Brasília, 28 de Março de 2020
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Democracia faz bem √† sa√ļde. 19.03.2020

 Marco Antônio Pontes

 
Democracia faz bem,...
 
Democracia faz bem à saúde, a gente constata ao registrar como se houveram os governos do mundo ante a emergência do novo coronavírus.
A China, onde tudo começou, primeiro escondeu canhestramente o problema, ensejou que se agravasse mas recuperou-se, informou ao mundo o que se passava no epicentro da epidemia, aprendeu como enfrentá-la e afinal se saiu bem: superada a fase aguda da crise em seu território, agora ajuda a Europa a enfrentá-la.
 
...autoritarismo faz mal
 
No extremo oposto o autoritarismo e oportunismo grotescos do presidente dos Estados Unidos oferecem um paradigma: outra vez quem fizer o contrário do que faz Trump, aquela avantesma, haverá de acertar.
Ele negou incialmente a ameaça, atribuiu-a a maquinações de ‘globalistas’, in-sistiu em implicar com a ciência e os cientistas... e quando teve que recuar, sob o peso dos fatos, errou de novo ao bloquear atabalhoadamente o intercâmbio com a Europa, sem combinar com os europeus.
 
Negacionismo
 
Surpresa nenhuma, o presidente Bolsonaro imitou Trump e duvidou da epidemia, cuja repercussão atribuiu a fantasias da imprensa – sempre a imprensa!...
E então foi apanhado numa daquelas ironias da história: um assessor muito pró-ximo, seu secretário de Comunicação (sim, aquele enrolado em conflito de interesses de sua empresa com a função pública), contaminado com o vírus, estivera na comitiva do presidente na Flórida e voltara com ele no mesmo avião.
 
Confirmação
 
Sob risco, assustado, Bolsonaro apareceu de máscara em rede social e submeteu-se a teste que resultou negativo; o exame terá que repetir-se para atestar (ou não) a higidez do presidente.
No fim da noite de sexta-feira o senador Nelson Trad, outro companheiro de vi-agem do presidente, anunciou que se contaminara e recolheu-se, prudente, a sua casa. Pouco depois soube-se que o embaixador do Brasil em Washington também é vítima da Convid-19.
 
Trapalhadas
 
Não bastassem tantos problemas, o filho 03 envolveu-se em polêmica de ditos e desditos com a Fox News, rede internacional de TV simpática a Donald Trump.
O deputado Eduardo Bolsonaro teria informado que o primeiro teste indicou que o pai contaminara-se, depois se desmentiu (ou não, segundo a Fox) e até findar-se a semana ninguém sabia ao certo quem mentira – se a insuspeita (no caso) rede de notícias ou o atrapalhado deputado-filho.
 
Tradição de excelência
 
Mesmo atrapalhadas pelas intervenções estapafúrdias de Bolsonaro & filhos – e o que eles não atrapalham? – as ações dos responsáveis pela saúde têm sido impecáveis, no nível federal como (quase sempre) localmente; o ‘quase’ vai à conta de governadores que aproveitam o momento para aparecer, às vezes equivocadamente.
Já é uma tradição que vem desde Oswaldo Cruz no combate à febre amarela, passando pela criação e desenvolvimento de centros de pesquisa científica de excelência, como a que leva seu nome e mais institutos como Butantã, Adolfo Lutz, Evandro Chagas, Ezequiel Dias...
 
Informação e transparência
 
Ademais a atuação dos dirigentes e equipes técnicas pauta-se pela transparência: previne o pânico sem esconder a gravidade da pandemia e informa com clareza como evitar a explosão dos contágios.
Confirma-se: informação, transparência – democracia! – fazem bem à saúde.
 
Sacrifícios em vão
 
Foram mais de 70 mortos e desaparecidos na Baixada Santista nas primeiras águas de março, que se somam a outros tantos no Rio e região metropolitana, Espirito Santo, Belo Horizonte e demais Minas, grande São Paulo – são milhares de vidas sacri-ficadas a cada estação.
Afora o sofrimento dos sobreviventes, que perdem o amealhado em décadas de privação pra construir uma casinha debruçada sobre um córrego fétido ou pendurada em encosta instável e nela colocar geladeira, sofá, televisão...
 
Injusto, desumano
 
Estabeleça-se, pra começo de conversa, o quanto é injusto submeter milhões de brasileiros a riscos que tais; pior ainda quando se acrescenta desumanidade, como a do prefeito carioca que culpou os vitimados pela própria desgraça.
E não se podem atribuir as tragédias à natureza; se não é sábia ela é engenhosa, sabe defender-se de agressões e pune-as com severidade.
 
Tragédias anunciadas
 
Tão certo quanto janeiro suceder dezembro é que a cada verão ocorrerão chuvas torrenciais e desastres nas áreas de risco, das quais se haveria de remover os moradores.
Autoridades lamentam, compungidas, algumas combatem os efeitos das chuva-radas – outras nem isso, como o pastor aboletado na Prefeitura do Rio. Mas ninguém vai fundo no combate às causas das catástrofes.
 
Mudança radical
 
Não tem outro jeito: é preciso mudar radicalmente as estratégias e práticas que orientam a evolução das cidades, sobretudo das metrópoles.
Os preceitos do desenvolvimento sustentável – assim como os da democracia e justiça social – têm que orientar, condicionar, presidir as relações do ser humano com a natureza, inclusive nos ambientes urbanos.
 
 
Remodelação urbana
 
Há que impedir construções nas áreas em que os cursos d’água naturalmente se expandem nas estações chuvosas, assim como em encostas sujeitas a deslizamentos.
As invasões que pululam diariamente têm de ser detidas e é preciso remodelar a expansão urbana de maneira a contemplar as necessidades dos mais pobres.
 
Rios confinados
 
Tudo isso dá trabalho, custa caro e tem implicações políticas – mas precisa ser feito, ou as tragédias crescerão exponencialmente.
Ainda mais difícil é consertar o que está errado – e começar já, para minorar os problemas do próximo verão: há que livrar os rios urbanos do confinamento em canais, muitos deles cobertos por concreto e asfalto.
 
Modelo desastrado
 
Belo Horizonte é exemplo típico do aprisionamento dos cursos d’água.
A região que hoje é o centro da cidade era drenada por afluentes e subafluentes do rio das Velhas, o maior deles o ribeirão Arruda.
Todos, sem exceção, foram ‘domesticados’ conforme as conveniências do cres-cimento da capital mineira, seu leito sinuoso retificado – o que aumentou a velocidade das correntes, incrementando os desastres –, enquanto se ocupavam as margens com vias e edificações.
 
Modelo desastrado (ii)
 
Depois, em função dos requerimentos do trânsito, construíram-se ruas e avenidas diretamente sobre os canais, assim como vias expressas que estenderam o problema para além do centro.
Claro está que os engenheiros, urbanistas e arquitetos que projetaram a bela ca-pital mineira, da fundação em 1897 à expansão ao longo do século XX, fizeram todos os cálculos e projeções do espaço necessário aos cursos d’água, com previsões de cheias conforme as chuvas esperadas.
Eles trabalharam, obviamente, com o conhecimento então disponível.
 
Modelo desastrado (iii)
 
Só que a irracionalidade dos desejos e ambições humanas, de um lado e do outro a reação da natureza às agressões ultrapassaram as previsões dos técnicos.
A explosiva expansão da área urbana de Belo Horizonte na segunda metade do século XX ocupou os vales, as encostas e substituiu a cobertura vegetal por asfalto, ci-mento – na capital como em seu entorno.
 
Modelo desastrado (iv)
 
Quando as chuvas de verão tornam-se mais severas (assim como as secas na de-vida estação), em função dos desmatamentos e outras intervenções desastrosas, os solos impermeabilizados já não absorvem as águas excedentes, produzindo enxurradas que ultrapassam de muito a capacidade dos rios canalizados.
Daí as catástrofes repetidas anualmente, a exigir reversão dos equívocos que his-toricamente os técnicos e gestores urbanos não puderam evitar.
 
Destruir, recriar...
 
Agora a bela capital mineira precisa reinventar-se, resgatar o pioneirismo de seus criadores e ousar muito além dos tímidos parâmetros do atual urbanismo brasileiro.
Sabem?, aquela ideia de ‘destruição criativa’? Concebida em outro contexto, ela pode servir literal e drasticamente à empreitada com a qual os belorizontinos têm de haver-se.
Será preciso destruir parte do que foi construído em meio século ou mais e recriar a cidade, devolver o espaço subtraído ao bom e velho Arruda (que os moradores mais jovens nem conhecem...) e à demais rede fluvial.
 
...ou deixar-se abater
 
Impossível!, dirão os céticos, presos a velhos conceitos economicistas: arrebentar dezenas, centenas de vias na enorme área metropolitana, derrubar prédios, pagar indenizações, reformular toda a malha urbana custará bilhões!, não é viável!
Mas tem de ser: a alternativa é muito mais cara:
no curto prazo a cidade inviabiliza-se semanas a cada verão, com crescentes cus-tos econômicos e mais vidas perdidas;
a médio prazo o prejuízo material potencializa-se e a tragédia humana torna-se insuportável;
a longo prazo a omissão continuada destruirá, aí sim, a Belo Horizonte que co-nhecemos.
 
Modelo a emular
 
Desmente o ceticismo o que foi feito por citadinos mais proativos do que temos sido os mineiros e demais habitantes das metrópoles brasileiras.
Os sul-coreanos ressuscitaram o rio que haviam sepultado sob as avenidas de Seul e livraram-se de enchentes similares às que vitimam a capital mineira.
Simplesmente dinamitaram as canalizações, suprimiram vias construídas sobre elas e construções adjacentes, recuperaram espaços capazes de absorver as cheias e po-voaram-nos de parques, áreas de lazer e outras benfeitorias afeitas à natureza.
 
Pioneirismo...
 
Ante as atuais vicissitudes, típicas dos equívocos urbanos brasileiros, Belo Hori-zonte bem poderia resgatar a saga inovadora que lhe presidiu o nascimento.
Planejada e construída para ser capital do estado, a substituir a veneranda Ouro Preto, seus criadores inspiraram-se remotamente na construção de Washington, cidade concebida pelos estadunidenses ao findar-se o século XVIII para abrigar-lhes capital.
Mas enquanto o Distrito de Colúmbia aproveitou e remodelou urbes preexisten-tes, os mineiros inovaram ao escolher local praticamente deserto e justo por isso: o obje-tivo era expandir e consolidar a ocupação do território.
 
...reproduzido
 
O modelo seria reproduzido pelos australianos em Canberra e pouco depois (anos 1930) aqui mesmo, na construção de Goiânia.
Brasília deu sequência à estratégia pioneira, décadas depois repetida em Palmas e presente também em municípios de áreas pioneiras no Paraná, Goiás, Pará, Mato Grosso...
 
É pagar ou pagar
 
As metrópoles brasileiras – as que nasceram e evoluíram ao acaso como as pla-nejadas – ressentem-se da ocupação desordenada de encostas, vales e terão de encarar soluções drásticas para deter o processo anômalo, além de reverter os erros.
Sempre se dirá que os custos (financeiros, políticos) da prevenção e correção são proibitivos, não haverá dinheiro que os cubra etc.
Mas tem de haver, ou custará muito mais a fatura que a natureza inapelavelmente cobrará – em prejuízos financeiros e tragédias humanas.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 
 


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