dos danos ambientais, abertura dos informes técnicos e demais documentos sobre a barragem si-nistrada e todas as outras, interrupção da lavra nas plantas similares...
 
...arrependimento revertidos
 
Bastou uma semana para que tristeza, contrição, arrependimento dissipassem-se, o presidente de semblante abatido saísse de cena e a megamineradora reassumisse a carantonha arrogante que exibira em Mariana em defesa da filhota Samarco.
A doação imediata, incondicional não seria bem assim, condicionar-se-ia a con-firmações cartoriais; desapareceram propósitos de antecipar-se à Justiça, abrir informa-ções, interromper ações de risco... e por aí vai.
 
Laudo sob ameaça
 
Ato contínuo passou a negar quaisquer falhas nas barragens, a repetir a cantilena de que todos os testes atestaram-lhes a segurança, a empresa esmera-se na prevenção de riscos e cuidados ambientais – exatamente como fizera em Mariana a sua Samarco.
Não mudou uma linha do discurso nem quando flagrada a pressionar engenheiros encarregados da fiscalização e controle (um deles declarou que assinara um laudo otimista sob ameaça de dirigente da Vale).
 
Foi Satanás!
 
Quer dizer: em Brumadinho, Mariana a Vale e a Samarco tiveram culpa nenhuma nas tragédias. Seus brilhantes cientistas, competentes técnicos, inatacáveis diretores ensinam-nos que tudo se deveu a fatalidades.
As hecatombes geraram-se espontaneamente, talvez por forças naturais, quem sabe conluio de entidades malévolas mobilizadas por Satanás, como diria a ministra Damares sob aplausos do colega Araújo.
 
Hereges comunistas
 
Você teria dificuldade em acreditar nisso, leitor? Eu também. Mas... tem gente que acredita que a Terra é plana, cerca-se de paredões de gelo e está imóvel no espaço; que a humanidade começou com um único casal há coisa de 13 mil anos; que as teses de Copérnico, Galileu, Newton, Darwin foram invenções de hereges, os ‘comunistas’ da época que pretendiam solapar a religião, a moral, a paz universal... 
E seguem entre nós os que negam o holocausto (“mentira de judeus e esquerdis-tas para derrotar Hitler, aquele gênio”), o aquecimento global e demais ameaças à na-tureza (“invenções do marxismo cultural”) ao lado dos que creem que viagens espaciais, pouso na Lua são ilusões, truques de imagem...
 
Teoria conspiratória...
 
O Brasil de hoje é especialmente fértil em teorias conspiratórias desse ou pior feitio. A mais ‘interessante’ denuncia suposta incriminação da atividade política (na verdade falam em “criminilização”, ou coisa que o valha; a palavra não existe).
Tudo não passaria de sorrateira tentativa de desmoralizar os políticos, a própria política para minar a democracia e ensejar uma ditadura salvadora. Tal seria o escopo da Operação Lava a Jato e a ascensão de Moro ao Ministério da Justiça comprovaria o es-quema.
 
...serve para todos:...
 
Curioso é que a mesma teoria serve tanto a um dos lados da radical contenda quanto a seu oposto.
Uma turma – do MDB, PSDB, de vários integrantes do novo poder populista e parte da direita tradicional que o apoia – vê no processo conspiração da esquerda para implantar a ditadura do proletariado.
Já o populismo petista e satélites juram tratar-se de conspiração “das elites” para reverter os ganhos sociais legados pelo poder popular e varrer da cena os defensores do povo.
 
...aos políticos, à Vale...
 
Não duvide, leitor, há quem acredite nisso. Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, Mi-chel Temer, Aécio Neves seriam injustiçados, perseguidos por adversários, muitos deles aboletados em tribunais.
Bolsonaro e sua gente previnem acusações desqualificando-as previamente como fruto do “marxismo cultural” que solapa valores da civilização judaico-cristã.
Simetricamente, o populismo travestido de esquerda atribui a tramas da Justiça reacionária a condenação de Lula e demais cúpula petista.
Todos fingem não perceber a impossibilidade de conspiração universal contra os puros e bons – eles próprios – mas..., convenhamos: se a Vale persiste na negação de quaisquer crimes, por quê? não o fariam os políticos?
 
Péssimo jornalismo
 
A GloboNews protagonizou na sexta-feira, 08.02 cerca de quatro horas e meia – eternidade em televisão! – de péssimo jornalismo.
A partir das oito horas dedicou coisa de meio minuto para informar que soara alarme de novas quedas de barragens em duas cidades mineiras e pouco mais que o do-bro a repercutir as consequências da chuvarada da véspera, no Rio.
Todo o resto da manhã foi ocupado por copioso material e pouquíssima infor-mação sobre o incêndio que ceifou dez jovens vidas no Centro de Treinamento do Fla-mengo.
 
Repetição inócua
 
Sim!, leitor, eu entendo. Foi tragédia a compungidamente lamentar e merecer to-tal cobertura.
Entretanto, até por não ter informação concreta a exibir – nem poderia, enquanto mal se iniciavam as investigações do desastre –, a emissora não precisava repetir indefi-nidamente os mesmos poucos dados de que dispunha.
Muito menos convocar tantas personalidades do esporte que só teriam as mes-mas, sentidas e perplexas palavras para chorar o triste fim de tantos sonhos.
E de que serviu? editar dezenas de entrevistas com ‘populares’ que pouco ou na-da teriam a acrescentar?
 
Muito barulho...
 
Na forma em que veio ao ar a cobertura resultou em muito barulho e pouca notí-cia.
Pior, às vezes beirou iníqua exploração do susto e dor das pessoas, em desrespei-to aos sobreviventes e às famílias enlutadas. E frustrou a audiência, que desejava conhe-cer e prantear a desdita dos jovens sacrificados porém com base em dados reais, não em pieguices de escasso sentido.
Melhor faria o prestigiado canal a cabo, que traz no nome a promessa de privile-giar a notícia, se buscasse informação concreta e pertinente do ocorrido.
 
...pra nada
 
Por exemplo, poderia valer-se de seu exército de repórteres e produtores para ve-rificar a regularidade das instalações do ‘Ninho do Urubu’: teria sabido de pronto que o local não estava habilitado a hospedar pessoas, justo por não ter submetido ao Corpo de Bombeiros esquemas de prevenção contra incêndios e meios de haver-se com sinistros.
 
Notícias relegadas
 
Haveria, ademais, de pelo menos dividir o noticiário da longa manhã entre o de-sastre que a mesmerizou e outros acontecimentos também importantes.
Os alarmes que deslocaram centenas de moradores a jusante de barragens em Minas só foram explicados à tarde.
O mesmo ocorreu com a notícia de que a Receita Federal investiga o ministro Gilmar Mendes e sua esposa advogada por suposto tráfico de influência, enquanto Gil-mar tenta passar de acusado a acusador e cobra providências contra a Receita ao presi-dente do STF.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 


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