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O cansaço das ruas e a degeneração do idioma 06.01.2020

 Marco Antônio Pontes

 
 
Cansaço de ser
 
Virginia Helena Vianna Rocha conjetura de minha estranheza ante o silêncio das ruas ao tempo em que sofremos o obscurantismo enquistado no Planalto, descremos dos parlamentares (até dos parlamentos!) e não entendemos o que fazem e pensam suas excelências, os onze "supremos" que por sua vez se desentendem:
– "Há um cansaço, como das pernas ou de um braço, um cansaço só de ser, existir. Provavelmente o autor da frase seja Fernando Pessoa (...). De tanto ver sucesso em figuras nefastas, tanta indignidade vitoriosa à solta, diria "Ruim Barbada", grosseira troça ao conhecido texto de Ruy, surgiu cansaço (...) em desesperança aguda.
 
Milhares, milhões x bilhões
 
Nenhum analgésico, antibiótico, antidepressivo – prossegue – é capaz de mobilizar os jovens à contestação. Por que? São milhares nas filas de emprego e milhões recusados nas escolas. (...) E, ao revés, são bilhões de reais desviados da merenda escolar, remédios, educação à favor dos fundos partidário e eleitoral. E nós renováramos cerca de um terço do Congresso Nacional! Elegemos (...) a revoada de novos próceres muito mais por oposição aos passados.
 
"Direito" às benesses
 
Sigamos com a brilhante escritora que me honra com leitura e participação:
Temos "Messias" (...) imperador romano, despótico e demagógico dizendo e desdizendo com os filhos (...) qual bêbados na corda bamba (...) e nenhum Cícero a liderar oposição às pautas ignóbeis (...). A mais grosseira e estúpida condenação à miserabilidade está em manter privilégios das corporações (...) na reforma previdenciária. (...) Brioches travestidos de lagosta, vinhos finos, auxilio isso e aquilo (...) viraram direito adquirido (enquanto) a grande massa dos desassistidos pela Previdência custeia as benesses vorazes (...).
 
País do carnaval
 
Não há clamor que se sustente nas ruas – desalenta-se Regina Helena – ante o desencanto de ver mais do mesmo no comando da nação. Exceto se rebelião emergir como nos tempos idos da "Belle de jour" (refere-se ao filme de Bunuel).
– Que país é este? – ela resgata em contexto diverso, ironia reversa, a pergunta do perplexo Francelino na ditadura. Mas Regina fala sério, depreende-se da resposta que ela mesma oferece, ainda mais se a citar Jorge Amado:
– O país do Carnaval.
 
Lembranças familiares
 
Domingos Sabino Diniz escreveu-me a propósito da coluna que há três semanas dediquei a Ronaldo Junqueira, amigo que então nos deixara. O texto provocou-lhe reminiscências a que chamaria pitorescas, não fossem tristes. Deixo que ele mesmo conte:
Tive o privilégio, sobrinho predileto, de ser amigo e confidente do escritor Fernando Sabino. Certa vez ele conversava com a minha mãe (irmã do escritor), Maria da Conceição Sabino Diniz, (...) quando atravessava fase de reclusão (Domingos reproduz o diálogo, a seguir).
 
 “Cavaleiros do apocalipse”
 
Nandinho, sai um pouco, vai visitar seus amigos
.– Não tem como visitar os amigos, Conchita.
– Por quê?
– Já passa das 19 horas e o cemitério fecha às 18.
Entre os mais próximos amigos cuja ausência Fernando lamentava, lembra o sobrinho, estariam Hélio Peregrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos. E agora é minha vez de recordar o deslumbramento juvenil à primeira de muitas leituras de O encontro marcado, seu romance inaugural, em que o grupo assombra as noites de Belo Horizonte com sugestivo aposto: “Os quatro cavaleiros do apocalipse”.
 
Quinta-coluna no idioma
 
Em curioso artigo Le Figaro, jornal da direita francesa (direita civilizada, nada a ver com o ultrarreacionarismo dos Le Pen e quejandos) critica contundentemente, porém com humor, um certo franglais.
A palavrinha batiza mistura idiomática de péssimo francês com pior inglês, esse encontradiço na internet e em insuspeitada "quinta-coluna"– um anúncio da Air France, “la compagnie d aviation nationale”.
A sátira é assinada por Isabelle Grégor, professora (de francês, ça va sans dire), que transcreve e comenta apelo do romancista Jean-Marie Rouart a “resister à l invasion du franglais, plus brutale que jamais” (suponho que as expressões en français prescindam de tradução).
 
Shocking!, too late
 
A colaboradora do Figaro interpreta a santa indignação do romancista num texto irônico, pontuado de "citações" no tal franglais. A folhas tantas, após trecho parcialmente em francês, outro tanto em inglês e o resto naquele "idioma"(!), Mme. Grégor espanta-se (aqui traduzo, a meu jeito):
“Compreendeu nada?, shocking!, você não fala franglais? Too late, já não pertence ao mundo dos que são in e pensam que misturar inglês e francês é so chic. (Acho que nem preciso traduzir as expressões (supostamente...) em inglês, também habituais entre brasileiros colonizados.)
 
Algaravia abastardada
 
Isabelle Grégor aproveita o ensejo e tripudia das agruras dos britânicos atrapalhados no "brexit", porém a seus compatriotas é que reserva mais desinibida impiedade:
“Enquanto nossos vizinhos não conseguem sair da Europa pela porta da frente, eis que seu vocabulário nos invade pela janela.” Em seguida, desanca indistintamente ingleses e franceses:
“Entretanto não é a língua de Shakespeare, em toda a sua riqueza, que se impõe pouco a pouco mas uma algaravia, abastardada para descer ao nível dos consumidores – quer dizer, nós, pobres ignorantes, só capazes de ler o idioma de manual de curso primário.”
 
Combatente solitário
 
A crítica da articulista do Figaro, embora sutil, é candente defesa da língua de Racine contra a agressão de anglicismos, tanto pior se vertidos em “algaravia abastardada”.
Os brasileiros haveríamos de emular o comportamento dos franceses e defender com igual denodo nossa “última flor do Lácio”, se não com a preciosidade Bilac, certo com a eficaz ironia de Grégor e Rouart. Mas desde o tempo dos parnasianos escasseiam por aqui manifestações que tais; uma exceção é o esforço empreendido por Roldão Simas Filho: em livros, artigos e invectivas à imprensa ele denuncia a predação silente, sorrateira e solerte de nosso idioma.
 
Degeneração pelo idioma
 
Contemporâneo de Olavo Bilac, Ruy Barbosa (jurista, jornalista, político e frasista emérito) percebeu há cerca de cem anos fenômeno de que nos desavisamos ainda agora:
A degeneração de um povo [...] começa pelo desvirtuamento da própria língua.”
 
Crimeia oscilante
 
Assisti na GloboNews a ótimo documentário sobre a Ucrânia, do qual um dos destaques foi a perda da Crimeia para Rússia em 2014. Os repórteres estiveram na península, mostraram-lhe as belezas e potencialidades e também os problemas, em especial os que derivam de haver integrado no curso três gerações a República Soviética Russa, a Soviética da Ucrânia e em seguida a da Ucrânia, tout court, após do fim da União Soviética para afinal reintegrar-se à Rússia – foram quatro! diferentes status desde 1953.
 
Crise de nacionalidade
 
Imagine-se como se sentiriam os naturais, digamos, a zona missioneira gaúcha, brasileiros há coisa de três séculos, se seu território fosse consensualmente anexado pela Argentina e assim permanecesse mais de 60 anos para então retornar ao Brasil, manu militari – tudo em meio a transformações sócio-políticas, rebeliões e golpes de estado.
Confusão pra ninguém botar defeito!, não? Pois foi o que sofreram, ceteris paribus, os russos e ucranianos da Crimeia.
 
Visão panorâmica...
 
Os repórteres da GloboNews ofereceram amplo panorama da Ucrânia, na região de Chernóbil detiveram-se nas consequências da maior catástrofe nuclear da história. 
Exibiram os encantos naturais e demais recursos do país, criticaram a recente anexação da Criméia pela Rússia, registraram as consequentes sanções que o Ocidente impôs ao império de Putin e os prejuízos decorrentes.
 
...e incompleta
 
Omitiram, porém, informação importante: a Crimeia foi russa por séculos, no tempo dos czares, o que explica a origem de quase toda a população. Sua anexação à Ucrânia só ocorreria em 1953, serviu à solução de conflitos internos da então União Soviética e foi decidida pelo então dirigente (da URSS) Nikita Kruschov, um russo de origem ucraniana nascido na fronteira entre as duas nações.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 
 


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