Brasília, 06 de Dezembro de 2019
Página inicial
Quem somos
Contato
Cadastre-se
Anuncie aqui
Notíias | Entrevistas | Notas | Artigos | Enquete | TV Câmara | TV Senado | Agendas

Anuncie Aqui

STF desafiado, gols contra do Guedes 03.12.2019

 Marco Antônio Pontes

 
 
Desafio aos ‘supremos’
 
O Tribunal Regional Federal da 4ª Região não reverteu como esperado a segunda condenação de Lula, até agravou-lhe a pena, em mais uma derrota do ex-presidente.
E fez mais, desafiou maioria eventual da Corte suprema: os desembargadores federais, com surpreendente segurança na audácia, contrariaram a controvertida decisão que, na visão leiga dos vãos mortais – e apreciação douta de cinco dos onze ministros –, impôs uma ‘tecnicalidade’ não prevista na legislação processual nem em jurisprudência anterior.
 
Péssimo e ótimo
 
O feito admite duas leituras, opostas porém não excludentes.
Primeiro, é péssima a impressão de que Supremo foi afrontado, sinalizando-lhe enfraquecimento.
Simetricamente é ótimo que um Tribunal Regional reafirme valores do estado de direito e aferre-se à lógica da Justiça, de modo algum propriedade do STF, cujos ministros dão mau espetáculo ao dividirem-se em questiúnculas quando não se desentendem e até ofendem-se nos debates, desmoralizando-se e à instituição.
 
Choque de humildade
 
Contudo, ótimo e péssimo confluem e complementam-se porque os ‘supremos’ – como se qualificou e aos pares um dos ministros – bem merecem um choque de humildade: humanos, eles podem errar e reformular conceitos, motivações, atos.
E eis que o Supremo Tribunal Federal parece aproveitar, mesmo sem admitir, a oportunidade de redimir-se aos olhos da opinião pública ao derrubar decisão monocrática de seu presidente, aquela que sustara partilha de informações entre Receita Federal, UIF (ex COAF) e Ministério Público no combate ao crime.
 
E não é pra assustar?
 
Paulo Guedes cometeu sua maior trapalhada verbal desde que assumiu o Minis-tério da Economia – não que as anteriores tenham sido pequenas.
Talvez para agradar o chefe incomodado com os desaforos ao filho 03, que nos ameaçou (textualmente) com “um novo AI-5”, o ministro usou o mote para reagir à pregação radical de Lula e avisou: ninguém se assuste ao ouvir falar... em AI-5!
 
Teatro e ironia
 
Na verdade Guedes perpetrou trapalhadas em série. Depois do arreganho autori-tário, descontrolou-se em entrevista coletiva e quis consertar um erro com mais erros.
Teatral, atitude em que é vezeiro quando perde o controle da situação, simulou discurso candente e grotescamente ‘democrático’, encerrando-o com pergunta irônica ao repórter que o invectivara: “Então?, satisfeito?”
 
Irritação, arrogância
 
Cobrado da ironia extravasou irritação, beirou o achincalhe e fez pior ao negar o óbvio, seu irônico pastiche de eloquência libertária. Agressivo, declarou-se arrependido de estar na entrevista em que “só pretendia esclarecer sobre economia”.
Ninguém lhe contestou a arrogante pretensão de “esclarecer”, em assuntos nos quais se julga onisciente, os repórteres e demais brasileiros talvez infensos às lições de tal professor.
 
Baixando o nível
 
Esteve mal, o ministro Guedes, até ao enfrentar os problemas de sua área: coisa mais estapafúrdia, o titular da Economia fazer pouco caso da formidável queda do real ante o dólar, justo enquanto o Banco Central intervinha fortemente no mercado para atenuar a derrocada.
De tão infelizes suas declarações quase se nivelam às grosserias do inepto e mal-educado colega da Educação, aos desmandos do ‘olavete’ que envergonha as tradições do Itamaraty, até mesmo às inoportunas, equivocadas quando não ridículas manifestações de Damares – ah!, a Damares...
 
Ministro integrado
 
De certa forma, o desvio autoritário e o escorregão técnico de Paulo Guedes su-gerem sua efetiva integração ao governo Bolsonaro: destrambelhado, acaba por emular o comportamento do chefe e integrantes do núcleo duro do bolsonarismo, os filhos 01 a 03, ministros ‘olavetes’ com uns dois ou três aderentes e a entourage colocada por 02 no Planalto.
É assim que nos ameaça com endurecimento do regime, enquanto copia do pre-sidente o hábito de fazer ‘gols contra’.
 
Como fica a aposta?
 
Tudo isso deixa curioso (e preocupado) este colunista: como se comportará? o empresariado brasileiro que apostou em Bolsonaro para exorcismar o PT?
Paulo Guedes, avalista do chefe junto aos donos do capital, asseverou-lhes algo como ‘O capitão é doido mas não rasga dinheiro’, prometeu consolidar a tal economia de mercado em meio à pauta retrógrada em costumes, cultura, meio ambiente...
Na época as elites empresariais toparam pagar o preço, a marcha batida rumo à Idade Média; e agora?, quando Guedes amolda-se ao besteirol geral, manterão o credo no fiador?
 
Comboio autoritário
 
Entretanto estou mais preocupado que curioso, como escrevi na semana passada, por que Jair Messias e seus ultra-qualquer-coisa têm nenhum compromisso com a democracia nem com o estado de direito.
Suas manifestações indicam que, se encontrarem mínima brecha, tentarão enfiar um comboio autoritário por desvãos quiçá desprotegidos do arcabouço institucional, aventura improvável mas não de todo afastada.
Afinal, desde Deodoro a República brasileira costuma transgredir os preceitos republicanos.
 
Democracia, ponto
 
Só mais um detalhe preocupante, leitor, e prometo não mais assustá-lo nesta edição: lembra-se? de que um dos generais-presidentes afirmou, em plena ditadura, que vivíamos “democracia relativa”? Fingiu não saber que o conceito de democracia não admite adjetivos restritivos e prescinde dos explicativos: democracia é democracia, ponto.
Agora Paulo Guedes, nas vãs explicações da boutade autoritária, proclamou-se adepto de “democracia responsável”.
 
Sonho, pesadelo
 
Às vezes o perigo esconde-se nos detalhes. Por exemplo, o mote dos noticiários da estatal Rádio Nacional, “jornalismo construtivo” – o resto seria destrutivo? Ou o ato-falho do próprio ex-capitão, na forçada crítica ao “novo AI-5” do filhote deputado: disse que a volta do édito-símbolo da ditadura é “coisa de sonhadores”; seria? um AI-5 o sonho dele, e de sua turma? – e nosso pesadelo?
 
“Interessante, desde que...”
 
Reiterando-se meu “leitor assíduo”, para honra e encanto deste velho escriba, Everardo Maciel informa ter lido “a tese do Stiglitz [que comentei na edição passada] sobre um ‘imposto global’”. Não gostou e diz por quê:
Muito interessante, desde que sejam previamente superados os conflitos entre Israel e os palestinos, Rússia e Ucrânia, Coreia no Norte ou Cuba e Estados Unidos, [...] saída para o Brexit, a guerra comercial sino-americana, um tratado multilateral de prevenção da bitributação, implodir paraísos fiscais etc.
 
Parvoíces
 
Prossegue Everardo, impiedoso e preciso como sempre:
Quando essa gente vai entender que imposto [...] é conflito que admite, quan-do muito, armistícios? E mais: que impostos presumem jurisdição e jurisdicionados, i.e., estados, territórios e cidadãos? Já não tenho paciência com essas parvoíces.
Nem eu, amigo, quando de parvoíces se trata. No entanto...
 
Utopia
 
..., declaro: não discuto opiniões de Everardo Maciel sobre tributos, disso ele sabe tudo e eu, nada. Mas a este leigo escriba parece que o Nobel em economia, certamente não um parvo, fala de algo mais que “imposto” ao propor concertação “global” para eliminar as obscenas desigualdades intra e internacionais.
O entendimento sugerido, de improvável êxito a curto prazo, ultrapassa políticas nacionais (inclusive tributárias) e mira uma utopia a realizar-se, globalmente, em gerações vindouras.
Não se haveria?, sendo a ideia “muito interessante”, de ensaiar um primeiro passo?
 
Difamação
 
Gostaria de ler algo escrito por você a respeito da campanha de difamação da mídia brasileira contra o Governo – provoca-me o amigo e conterrâneo Domingos Sabino Diniz, acrescentando:
Acredito que nunca houve precedente [...].
 
Apanha e bate
 
De fato a imprensa tem sido inclemente, mas não usaria o termo “campanha”. O presidente e seu entorno capricham em ensejar críticas, como tenho comentado aqui. E se apanha, Bolsonaro também bate: candidato, equiparava jornalistas a ‘inimigos’; no poder agride repórteres, manda cortar assinaturas da Folha, pressiona seus anunciantes, ameaça a concessão da TV Globo...
 
Imprensa x poder
 
Percebo ainda que tanto Bolsonaro quanto seus adversários reclamam da im-prensa (ou reclamaram, esses, quando no poder), o que me leva a acreditar que a im-prensa está (esteve) certa.
Creio, amigo Domingos, que vigiar governos é nossa obrigação, dos jornalistas. Como dizia Millôr, “jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados.”
 
Todos sofreram,...
 
Quanto aos governos precedentes, mesmo sem ter como aferir precisamente, desconfio de que alguns foram até mais atacados; dou testemunho de velho observador e deixo ao leitor o veredito.
Getúlio sofreu horrores: Carlos Lacerda, seu jornal e maioria dos demais não o poupavam; só encontrou saída no suicídio.
Juscelino teve contra si toda a grande imprensa, avessa à construção de Brasília.
João Goulart... nem se fala!
Ultrapassado o fosso autoritário, Sarney teve presidência nada mansa e Collor, brigando contra o impeachment, também acusou a imprensa de golpeá-lo.
 
...alguns, menos
 
Declaro-me suspeito quanto ao governo Itamar, de que participei e detecto duas exceções, os presidentes que o seguiram: Fernando Henrique e Lula contaram (contam) com relativa boa vontade – dos jornalistas, quando não dos donos de veículos. De Luís Inácio diria até que os coleguinhas morrem de medo, por isso o tratam bem.
Finalmente, Temer foi tão ou mais atacado que Bolsonaro, depois do impudente diálogo com aquele empresário enrolado.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br


ABC POLITIKO - LINHA DIRETA COM O PODER
COMENTE ESTE ARTIGO   LEIA COMENT√?RIOS (0)  

Voltar a P√°gina Principal Voltar a P√°gina Principal Voltar a P√°gina Principal Voltar a P√°gina Principal
VEJA MAIS

03.12.2019 STF desafiado, gols contra do Guedes
02.12.2019 Encolher ou fortalecer o Estado?
27.11.2019 Porandubas Políticas
26.11.2019 O Congresso vira o jogo. E a √ļltima do Bolsonaro
25.11.2019 Thêmis sob densa névoa

VEJA TODOS

SRTVN Quadra 701 Bloco B Sala 826 - Centro Empresarial Norte | Brasília - DF | CEP 70710-200 | Fone: (61) 3328-2991 | Fax: (61) 3328-2152