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O mais do mesmo, o tacape 21.08.2019

 Marco Antônio Pontes

 
Salvação frustrada
 
A economia argentina parece ultrapassar a saga das últimas décadas, em que se alternaram três anos de bonança com um de desastres, mas só para inverter a sequência: ao último ano relativamente promissor já se seguem dois praticamente perdidos e nada permite antever recuperação no próximo.
As vicissitudes dos hermanos do sul, ironicamente, devem-se hoje ao que se apresentara no início do governo Macri como alternativa de salvação: o duro ajuste fiscal, aplicado conforme a cartilha liberal.
 
O remédio mata
 
Não foi primeira vez, na Argentina ou alhures.
Os profetas do radical-liberalismo econômico (nada a ver com doutrinas políticas liberais) têm feito aplicar a receita em nações desenvolvidas ou não, sempre com os mesmos resultados: para erradicar a doença, o desequilíbrio nas contas públicas, matam-se os doentes – os benefícios conquistados pelos estratos de renda média e os escassos alívios concedidos aos mais pobres.
 
Cá como lá
 
As prescrições liberais, também ditas ‘ortodoxas’, são a causa imediata (com anterior ‘ajuda’ do populismo peronista) da crise econômica da Argentina e motivam-lhe a atual instabilidade política. Elas foram impostas também a nações da Europa vitimadas por discrepâncias, acumuladas no tempo, entre os compromissos sociais assumidos pelos estados e as disponibilidades dos respectivos tesouros.
Foi o caso da Grécia, Espanha, Portugal, cujos ‘estados de bem-estar’ foram minados por ajustes fiscais exigidos pela ‘troica’ União Europeia–FMI–Banco Central Europeu.
 
Alternâncias precipitadas
 
A eleger paradigma a trajetória econômico-financeira e política das três nações nesta década, constata-se que a terapia radical-liberal entrega o que promete – o reequilíbrio dos orçamentos, em maior ou menor grau –, porém a altíssimo custo social.
Daí resultam insatisfações dos segmentos que haviam ascendido economicamen-te e viram esboroar-se as conquistas. Previsivelmente, a decepção reflete-se nas urnas e induz alternâncias no poder mais amiudadas do que seria de esperar-se.
 
Repetição de insucessos
 
As mudanças abruptas, não raro a substituir dada concepção de sociedade e esta-do por seu oposto, interrompem ações de governo, corroem o que se tentava construir.
Se persistir o tratamento ortodoxo, será preciso começar de novo em ambiente agravado, implementar ajustes mais duros que gerarão mais acres reações... e se repetirão tentativas, insucessos, recomeços.
 
Sinais trocados
 
Foi o que aconteceu recentemente na Europa quando Portugal, Espanha e Grécia promoveram os tais ajustes.
Caíram as coalisões conservadoras da Península Ibérica, substituídas por compo-sições à esquerda; durou um pouco mais o poder esquerdista na Grécia, afinal abandonado pelos eleitores que se sentiram traídos pela aplicação do receituário ortodoxo.
A ver no que dá – mas é de prever-se mais instabilidade na Grécia sob governo conservador, a exemplo do que já ocorre (com sinal trocado) em Espanha e Portugal.
 
Os PIGS
 
Observa-se fenômeno interessante neste período de crise econômica e política no Velho Mundo, a exemplo do ocorrido nas três nações meridionais, quando se acrescen-tam os percalços vividos por uma outra, geográfica e culturalmente bem diversa.
Lembra-se?, leitor, de que um outro país fora duramente atingido pelas conse-quências da crise financeira desencadeada pela quebra das finanças imobiliárias estadunidenses, em 2008–09?
Haverá de lembrar-se também da sigla que identificava o conjunto: PIGS.
 
 “Porcarias”
 
(Em vez da sigla, tome-se a palavrinha inglesa pigs, ‘porcos’, em português. Se puder estender a siglas, grupos de letras que resumem dois ou mais vocábulos, a ‘sacada’ de Noam Chomsky – “As palavras não são neutras” –, direi que não terá sido casual a escolha: remeterá a ‘porcarias’ que se teriam obrado na construção e-ou aprofundamento do wellfare state nas três citadas e mais uma nação europeia.)
 
Na Irlanda, não
 
É ainda mais curioso o fenômeno quando se examina o que fez a outra nação da sigla (recapitulando: PIGS = Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha – Spain).
Pois a Irlanda, um ‘tigre’ europeu na virada do milênio, protagonista de extraordinário processo de crescimento econômico e social, fora apanhada em pleno voo progressista pela recessão mundial e afundava em desajustes fiscais.
Quiseram aplicar-lhe o mesmo tratamento de choque mas recusou-o, reequilibrou-se às próprias custas e hoje surfa novas ondas de prosperidade.
 
Mais do mesmo
 
Também o Brasil perdeu uma década a brigar contra persistente inflação, em grande parte atribuída a desequilíbrios fiscal-monetários.
A terapia liberal não deu certo, só agravou o problema; tampouco funcionaram os primeiros ensaios alternativos até que o Plano Real, plena heterodoxia, desmentiu os preceitos radicais-liberais, erradicou a inflação e outras disfunções.
Infelizmente hoje ninguém cogita de como se reverteu o processo, só se fala em mais do mesmo: ajuste liberal na reforma da Previdência, da insana burocracia estatal, do ‘manicômio tributário’...
 
Bola da vez
 
A Argentina é a bola da vez e está bem ali, parcela importante de nosso pedaço de mundo – apesar do desdém com que a trata o ministro Guedes.
Seis décadas de populismo peronista entremeado de surtos liberais, às vezes so-brepondo-se e-ou cooperando (Argentina não é pra principiantes..., poderia ter dito Piazzolla, assim um Tom Jobim porteño) malograram uma das melhores esperanças mun-diais de nação bem sucedida, mercê dos recursos naturais, do povo operoso, culto e centrado em sua peculiar civilização.
 
Tacape em vez de luvas
 
E se a Argentina é tão próxima, nossas economia e demais cultura entrelaçam-se, interdependem e mutuamente enriquecem-se – condenamo-nos a amizade eterna –, o governo brasileiro haveria de usar as luvas de pelica de nossa competente diplomacia ao manifestar-se sobre o que ocorre na vizinha nação, que vive um momento crítico.
Infelizmente, em vez da elegância itamaratyana entrou em cena a rudeza de Bolsonaro, a brandir tacape para intrometer-se no processo eleitoral dos vizinhos.
 
Por Dios, no!
 
Consta que Macri, na difícil campanha por reeleger-se, teria pedido “por amor de Dios!” que Bolsonaro “no me venga a ayudar” (?).
Adiantou nada. Em pronunciamento no Rio Grande do Sul, o presidente do Bra-sil arvorou-se tutor do eleitorado argentino, fez-se indesejado cabo eleitoral, foi intempestivo e grosseiro.
 
Recordista em erros
 
Há de ser um recorde, numa única frase o presidente cometeu cinco erros crassos, quatro contra os vizinhos e o quinto ofensivo a brasileiros:
(1) confundiu o peronismo, populismo velho de guerra, com esquerda, (2) atri-buiu-lhe trajetória similar à dos congêneres de Venezuela, Bolívia, Equador (díspares entre si e nada a ver com peronismo), (3) prejudicou o aliado que pretendia ajudar;
não bastasse, (4) previu problemas aos gaúchos caso a “esquerdalha” argentina, neologismo de sua peculiar imaginação, derrote o aliado que dele, aliás, quer distância;
na sequência (5) ofendeu os roraimenses, ao predizer tragédia para o Rio Grande do Sul: transformar-se em “nova Roraima”.
 
Da barbárie à decadência
 
O Brasil não deu nem vai dar certo. Vamos passar da barbárie à decadência sem conhecer a civilização, como bem disse Levy-Strauss, que andou por São Paulo na década de 1930 para ajudar a criar a USP – lamenta-se Elmer C. Corrêa Barbosa.
A profissão de fé no ultrapessimismo segue-se a observações do que escrevi se-mana passada sobre o desastre de 2018, o que trouxe ao poder o atual presidente.
 
Como no futebol
 
Elmer realça um dos fenômenos que tentei analisar na semana passada:
Bolsonaro foi eleito porque ninguém aguentava mais o PT, a corrupção e a postura dos demais candidatos, todos reproduzindo o que sempre foram..., vazios e me-díocres como Bolsonaro. Brasileiro [...] torce por um politico como por um time de futebol.
 
Inserção “racista”?
 
Sou negra, feminista e professora e me dedico a estas três causas – escreve-me Regina Fernandes Ferreira, que se apresenta leitora desde “[...] o Jornal da Comunidade e agora, depois que ele acabou, infelizmente, na internet”.
Ela concorda com minhas “posições políticas que quase sempre combinam” com as suas, mas considera imperdoável que empregue “expressões racistas como ‘buraco negro’ [...]”.
 
Nada a ver
 
Envaidece-me, Regina, sua perseverante leitura e louvo-lhe a militância em tão nobres causas. Mas devo discordar de sua interpretação.
‘Buraco negro’ é expressão usual na astrofísica, a denominar fenômeno em que o adjetivo, em vários idiomas, é usado como sinônimo de escuro, obscuro, invisível...
Tem nenhuma conotação racial, como não a teve a frase em que me atribuiu “expressões racistas”.
 
Deu um branco
 
Certo Regina não terá lido a coluna em que relatei, faz tempo, episódio a envolver análogo mal-entendido.
Conversava com amigo muito próximo, afrodescendente, e disse de não me lembro que assunto: “A situação está preta.”
Ele reagiu, brincando: “Como ‘preta’?, Marco; isto é racismo!”. Felizmente eu soube treplicar, de bate-pronto:
“Desculpe, deu ‘um branco’.”
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 
 


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