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A história não perdoa 07.03.2019

 Marco Antônio Pontes

 
 
Agressão não tem perdão
 
“A história nunca inocenta os agressores” – alerta Eugênio Mancini Scheleder em carta aberta às Forças Armadas brasileiras. Filho de general “que combateu o na-zismo e o fascismo na campanha da Itália”, o missivista tributa “imenso orgulho” ao pai, ao Exército a que pertenceu e repele veementemente a hipótese de intervenção ar-mada na Venezuela:
“Governos [...] passam céleres e são substituídos por outros [...] mas a agressão bélica [...] deixa cicatrizes profundas”.
 
Alarme falso?
 
Ao que me consta a imprensa não registrou a mensagem de Scheleder; soube dela pelo atento amigo Roldão Simas Filho – e de que Roldão não sabe?...
O tom pode soar alarmista, à luz das definitivas declarações do vice-presidente Hamilton Mourão – antes, durante e depois de participar na Colômbia, sexta-feira da semana passada, da reunião do ‘grupo de Lima’, concerto latino-americano quase unâ-nime em reconhecer um novo poder venezuelano, instituído pelo Legislativo, em substi-tuição ao cada vez mais caótico e autoritário governo Maduro.
 
Oportunidade perdida
 
(Quase unânime, escrevi, porque México e Uruguai fizeram restrições ao ‘go-verno provisório’ e preservaram mínimo espaço de diálogo com Nicolás Maduro, em contraponto ao radicalismo dos EUA. Haveria mais chance de solução negociada se o Brasil tivesse feito o mesmo.)
 
Sem aventuras
 
Mourão deixou claro que, mesmo ao integrar a ‘ação humanitária’ mobilizada pelos Estados Unidos, concretizada no envio de centenas de toneladas de alimentos, remédios e outros produtos essenciais em falta na Venezuela – iniciativa que Maduro recusou por suposta tentativa de golpe de estado –, o Brasil exclui aventuras bélicas e recusará passagem em território nacional de tropas estrangeiras (leia-se: estadunidenses) que pretendam intervir na Venezuela.
 
Porém...
 
Entretanto, movimentos anteriores justificam os cuidados de Eugênio Scheleder.
A retórica insana de Trump só exacerba o radicalismo e por um momento encon-trou eco no presidente interino nomeado pela Assembleia venezuelana (a qual Maduro substituíra por ‘constituinte’ fajuta, ‘eleita’ mediante critérios pra lá de suspeitos).
Juan Guaidó, que aliás não se “autonomeou” presidente, conforme  a imprensa, mas foi eleito pela Assembleia desrespeitada por Maduro, chegou a insinuar que o uso de força armada talvez seja inevitável.
 
Fundamentalismo visceral
 
Por um momento o governo brasileiro flertou com a aventura, puxado pelo vis-ceral fundamentalismo de Ernesto Araújo, um dos ministros-problema do presidente Bolsonaro.
Respalda o chanceler o também problemático filho 03: encontrei num site abri-gado no MSN declaração assustadora do deputado Eduardo, discípulo dileto do soi di-sant filósofo Olavo de Carvalho: “Com Maduro, só a tiro!”.
(Não pude confirmar a autenticidade da fonte e a imprensa não anotou a provo-cação; pode ser fake news.)
 
Intervenção
 
Felizmente prevaleceu o bom senso: o protagonismo do general Mourão no ‘grupo de Lima’ e a reafirmação oficial de posição oposta à preconizada por Araújo sinalizaram virtual intervenção no Ministério das Relações Exteriores e derrubaram de vez as veleidades bélicas de Eduardo Bolsonaro e sua turma.
Tivesse o chanceler acidental mínimo senso de ridículo teria pedido demissão logo no retorno a Brasília.
 
Retrocesso
 
A crise da Venezuela está longe do fim, mas já denuncia enorme retrocesso na política externa brasileira. Convém resgatar um pouco de história, recente ou nem tanto.
Em 2017–18 o Itamaraty reverteu as anacrônicas alianças populistas engendradas sob Lula na América Latina, retomando a bem sucedida evolução da chamada ‘política externa independente’ formulada nos primeiros anos 1960 por Afonso Arinos e San Thiago Dantas.
Fundada nos princípios de autodeterminação dos povos e não-intervenção nos assuntos internos das nações, essa política foi eficazmente desenvolvida e implementada pela carrière, reafirmando o conceito internacional da diplomacia e a liderança conti-nental do Brasil.
 
Platitudes primárias
 
O alinhamento automático aos Estados Unidos, intentado pelo inexperiente di-plomata e incontinente repetidor de platitudes antiglobalistas que hoje ocupa o principal gabinete do Palácio dos Arcos, ameaça-nos a proeminência continental e desmerece a tradição de excelência do Itamaraty.
Já antes do aguçamento dos problemas na fronteira setentrional as manifestações atabalhoadas do chanceler, agravadas pelo primarismo de seu chefe, haviam colocado em risco as parcerias comerciais com o mundo muçulmano, a concertação do Mercosul e o intercâmbio com a China – a sabotar o dinamismo do comércio exterior brasileiro.
 
Porta-voz indemissível
 
Também naquele entrevero as estultices foram corrigidas pela intervenção do vi-ce-presidente – cada vez mais o, dir-se-ia, porta-voz dos generais-ministros na contenção das trapalhadas dos Bolsonaro.
Afinal, o general Mourão tem mandato e não pode ser ‘enquadrado’ pelo presi-dente, muito menos demitido.
 
Boa discussão
 
Mal se iniciara dezembro do ano passado Sérgio Alves sugeria-me explorar “a questão da escola-com-ou-sem partido”:
– Parece-me um boa discussão, quando longe dos ‘ismos’.
(Permito-me resvalar na vaidade para dizer que o conceituado acadêmico decla-rou-se, ao perorar a mensagem, meu “leitor semanal”; o que muito me honra.)
 
Escola com partido
 
Surge agora oportunidade de tentar corresponder à expectativa e abordar, sem partidarismos, reducionismos, maniqueísmos a mais recente iniciativa do governo Bol-sonaro para promover, contrariamente à pregação (que encampou) de escola dita “sem partido”, a partidarização da escola.
Foi o que preconizou o ministro da Educação, na mensagem aos dirigentes das instituições de ensino fundamental, a sugerir que o canto do Hino Nacional nas escolas fosse gravado, para aproveitamento na propaganda do governo e acompanhasse-se da leitura de texto de sua lavra, que enaltece o atual governo e termina com o slogan de campanha do então candidato, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.
 
Nada contra os hinos
 
Cantar uma vez por semana o Hino Nacional na escola está prescrito em lei san-cionada no governo Lula; Fernando Haddad era ministro da Educação.
Este velho escriba, no longínquo curso primário no Grupo Escolar Olympio de Araújo em Rio Novo, aprendeu a entoá-lo, assim como o Hino à Bandeira, o que cele-brou a República (belíssimo: “Liberdade!, liberdade!, abre as asas sobre nós!”) e outras canções patrióticas.
O culto aos símbolos nacionais na escola começou no Estado Novo (1937–45), meio de contrabando na instituição da disciplina ‘canto orfeônico’, conforme proposta de Heitor Villa Lobos.
 
O estado não é laico?
 
A iniquidade da determinação de Ricardo Velez não está em reafirmar o Hino e demais símbolos nacionais, mas em associá-los à propaganda governamental. Ao que pretendeu acrescer o uso ilegal da imagem dos estudantes e a ofensa ao estado laico contida no lema “...Deus acima de todos”.
Como se não bastasse o absurdo de introduzir ensino religioso em escolas públi-cas, desastradamente permitido por maioria eventual em nossa politizada Corte supre-ma...
 
Pátria sem partido
 
Reitero: nada contra pontuar o culto à Pátria na educação de nossas crianças, se desvinculado da partidarização que o ministro Velez preconiza.
Entoar em meu Grupo Escolar o Hino Nacional – aliás belíssima construção sin-fônica, malgrado a letra gongórica e válida só porque testemunho da época – e outras canções patrióticas em nada me condicionou a formação: poucos anos depois criticaria como hoje os exageros do patriotismo, não raro pretexto para sonegar direitos, oprimir minorias e cercear a liberdade.
 
Patriotadas vazias
 
Ainda muito jovem li uma frase que me vacinou contra patriotadas e segue a alertar-me de malversações do legítimo sentimento de nacionalidade:
“Patriotismo é palavrona que enche a boca e deixa o coração vazio; são prefe-ríveis as duas sílabas menos retumbantes da palavra ‘dever’.”
(Memorizei o dito mas esqueci o autor; em vão recorri ao Google; qual de meus informados leitores poderia socorrer-me?)
 
Plágio sintomático
 
Interessante – e sintomático: “Brasil acima de tudo”, a primeira parte do slogan de campanha do então candidato, hoje lema do governo Bolsonaro, é exata cópia do dístico assumido pelos nazistas, título e primeiro verso de hino apropriado pelo terceiro reich alemão, o de Hitler: “Deutschland über alles” (Alemanha acima de tudo).
 
Emblema nazista
 
A canção servira no século XIX à unificação dos dispersos estados germânicos; aproveitava peça anterior de Haydn e augurava liberdade e estado de direito à futura nação, conforme os versos originais de August von Fallersleben.
O reich de Hitler apoderou-se do título, de parte do poema e inverteu-lhe os sig-nos para instituir seu hino ‘nacional’. O mesmo lema seria usado em outras canções ‘patrióticas’ – do excludente, genocida ‘patriotismo’ nazista.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 
 


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