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Porandubas Políticas 30.10.2019

 Abro a coluna com uma historinha do RN.

 
O sabiá do senador
 
Quando senador pelo Rio Grande do Norte, Agenor Maria (sindicalista rural, falecido em 1997), visitando o município de Grossos, foi interpelado pelo prefeito Raimundo Pereira.
 
- Estamos precisando de uma escola para a comunidade de Pernambuquinho.
De pronto, Agenor garantiu-lhe apoio à proposição. Semanas depois, um telegrama traz a boa-nova ao prefeito.
 
- Escola está assegurada. Mande-me o croqui.
Tomado pelo espírito de gratidão, Raimundo visita Agenor para agradecer o empenho, carregando uma gaiola à mão. Diante do senador, que estranha o acessório, Raimundo vai logo se explicando.
 
-Eu não peguei um concriz como o senhor pediu, mas trouxe esse sabiá. O bichinho canta que é uma beleza.
(Historinha narrada em Só Rindo 2, de Carlos Santos)
 
Uma cutucada aqui, outra ali
 
O jogo parece combinado. Vez ou outra, o Twitter do presidente Bolsonaro aparece com adjetivos e verbos ácidos na direção de instituições e protagonistas da política. Desta feita, o ataque pegou meio mundo: OAB, CNBB, o próprio partido - PSL -, movimento feminista, Greenpeace, Lei Rouanet, CUT, partidos de oposição ao governo (PT, PC do B), órgãos de imprensa e, pasmem, até a ONU e o STF. Todas essas instituições são hienas e ele, um leão, cercado. Mais que cutucar a onça com vara curta, o destempero do presidente é um atentado ao bom senso. Ganhou dura resposta do decano do Supremo, ministro Celso de Mello, que considerou a postagem "um atrevimento sem limites". Passado o impacto, a desastrada mensagem foi apagada. E o presidente pediu desculpas. Mais uma dos filhos? Jogo combinado?
 
Com o príncipe
 
Antes de se reunir com o mandatário da Arábia Saudita, o presidente Jair Bolsonaro disse que possui "certa afinidade" com o príncipe herdeiro Mohammad bin Salman. Segundo ele, "todo mundo" gostaria de passar uma tarde com um príncipe, "principalmente as mulheres". O mancômetro de sua Excelência está com defeito.
 
Cada fatia com 1/3
 
Até quando veremos o país dividido e polarizado? Não há previsão de harmonia, convergência, integração de propósitos no curto prazo. As razões são por demais conhecidas: interesse do presidente Jair Bolsonaro em manter acesa a fogueira da polarização; interesse do PT e seus satélites em cutucar o bolsonarismo, usando-o como alvo até as eleições de 2022; incertezas e dúvidas das áreas centrais sobre o amanhã do país. Bolsonaro governa para 1/3 da população; 1/3 habita o território da oposição e um pouco mais de 1/3 fixa-se, por enquanto, no centro, um olho olhando para a esquerda, outro para a direita.
 
Maquiavel
 
É dele o conceito: "Nada é mais difícil de executar, mais duvidoso de ter êxito ou mais perigoso de manejar do que dar início a uma nova ordem de coisas".
 
Os fogueteiros
 
Ao contrário do que se pode supor, amainar a ferocidade dos exércitos em luta tem sido tarefa impraticável. Porque as estocadas de ambos os lados crescem, não diminuem. Para complicar, os batalhões bolsonaristas contam com fogueteiros que têm prazer em expandir as chamas. Entre esses, destacam-se o chanceler Ernesto Araújo, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, e a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves. São ácidos no combate. Conservadorismo radical.
 
Os três mosqueteiros
 
Já os filhos Flávio, Eduardo e Carlos formam a tríade de defesa do presidente. A contenda sobre eles e em torno deles não tem prazo para terminar. Pois o novelo continua sendo puxado, envolvendo os três. O ex-assessor Queiroz acaba de sinalizar um "cometa" do MP que querem "enterrar na gente". E abre mais polêmica. É áudio vazado quase todos os dias. O presidente responde: cada qual vive suas vidas. Não é responsável pela vida dos outros. Esse ambiente de querelas, fofocas, disputas no PSL vai continuar a poluir a esfera política.
 
As eleições de 2020
 
O vestibular para 2022 tem uma escala em 2020 com a eleição de 5.570 prefeitos. O bolsonarismo, na hipótese de continuidade da polarização, deve formar uma base em torno de 1.800 prefeitos, com números aproximados para a esquerda e um pouco mais para os espaços centrais, ocupados por grandes estruturas e partidos. A incógnita que poderá empurrar os polos ideológicos contrários para maior ou menor quantidade será o desempenho da economia. Se registrarmos até meados do próximo ano melhoria no bolso e maior conforto familiar, certamente a extrema direita contará com esse formidável cacife. A recíproca é verdadeira.
 
Regiões e circunstâncias
 
No balcão das oportunidades, a região Nordeste, com seus quase 30% de eleitores, terá papel decisivo na composição da base política que impulsionará o pleito de 2022. O Nordeste padece o maior desastre ambiental do país em todos os tempos. O governo chegou atrasado para cuidar dessa crise que começou há meses com os primeiros volumes de óleo inundando as praias. O tal ministro desbocado Ricardo Salles passou alguns minutos em visita a algumas praias. Para falar lorotas. Providências mesmo só apareceram quando o general Mourão, o vice-presidente no cargo de presidente, disponibilizou contingente das Forças Armadas. Mas o presidente Bolsonaro até o momento não visitou as praias invadidas pelo óleo.
 
O que poderá ocorrer
 
Certamente vai haver cobrança ao presidente pelo fato de não ter ido ao Nordeste ver o tamanho da tragédia. E isso abre polêmica e desperta animosidade. Não há dúvidas que a ausência do presidente esquentará o discurso eleitoral. O sentimento de rejeição ao Nordeste pode ser respondido com o sentimento de rejeição aos candidatos bolsonaristas. Atenção: uso, aqui, a possibilidade. Pode ou não ocorrer. A depender, mais uma vez, da questão econômica e das circunstâncias que se formarão ao longo dos próximos meses. Muita água correrá ainda pelas margens litorâneas até outubro de 2020. A conferir.
 
Duverger
 
Maurice Duverger, o renomado estudioso francês dos sistemas políticos, lembra: "o Brasil só será uma grande potência no dia em que for uma grande democracia. E só será uma grande democracia no dia em que tiver partidos e um sistema partidário forte e estruturado".
 
O peso de SP e Minas
 
São Paulo e Minas lideram o eleitorado brasileiro, o primeiro com cerca de 35 milhões de votos, o segundo com mais de 16 milhões. O voto mineiro é uma síntese do voto nacional. MG é um Estado que reúne brasileiros de todos os recantos. E São Paulo é, por excelência, o território do voto racional. O voto da capital é mutante. O eleitor vota de acordo com suas demandas e respostas dos protagonistas da política. Esses dois Estados são os polos que vão funcionar como a pedra jogada no meio da lagoa: as marolas formadas pela direção dos votos paulistas e mineiros chegarão até as margens longínquas.
 
Convivência ou litigiosidade?
 
Como o Brasil vai se relacionar com a Argentina comandada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner? O gesto do presidente eleito – o L do Lula solto – não caiu bem. Falta de envergadura litúrgica. Ou seja, as relações entre Brasil e Argentina começam sob a sombra de Lula preso. E da resposta dura de Bolsonaro: os argentinos escolheram mal. E mais, disse ele: o gesto pedindo a soltura de Lula é "afronta à democracia brasileira e ao sistema judiciário brasileiro. Uma pessoa condenada em duas instâncias. Outras condenações a caminho. Ele está afrontando o Brasil de graça".
 
Toffoli, a grande jogada
 
O presidente do STF, Dias Toffoli, prepara uma jogada de mestre. O adiamento da votação da Corte no capítulo da prisão após a 2ª instância faz parte da estratégia do magistrado para deixar as águas correrem e verificar a direção dos ventos soprados pela opinião pública. In médium virtus – a virtude está no meio. Como há um sentimento de repulsa a eventual decisão do Supremo no sentido de mudar mais uma vez o instrumento, Toffoli deve optar por um meio termo. Ou seja, a condenação na 3ª instância, no STJ, já abriria a possibilidade de detenção do acusado. Seria um meio termo. O voto do presidente, portanto, mesmo sujeito a críticas, estaria atendendo aos anseios das duas bandas em querela.
 
Sólon
 
Ao ser perguntado sobre as leis que outorgara aos atenienses, Sólon, um dos sete sábios da Grécia antiga, disse: "Dei-lhes as melhores que eles podiam aguentar".
 
Lula vai às ruas
 
O PT se prepara para voltar à liça, ou mais precisamente, ao centro do poder. Contando com sua liberdade, Luiz Inácio quer fazer uma baciada de prefeitos. Daí a recomendação para que seu partido apresente candidatos no maior número de cidades. Quando argumentam que o PT deve integrar uma frente de oposição, ele, Lula, insiste: contanto que a cabeça de chapa seja do partido. Lula espera novamente incendiar o país.
 
O eterno retorno?
 
Para tanto, promete resgatar a tal Caravana da Cidadania, que correu o país antes de sua eleição em 2002. Em suma, a síndrome de Sísifo pode baixar, mais uma vez, por nossas plagas. P.S. Sísifo, o condenado pelos deuses a levar uma pedra nos ombros e depositá-la no topo da montanha. Quando está prestes a conseguir o feito, a pedra rola ao sopé da montanha. Sísifo vai tentar mais uma vez. Jamais conseguirá. Fará isso por toda a eternidade. Brasil do eterno retorno.
 
Um conto com Zé
 
Zé caiu num poço profundo. Desesperado, tentava, por horas seguidas, escalar as paredes. Quando conseguia subir alguns metros, caía novamente. Obcecado pela ideia de se salvar, não percebia a corda lançada por um desconhecido que por ali passava. Zé não conseguia nem ouvir o apelo:
 
- Pegue a corda, pegue a corda.
Surdo, a atenção voltada para a tarefa, só reagiu quando sentiu a dor de uma pedra jogada nas costas. Furioso, olhou para o alto, viu o desconhecido e gritou:
 
- O que você deseja? Não vê que estou ocupado? Não tenho tempo para preocupar-me com sua corda.
E recomeçou o trabalho.
 
Depois de pedradas insistentes nos costados e um intenso clamor cívico, Zé felizmente começou a despertar do estado catatônico em que se encontrava, saindo do poço profundo.
 
Esse pequeno conto cai bem nesse instante em que o Brasil abre as cortinas de um novo ciclo político. Zé é a imagem de uma sociedade que sai de seu torpor e busca os próprios caminhos. Evitando a mistificação de populistas e demagogos.
 
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato
 


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