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Como se faz um projeto de ditador 06.11.2019
Marco Antônio Pontes
 
Eduardo chegou lá
 
Eduardo Bolsonaro, deputado do baixo-clero, haveria de passar um tempo no Congresso com o mesmo destaque de seus colegas em igual condição: zero. No entanto algumas coincidências, outros tantos acidentes e uma conjuntura atípica levaram-no ao proscênio; dá-se muito mal no palco, mas está no proscênio.
 
Hoje se destaca por ser filho do presidente e assim integrar pequeno grupo, nu-cleado em seu quarteto familiar e engajado nas piores causas: defesa de ditaduras, coo-nestação da tortura e elogio de torturadores, menosprezo às instituições democráticas e ao estado de direito, discriminação de minorias, racismo, misoginia... ele chegou lá!
 
Só no retrovisor
 
Não que Eduardo Bolsonaro deitasse-se na cama já feita. Como os irmãos, empenhou-se no projeto e secundou o pai na decidida marcha rumo ao atraso, por isso ganhou proeminência entre os que só veem a evolução pelo retrovisor.
Comento em seguida seus esforços, mas antes devo registrar as coincidências e acidentes que o tiraram do anonimato, na citada conjuntura atípica que por si mesma explica quase tudo. Tento sintetizar, algo esquematicamente, o ocorrido.
 
Elites desmoralizadas
 
Impedida aquela ‘presidenta’, eleita por um partido erroneamente dito de es-querda, condenado seu líder decaído no bojo de ações judiciais que alcançaram centenas de larápios de variada extração, desmoralizados os políticos em geral, justa ou injustamente atirados na vala comum da corrupção – tudo isso feito, a sociedade cansou de ser enganada e buscou alternativas à margem das elites políticas e econômicas.
 
Grupelhos fascistas
 
Desamparados, os eleitores que repudiavam o populismo petista embarcaram na primeira canoa, mesmo furada, que parecesse rumar outros destinos.
Aos desiludidos somaram-se os minoritários, ainda assim expressivos segmentos inclinados à direita e os ainda menores contingentes de inspiração vagamente fascista, os ultrarreacionários como Jair Bolsonaro e sua grei.
 
Aposta no escuro
 
Desse jeito desajeitado a minoria barulhenta obteve a cumplicidade do grande capital, que para livrar-se do populismo desastrado, porém conhecido, preferiu o salto no escuro, conforme a visão míope de economistas inexperientes em questões de estado, politicólogos de segundo time e daquele pseudofilósofo pomposo, ex-astrólogo-radical-de-esquerda, hoje direitista extremado, que faz a cabeça do clã Bolsonaro.
 
Aprendizes de feiticeiro
 
Assim o tsunâmi do atraso engolfou-nos.
Tardiamente os donos do dinheiro percebem o desastre que provocaram, suas assessorias técnicas tentam fórmulas de revertê-lo... mas o mal está feito, não dá pra deixar o dito (e feito) pelo não dito.
Os ‘aprendizes de feiticeiro’, do tipo que ‘bota o feitiço mas não sabe tirar’, têm agora de haver-se com a inadimplência do contrato espúrio, que solertemente firmaram, entre suas ambições imediatistas e as perenes veleidades ditatoriais do bolsonarismo que ajudaram a ascender.
Neste fim das ilusões é que Eduardo Bolsonaro faz-se personagem central da tragicomédia – não era este o projeto?
 
Missões arriscadas
 
Eduardo Bolsonaro, o trêfego 03 do pater familiae que só contabiliza varões, tem cumprido seu papel.
Ultrapassou os irmãos mais velhos – 01 constrange-se pelas ligações com o ex-assessor Queiroz, amigo da família e por sua vez em perigosa proximidade com milícias e milicianos, 02 anda ocupadíssimo em comandar a (des)informação palaciana – e assumiu a liderança substituta, poupando o pai das missões mais arriscadas, como solapar a democracia.
 
Anomalias eleitorais
 
Eduardo Bolsonaro estreou na mídia em fortuita aparição, ‘papagaio de pirata’ atrás do pai quando o deputado Jair Messias aproveitou a visibilidade do voto pró impe-achment para homenagear o torturador emblemático dos porões da ditadura.
Frequentou quase incógnito o Congresso até beneficiar-se da anomalia eleitoral que levou 00 ao Planalto para reeleger-se numa enxurrada de votos e assumir o comando do Diretório de seu partido em São Paulo.
 
Jipe, cabo e soldado
 
Seu primeiro ensaio na carreira solo foi um rugido contra as instituições que, hi-poteticamente, haveriam de sustar voos mais altos (ou, melhor, mergulhos mais fundos) do pai-presidente em sua trajetória retrógrada.
Aconteceu nos primórdios deste governo, quando Eduardo Bolsonaro ameaçou o Supremo Tribunal Federal dizendo que para fechá-lo “não precisaria de tanques, bas-tariam um jipe, um cabo e um soldado”.
Na época ninguém fez caso, poucos denunciaram o conteúdo fascistóide do chiste e meio que se lhe desculpou o arreganho autoritário, atribuído a inconsequências juvenis.
 
Passo maior que as pernas
 
Desde então Eduardo Bolsonaro ‘acostumou-se à fantasia’ (apud Chico Buarque) de líder emergente e informal dos deputados governistas, oscilou para incursões em política externa, notoriamente um passo maior que as pernas, amiudou viagens aos Estados Unidos a prestar vassalagem ao “filósofo”, aquele com aspas e sem causa, caprichou no inglês que os falantes do idioma consideram “de curso fundamental em escola-padrão brasileira”, fez dobradinha com outro ‘olavete’ notório das hostes paternas, o atípico titular do Itamaraty...
 
Filé ou selfies
 
Mais tarde se compreenderia porque investiu em relações internacionais: o pai acalentava o sonho de mimoseá-lo com o ‘filé mignon’ da Embaixada em Washington, conseguiu até beneplácito preliminar de Donald Trump, aquela avantesma.
Deu errado – alguém pensou que daria certo? –, senadores ameaçaram rebelar-se e os estrategistas (?) da família precisaram achar outra posição de destaque para Eduardo Bolsonaro.
O lugar encontrado foi o de líder na Câmara, agora formal, do PSL, aquele aglo-merado de deputados cujo interesse maior é fazer selfies no plenário para transmitir nas redes ‘sociais’: “Olha eu aqui!, gente!”
 
Bolsonaro e Pirro
 
Ainda não se sabe se desta vez dará mesmo certo a promoção de Eduardo Bolsonaro a condição política formal compatível, digamos, com seu status familiar.
Para de fato ‘chegar lá’ e lá ficar – na liderança do PSL –, o pai extremoso tem que enfrentar o ‘dono’ da agremiação, parlamentar anódino mas antigo, matreiro.
Por enquanto a ‘primeira família’ ganhou, resta saber se a vitória não será como a de Pirro, aquele rei que para vencer a batalha destruiu seus exércitos, depois o próprio reino.
 
Vitória provisória
 
Nesta guerra Bolsonaro, o pai, poderá perder a briga e ter que procurar outro abrigo partidário, talvez criar outro para chamar de seu.
As perdas não serão pequenas: primeiro os quase R$ 400 milhões anuais do PSL, verba destinada a garantir-lhe o funcionamento e em seguida outro tanto para impulsionar candidatos nas eleições do ano que vem.
 
Repugnância, fúria
 
Foi assim que Eduardo Bolsonaro chegou formalmente ao proscênio e logo se valeu da nova circunstância para a inacreditável (“repugnante”, disse Rodrigo Maia) ameaça de reeditar o famigerado AI-5.
Pegou mal, claro e ele não se emendou de pronto, reincidiu duas vezes no absur-do até perceber, horas mais tarde, que nem o pai podia apoiá-lo – mesmo quisesse, e dá pra imaginar que queria, pela reação furiosa com os repórteres que lhe cobraram a dia-tribe do rebento.
 
Intenções ocultas
 
Não teve jeito, Eduardo Bolsonaro precisou explicar-se. Até desculpou-se, sem se mostrar convencido, apenas em atenção “a quem se considere ofendido”. Admitiu ter sido “infeliz” (só isso!) ao falar em Ato Institucional.
Surpreenda-se quem quiser, este velho escriba registra há meses a verborragia autoritária do ex-capitão e filhos.
No conjunto eles conformam um ente que produz falsos fatos, negações dos erros mais óbvios, interpretações distorcidas dos que não pode negar e confunde a opinião pública, a ocultar não se sabe que intenções.
 
Queriam o quê?
 
Seriam só monótonas, cansativas não fossem preocupantes as continuadas, quase diárias manifestações estapafúrdias de Bolsonaro & filhos. Elas confirmam o que se sabia desde o início: elegemos um ex-capitão rude e mal servido dos atributos cognitivos que lhe permitiriam superar tal condição.
Se não conseguiu evoluir na carreira militar, a qual teve de interromper por insuficiência intelectual combinada com indisciplina; se passou quase três décadas na Câmara ignorado até por seus pares no baixo-clero, como compreenderia? seus novos deveres quando acidentalmente se tornou presidente da República?
 
Maus presságios
 
Tanto pior se os filhos pensam igual, partilham-lhe o vezo autoritário e anseiam por superar a herança paterna.
Daí os receios quanto à evolução do caótico processo desencadeado pela família presidencial: a recorrente defesa de ditaduras aqui e em nações vizinhas, culminada com a alusão ao AI-5 pelo protagonista da vez, provocam neste provecto jornalista lembranças tétricas de escuros tempos que viveu.
Longe de mim profetizar catástrofes, mas acho bom colocar as barbas de molho.
 
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 


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