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O desastre ambulante e a riqueza da Amaz√īnia 10.09.2019

 

 Marco Antônio Pontes

 
Desastre ambulante
 
Assim me referi na coluna anterior ao desempenho do presidente Bolsonaro: um desastre a perambular por todos os setores da vida brasileira e, não bastasse, espraiar-se pelo mundo com provocações gratuitas a nações amigas e seus líderes.
A longa lista inclui acusações à Alemanha e Noruega de degradar o próprio território (sim, todo o mundo o fez no passado, mas os europeus afinal escolheram o desenvolvimento sustentável), desrespeito a acordos internacionais, intromissões em assuntos dos vizinhos, agressões descabidas a Madame Macron.
 
Crueldade
 
Bonde sem freio, na semana passada o semeador de desastres investiu contra Michele Bachelet (chamou-a “Baquelê”; errou até o nome), inconformado com relatório da titular do Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos que aponta “redução do espaço democrático” no Brasil – crítica até suave, ‘diplomática’...
Afora o conteúdo, a manifestação de Bolsonaro foi torpe, cruel ao lembrar o assassinato sob tortura do pai da ex-presidente do Chile. Elogiou o monstruoso Pinochet e pespegou um inacreditável ‘bem feito!’ ao destino do militar legalista; o acinte não foi pronunciado mas ficou subentendido no gestual e silêncios com que pontuou a frase.
 
Parceria prejudicada
 
Tamanho absurdo tirou do conforto até o reacionário presidente do Chile; Piñera interrompeu a lua-de-mel com o parceiro e condenou o dito desastroso, solidarizando-se com sua maior adversária na política chilena.
Assim o infeliz presidente acelera o retrocesso, deslustra a imagem do Brasil: afora o repúdio, nosso (des)governo é motivo de chacota internacional.
 
O ar de todos
 
Melhor deixar pra lá o desastre ambulante (já está cansativo...) e retomar, sob estímulo dos leitores as conjeturas sobre a Amazônia, objeto da coluna anterior.
Incentiva-me Juan Segura Marquez, amigo hispano-francês para quem “Amazô-nia é do Brasil, mas o ar é do mundo todo” (bela síntese!) e pede que siga no tema.
Também Clemente Rosas “aguarda prosseguimento”, após elogiar-me a “resenha do acontecido mundialmente nos últimos 50 anos”.
 
Testemunhas vivas
 
Thaïs Littieri corrobora-me o “conhecimento e pesquisa dos fatos históricos” e associa-se a meu depoimento:
– Somos ainda testemunhas, vivas!
Já Marcos Antônio Noronha pede-me “novas informações e reflexões sobre o tema” e considera que dei “uma guinada (terá sido o moinho de vento?...), em comparação com as últimas colunas [...]”.
 
Guerra e fogo
 
Não sei se entendo que “guinada” atribui-me o xará, mas aproveito a perplexidade para acolher opinião discordante do ilustre colega granberyense José Feliciano:
– Queimadas na Amazônia [...] motivam campanha vinda do exterior [...]. Ora essa!, guerras têm varrido a Europa e Oriente Médio [...], fogo, gases venenosos, na-palm, desfolhantes [...], o petróleo polui o Mar do Norte e nós [...] perdemos tempo com salvaguardas climáticas [...], intervenção inaceitável para manter o atraso de um agro-negócio colonial.
 
Erros corrigidos
 
Registro as discordâncias do amigo Feliciano e insisto no que confluímos: o velho colonialismo tem culpas no cartório. E hoje as expia, acrescento. Porém não acredito que o passado irresponsável dos europeus desmereça e inviabilize a opção pelo desenvolvimento sustentável: é bom reconhecer erros e corrigi-los.
Tampouco partilho a opinião de que “perdemos tempo com salvaguardas climáticas” e quero crer que o agronegócio brasileiro faz tempo deixou de ser “colonial”.
 
Vida interditada
 
A mim preocupam as alterações no clima, constatadas pela ciência e as ações humanas, que no mínimo as agravam. Se persistirem, acabarão por interditar a vida na Terra – exagero nenhum, os efeitos deletérios já se fazem sentir.
Os primeiros prejudicados serão os agricultores e pecuaristas que têm no cultivo do solo, sob influxos da atmosfera, razão e fator de sua atividade.
 
Relação placentária
 
Hoje a maior parte desses atores compreende a intimidade placentária da agropecuária com a natureza. Nisso estão juntos o chamado agronegócio, que no Brasil é moderno, tecnológico, atento à ciência e, no mesmo passo, a agricultura familiar, geralmente (nem sempre) de subsistência, por definição condicionada ao meio ambiente, especialmente ao clima.
 
Predação insistente
 
Desgraçadamente, no entremeio persistem práticas predatórias, suicidas dos que ignoram a dependência de sua atividade ao ambiente natural e insistem em destruí-lo.
Reincidem, em ecossistemas complexos e delicados como os da Amazônia – como antes na Mata Atlântica –, em primeiro remover a vegetação original, tida como inimiga, para implantar culturas que em tais condições já se revelaram antieconômicas, fadadas ao insucesso.
 
Ideologia demais
 
Acolho outro leitor divergente, também assíduo: Célio Alves Costa, em mensagem eivada de ‘bolsonarices’ e enganos que tais surpreende-me ao tacitamente concordar, sem dizê-lo, com o cerne de minhas lucubrações amazônicas:
– Só nefelibata acredita que exploração econômica e preservação de meio ambiente são incompatíveis por definição. Muita ideologia, pouca ciência.
 
Biodiversidade
 
A crítica bem poderia endereçar-se a Bolsonaro, portador de “muita ideologia e pouca ciência”, por isso mesmo adepto confesso da exploração predatória da região.
À míngua de política ambiental, inverte os termos da equação e condiciona a preservação da floresta a interesses econômicos, todos equivocados por inviáveis.
O real desenvolvimento de nosso “Grande Norte” (assim o chamou Darcy Ribeiro) far-se-á mediante aproveitamento racional da própria floresta, pródiga em sua extraordinária biodiversidade.
 
Açaí, pau-rosa, ...
 
Há pesquisas que o atestam, por exemplo sobre o açaí. Um hectare cultivado com a admirável palmeira, mediante manejo que não agride a floresta – antes preserva-a, precisa dela –, dá retorno econômico onze vezes maior que o mesmo espaço ocupado em produção de grãos e dezoito vezes mais rentável que pastagens.
Algo semelhante ocorre com o pau-rosa, árvore abundante na floresta da qual se extrai óleo de múltiplo uso em cosméticos; plantada, em consórcio com a mata nativa, é ainda mais produtiva.
 
...seringueiras, maniçobas ...
 
Tem mais: o látex, matéria-prima da borracha, obtido de seringueiras, maniçobas e outras espécies, já foi ‘a’ riqueza da Amazônia que se esgotou em função do baixo rendimento da coleta esparsa; assim perdeu mercado para os plantios no sudeste da Ásia.
Até se tentou reproduzir no Pará a plantação, malograda por reincidir do velho vezo de remover a floresta para cultivar só seringueiras.
Hoje a ciência oferece meios de reeditar a experiência, em melhores termos – culturas que convivam com a mata nativa, em natural integração.
 
...castanheiras, ...
 
Castanheiras são árvores imponentes, rainhas em seu habitat. Vivem muito, renovam-se naturalmente quando preservados os ambientes em que vicejam.
Seus frutos, saborosos e nutritivos, enriquecem as melhores cozinhas internacionais.
São um sucesso no uso consciente da floresta e podem crescer em importância, desde que se interrompa a exploração irrazoável de sua madeira, valiosa na construção.
É que o mercado, costumeiramente imediatista, desconsidera que as árvores jovens e maduras haveriam de consagrar-se à frutificação e reprodução, limitando-se o corte às que encerram o ciclo de vida.
 
...madeira sustentável
 
E já que falei em madeira, resgato algo do que aprendi há mais de quarenta anos no Centro de Tecnologia Madeireira da SUDAM (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) em Santarém, Pará.
Em visitas a campos experimentais na bacia do rio Curuá-Una, onde então se construía a primeira usina hidrelétrica da Amazônia, testemunhei a formulação e primeiros experimentos de extração sustentável de madeira na mata que seria inundada.
 
Métodos arcaicos
 
A revolucionária tecnologia criada pelos cientistas da SUDAM prenunciava os atuais conceitos de manejo florestal.
Tradicionalmente, madeireiros procuram na mata as espécies de melhor aceitação no mercado; abatem-nas e deixam um rastro de destruição – ‘picadas’ desordenadas, cicatrizes do arraste com tratores pesados – e aproveitam algumas poucas árvores, empreitadas nada produtivas que assolam grandes áreas de vegetação natural.
 
Alternativa eficaz
 
A ‘nova’ tecnologia (tem quase meio século!, mas pouco se usa) recomenda aos madeireiros, primeiro, proatividade ante o mercado consumidor: em vez de atender passivamente à demanda por escassas espécies valorizadas, eles devem oferecer alternativas; já existem catálogos de madeiras diversas que se prestam ao mesmo uso das mais procuradas, além de empregos alternativos.
 
Regeneração
 
Ampliado o mercado, o método sugere a escolha de áreas apropriadas à extração de madeira para que, num delimitado espaço, cortem-se todas as árvores maduras, o que se determina pela circunferência do tronco.
Cuidados adequados evitarão danos maiores às árvores jovens e vegetação secundária, assim como à vida animal, ensejando a regeneração da área explorada.
 
Portal do futuro
 
São esses apenas exemplos dos muitos meios e modos pelos quais o Brasil pode ocupar produtivamente a Amazônia e valer-se da floresta sem agredi-la, comprometer-lhe o futuro nem o das vindouras gerações de amazônidas e demais brasileiros.
A chave dos portais deste futuro é a compreensão do potencial da própria floresta – única, rica e biodiversa.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 
O desastre ambulante e a riqueza da Amazônia
 


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