Brasília, 15 de Julho de 2019
Página inicial
Quem somos
Contato
Cadastre-se
Anuncie aqui
Notíias | Entrevistas | Notas | Artigos | Enquete | TV Câmara | TV Senado | Agendas

Anuncie Aqui

Porandubas Políticas 10.04.2019

 Gaudêncio Torquato

 
 
Abro a coluna com a historinha de Cabralzinho.
 
Ladrões...
 
Cabralzinho, líder estudantil em Campina Grande, foi passear em Sobral, no Ceará. Chegou em dia de comício. No palanque, longos cabelos brancos ao vento, o deputado Crisanto Moreira da Rocha, competente orador da província:
 
- Ladrões!
 
A praça, apinhada de gente, levou o maior susto.
 
- Ladrões! Ladrões, porque vocês roubaram meu coração!
Cabralzinho voltou para Campina Grande, candidatou-se a vereador. No primeiro comício, lembrou-se de Sobral e do golpe de oratória do deputado, fechou a cara, olhou para os ouvintes com ar furioso:
 
- Ladrões!
 
Ninguém se mexeu. Cabralzinho sabia que política em Campina Grande era briga de foice no escuro. Queria o impacto total.
 
- Cambada de ladrões!
 
Foi uma loucura. A multidão avançou sobre o palanque. Pedra, pau, sapatos. O rosto sangrando, acuado, Cabralzinho implorava:
 
- Espera que eu explico! Espera que eu explico!
Explicou ao médico, no hospital.
 
Fim da lua de mel
 
Os 100 dias do governo Bolsonaro sinalizam o fim da lua de mel que o eleitorado costuma acertar com governos iniciantes. Às vezes esse prazo vai um pouco além, podendo chegar até 150 dias. Mas com a atual gestão, o fim de linha para a boa vontade dos eleitores fica bem clara. E por que o governo não fez uma decolagem menos crítica? Algumas razões parecem evidentes.
 
Em cima do palanque
 
A primeira ordem de fatores diz respeito ao clima que cerca a administração: tensão, que se observa por meio de alguns elementos. O presidente esnoba a mídia tradicional e prefere dar recados pelas redes sociais; os filhos colaboram para a expansão da linguagem de conflitos que acirra as bandas pró e contra governo; o presidente, até mesmo fazendo piada, diz não ter vocação para presidente do país, e sim para ser militar; a fragilidade da articulação política abre um vácuo na base de apoios.
 
Desconforto
 
Por mais que se queira entender as dificuldades de uma administração em seu início, uma observação ganha corpo a cada dia: o presidente Jair Bolsonaro não parece confortável no figurino de presidente. Lê-se que teria dito a um amigo: “não sei se vou aguentar isso quatro anos”. Por isso, a insinuação que jogou no ar, em entrevista à rádio Jovem Pan, de que se estiver bem, poderá se candidatar à reeleição, é cercada de descrédito. Para se manter no pico da boa avaliação, teria de arrumar a casa. E há quem calcule o PIB deste crescendo não a 2%, mas a 1%. Os analistas financeiros começam a soltar pitadas de desconfiança.
 
Seja ousado
 
“Inseguro quanto ao que fazer, não tente. Suas dúvidas e hesitações contaminarão os seus atos. A timidez é perigosa: melhor agir com coragem. Qualquer erro cometido com ousadia é facilmente corrigido com mais ousadia. Todos admiram o corajoso; ninguém louva o tímido”. (“As 48 leis do Poder” - Robert Greene e Joost Elffers
 
Comunicação confusa
 
O governo continua a pecar por não ter homogeneidade na comunicação. O porta-voz do governo, o general Rêgo Barros, até se esforça para interpretar falas e atos da administração. Mas o governo não construiu sua identidade. E sem essa, fica difícil comunicar de maneira substantiva. A sensação é a de que tateia na escuridão. O general Santos Cruz teria também sob sua guarida a estrutura de comunicação. E ainda a de articulação. Mas, e o Onyx Lorenzoni?
 
A guerra como continuação da política
 
“Vemos que a guerra não é só um ato político, como também um autêntico instrumento político, uma continuação do comércio político, um modo de levar o mesmo a cabo, mas por outros meios. Tudo o que está para além disso, e que é estritamente peculiar à guerra, relaciona-se apenas com a natureza peculiar dos meios que ela utiliza”. (Da Guerra - Klaus Von Clausewitz)
 
Sem base
 
Não há uma base governista até o momento. O PSL é o partido do governo, mas não conta com parceria formal com outros entes. Os cerca de 200 parlamentares que até sinalizam apoio à reforma da Previdência o fazem por iniciativa própria, sob a crença de que ela será uma tábua de salvação. Não agem partidariamente. Bolsonaro recebeu presidentes de partidos, mas as conversas ficaram no plano das generalidades. Os partidos, por sua vez, temem ser lançados no saco da “velha política”. A cautela abre distância.
 
A dor dos carneiros
 
“Devem V. Sas. abster-se de lançar novos impostos, pois os tributos geram indisposições no povo. O povo é um rebanho de carneiros que se tosquiam, mas quando a tosquia vai até a carne, produz infalivelmente dor e, como esses carneiros raciocinam, por isso mesmo se convertem muitas vezes em terríveis alimárias. O país não deve ser esgotado de dinheiro corrente porque este é o músculo e o nervo, sem os quais este corpo nenhuma força pode ter”. (Mauricio de Nassau - Testamento Político em Conselhos aos Governantes)
 
Ministros sem preparo
 
O vice-presidente Mourão tem tido a coragem de dizer que sua diferença em relação a Bolsonaro é medida por meio de características. Ele, por exemplo, teria escolhido outras pessoas para compor o Ministério. No fundo, trata-se de uma observação aguda sobre o despreparo de perfis. Ou, ainda, uma crítica ao açodamento ideológico com que membros do governo se manifestam. Na Pasta da Educação, instalou-se o caos. Com a demissão do Vélez e a entrada de Abraham Weintraub, economista e professor, mas sem experiência, espera-se um freio de arrumação numa área importante. O prejuízo que o ministro demitido deixou para o governo é de monta. Outros cometeram asneiras, como a bobagem de conferir ao nazismo o selo de esquerda.
 
Ministros sob suspeita
 
Há ainda quem permanece sob suspeita, como o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, que teria plantado “laranjal” na campanha eleitoral em Minas Gerais. Portanto, há pessoas com um pé dentro e outro fora do governo. O desalinhamento fragiliza a equipe. Fora a impressão de bifurcação de tarefas, como as que dizem respeito à articulação, envolvendo líderes do governo e ministros.
 
Moral e política
 
“Maquiavel conta no livro III dos Discursos sobre os primeiros dez livros de Tito Lívio a história de um rico romano que deu comida aos pobres durante uma epidemia de fome e que foi por isso executado por seus concidadãos. Argumentaram que ele pretendia fazer seguidores para tornar-se um tirano. Tal reação ilustra a tensão entre moral e política e mostra que os romanos se preocupavam mais com a liberdade do que com o bem-estar social”. (Política: uma brevíssima introdução - Autor: Kenneth Minogue)
 
Revogaço
 
O presidente Bolsonaro promete para os próximos dias um “revogaço”. A ideia é anular decretos “desnecessários”. Escreveu ele no Twitter: “realizaremos um “Revogaço”, anulando centenas de decretos desnecessários que hoje só servem para dar volume ao nosso já inchado Estado e criar burocracias que só atrapalham. Daremos continuidade ao processo. Vamos desregulamentar e diminuir o excesso de regras”.
 
Um desastre
 
As manchetes se repetem: “caos e mortes no RJ”. As chuvas devastam o belo cartão postal. Mas há um desastre escancarado: a gestão do prefeito Crivella. É péssima. A prefeitura não fez praticamente nada para prevenir a destruição.
 
Doria ocupa vácuo
 
Na decolagem dos novos governantes, geralmente abre-se um vácuo na estrutura de poder. Uns saem, outros entram no desfile governamental. Quem melhor aproveita o vácuo que se abre é o governador paulista João Doria, que mantém impressionante ritmo. Tem agenda diária cheia de eventos, ações e operações, muito bem comunicadas por ele mesmo nas redes sociais. Faz-se presente aos acontecimentos envolvendo seus pares governantes. E mostra-se exímio articulador. João se locomove bem, usando seu jogo de cintura e fluente expressão.
 
Da arte de administrar a guerra
 
1. “A arte de administrar a guerra é própria do capitão-general e, por ser mais árdua coisa que há entre todas as ações humanas, é necessário que concorram muitas partes singulares na pessoa que houver de sustentar esse peso.
2. Quatro são as principais que se requerem no general: larga experiência da arte da guerra; conhecido valor da própria pessoa; autoridade e reputação entre os seus e os estranhos; e boa fortuna nas cousas que empreender.
3. Todas estas teve Júlio César, e primeiro Aníbal, que foram os maiores dois capitães que se sabe, ainda que a fortuna ultimamente desamparou a Aníbal e se passou a Cipião, o Africano”. (Sebastião de Meneses/ Suma Política)
 
O santuário brasileiro
 
O papa Francisco está ampliando o santuário brasileiro. Reconheceu um milagre que teria ocorrido por intercessão do padre brasileiro Donizetti Tavares de Lima. Por isso, o sacerdote será beatificado. O processo foi aberto em 1992. A decisão foi anunciada durante audiência da Congregação das Causas do Santos. No evento, o papa ainda reconheceu as “virtudes heroicas” do frei Damião de Bozzano (italiano radicado no Brasil) e do paulista Nelsinho Santana, que passam a ser considerados “veneráveis” pela Igreja Católica.
 
Em homenagem a Frei Damião
 
Vai, aqui, uma historinha em homenagem ao “Santo do Nordeste”, Frei Damião. Lá vinha o carro desembestado pelas estradas poeirentas, entre Patos e Cajazeiras, na Paraíba. Dentro, dois frades: Frei Fernando e Frei Damião, tão admirado quanto “padim” Ciço (Padre Cícero Romão Batista). O guarda do posto divisou, de longe, aquele automóvel em louca disparada. Logo fechou a cancela do posto. O motorista teve de se conformar com a freada brusca. O guarda foi duro:
 
- Esse carro disimbestado não tem frei? (A fonética é essa mesmo: disimbestado e frei (em vez de freio).
 
Resposta lacônica:
 
- Tem, sim, seu guarda. Tem logo quatro: frei de pé, frei de mão, Frei Fernando e Frei Damião.
Surpreso e curioso, o guarda olhou e viu os “freis”. Pediu a bênção ao Frei Damião, pediu desculpas, liberou o carro e abriu a cancela.
 
Reforma tributária
 
O assunto é também polêmico: tributos. Fazer uma reforma nessa área vai mexer com interesses de Estados, municípios e União. E, claro, com o bolso do consumidor, que aceita muita coisa, menos a bocarra do leão em seu bolso. Mas essa reforma tende a sair. A ideia central é implantar o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) em substituição a cinco impostos: IPI, PIS, COFINS, ICMS e ISS. Até, pasmem, com maior engajamento do corpo congressual. Rodrigo Maia simpatiza com a ideia e já está providenciando a inserção do tema na agenda da Câmara. Avante, Rodrigo.
 
Nota da FSB: “Até o dia 17, é possível prever o que vai acontecer com a reforma da Previdência. Ela será aprovada na Comissão de Constituição e Justiça. A partir daí, o terreno é movediço”.
 
Distância
 
Rodrigo Maia não quer “apanhar como mulher de malandro”. Em relação à reforma da Previdência, toma distância. Ficará restrito ao papel institucional. Faz bem. O governo é um poço de ciúmes e desconfiança.
 
Ignorar é a melhor vingança
 
“Reconhecendo um problema banal, você lhe dará existência e credibilidade. Quanto mais atenção você der a um inimigo, mais forte você o torna; e um pequeno erro às vezes se torna pior e mais visível se você tentar consertá-lo. Às vezes, é melhor deixar as coisas como estão. Se existe algo que você quer, mas não pode ter, mostre desprezo. Quanto menos interesse você revelar, mais superior vai parecer”. (As 48 leis do Poder - Robert Greene e Joost Elffers)
 
 
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato
 


ABC POLITIKO - LINHA DIRETA COM O PODER
COMENTE ESTE ARTIGO   LEIA COMENT√?RIOS (0)  

Voltar a P√°gina Principal Voltar a P√°gina Principal Voltar a P√°gina Principal Voltar a P√°gina Principal
VEJA MAIS

13.07.2019 FHC, Itamar... e Clemente
10.07.2019 Alimentos e transportes seguram IPCA em 0,01% em junho
08.07.2019 O poder invisível
07.07.2019 Nostalgia, reflex√Ķes, indigna√ß√£o
04.07.2019 N√£o entre. √Č um livro de receitas

VEJA TODOS

SRTVN Quadra 701 Bloco B Sala 826 - Centro Empresarial Norte | Brasília - DF | CEP 70710-200 | Fone: (61) 3328-2991 | Fax: (61) 3328-2152