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Nada é lógico se é dos Bolsonaro 23.03.2020

 Marco Antônio Pontes

 
Duplo desastre...
 
Há duas semanas escrevi que não era hora de propor impedimento de Bolsonaro, não estavam dadas as condições nem se haviam esgotado os recursos menos drásticos para deter-lhe a marcha rumo à insensatez.
Ainda não vejo o impeachment na próxima esquina nem o considero desejável, mas o próprio presidente colocou o pescoço sob a lâmina da guilhotina quando no do-mingo, 15.03, protagonizou duplo desastre: confraternizou ao pé da rampa do Palácio com manifestantes que pediam intervenção militar, fechamento do Congresso, do STF e antes de ter certeza de que não estaria contaminado pelo novo coronavírus aproximou-se das pessoas, apertou mãos, até posou para ‘selfies’ de rosto colado com apoiadora.
 
...em duas imprudências
 
O tempo político é instável, ora modorrento, previsível, ora acelerado e surpre-endente. Ações impensadas de um único ator, se está no proscênio, podem mudar encenação e enredo.
A dupla imprudência de Bolsonaro, sempre a cortejar os adeptos incondicionais – seu ‘eleitorado-raiz’ – colocou-o na mira dos responsáveis pela guarda das instituições. Num mesmo ato ele compactuou com pregação golpista – que antes estimulara – e deliberadamente arriscou contaminar incautos membros de sua claque, porque estava sob risco e sabia que integrantes da comitiva de sua visita aos Estados Unidos, que voltaram com ele no mesmo avião, portavam o vírus.
 
‘Panelaços’
 
Tais eventos terão contribuído para minar o respaldo ao presidente nas redes ‘sociais’, o que será fatal para seu projeto de governo e pretensões continuístas. Não por acaso ressoou na terça-feira um ‘panelaço’ em dezenas de grandes cidades brasileiras, com gritos de “Fora!, Bolsonaro”, que se repetiu na quarta e nem de longe foi compensado por manifestação análoga de apoio, irrelevante porque muito menor.
 
Gabinete de crise
 
Tal ocorreu justo quando Bolsonaro encenava mais um de seus recuos. Se antes desdenhara a ameaça da Covid-19, teve que voltar atrás e propôs ao Congresso declarar estado de calamidade pública, nomeou um gabinete de crise e convocou-o ao Planalto para anunciar, em entrevista coletiva, uma estratégia ante a emergência.
 
Recuperação ensaiada...
 
Foi assim que no meio da semana o governo parecia recuperar-se, beneficiado pelo comedimento do presidente nas redes sociais e contatos com a imprensa: façanha inédita, ele conseguira passar dois dias sem dizer bobagens nem agredir jornalistas.
Dessa forma não atrapalhou a estruturação e os primeiros passos do gabinete de crise, a Câmara dos Deputados aprovou imediatamente o estado de calamidade e Senado fá-lo-ia em seguida, passado o impacto da notícia de que seu presidente está em iso-lamento domiciliar, acometido pela Covid-19.
 
...pelo governo é...
 
A vigência do estado de calamidade permitirá ao executivo atuar com flexibili-dade no enfrentamento da crise, e foi em clima excepcionalmente ameno que o governo armou o palco para posicionar-se ante a emergência.
Saíram-se bem os ministros presentes, os mais diretamente responsáveis pelo en-frentamento da crise – à frente o da Saúde – nas exposições do que farão e ao responder às indagações dos repórteres.
Entretanto...
 
...prejudicada pelo chefe
 
Entretanto tudo ia muito bem até que Bolsonaro não resistiu à própria natureza e renovou agressões à imprensa, a que atribuiu culpa por “histeria” (!) que só ele vê na sociedade brasileira.
(Quer dizer: a gente às voltas com ameaça à saúde que os médicos admitem pouco conhecer, com medo de que o ministro da área seja demitido, em meio à emer-gência, porque destoa de seu chefe e faz com eficiência o que deve – e o presidente diz que somos histéricos?!)
 
Negacionismo
 
O ex-capitão retomava, assim, o ‘negacionismo’ com que inicialmente respondera à crise – posição à qual até seu ídolo Donald Trump, aquela avantesma, renunciara há dias.
Na sexta-feira repetiria a dose: chamou “gripezinha” a Covid-19, cuja progressão avassaladora atingia então quase mil brasileiros, já matou 25 e provoca formidável estrago na economia.
 
Natureza ilógica
 
Lembram da fábula do sapo e o escorpião? Conto a quem não conhece ou esqueceu.
O sapo preparava-se para cruzar uma torrente quando percebeu ao lado o aracní-deo em dificuldades. Condoído, ofereceu-lhe ‘carona’. No ponto mais crítico da travessia percebeu que o passageiro", agarrado às suas costas, erguia o temido ferrão.
Loucura! – advertiu –, morreremos os dois!
Ouviu a resposta enquanto sentia a picada:
Sei que não é lógico, mas é da minha natureza.
 
Negaças...
 
Assim Bolsonaro dobrou a aposta tanto nas demonstrações de aversão à imprensa livre quanto no apoio aos manifestantes do domingo anterior.
Apoio que aliás negou justo ao reafirmá-lo, bem conforme sua natureza – asse-gurou que as manifestações a seu favor foram “espontâneas”, jamais as estimulara. Foi fácil contestá-lo.
 
...desmentidas
 
Os noticiários da mesma tarde e do dia seguinte registraram que pelo menos em três ocasiões o presidente incentivara-as explicitamente: na retransmissão de convoca-ções dos organizadores aos participantes de seus grupos no whatsapp, num discurso proferido na capital de Roraima, em escala de sua desastrada viagem aos EUA e em nota distribuída por sua assessoria de comunicação.
 
Castigo imediato
 
Antigamente, naquele tempo em que as crianças brasileiras éramos apresentadas às fábulas do grego Esopo, quase sempre conforme as traduções do francês La Fontaine – A raposa e as uvas, O lobo e o cordeiro... e, claro, O sapo e o escorpião –, um provérbio popular ensinava que “o castigo anda a cavalo”.
Dir-se-ia depois que viaja em avião a jato mas hoje se sabe que pode chegar on line e em tempo real, como ocorreu quarta-feira passada: enquanto tergiversava, con-frontava os jornalistas e os fatos, ouvia-se em bairros cariocas em que vencera as eleições com larga margem um inesperado ‘panelaço’, prévia do que aconteceria horas depois.
 
Insensatez – de novo!
 
Justo quando os percalços pareciam superar-se, Câmara e Senado mostravam-se dispostos a ignorar agravos e colaborar com o Executivo, as autoridades e equipes téc-nicas da saúde exibiam excelência e dedicação... – eis que a famiglia Bolsonaro reincide na insensatez: o filho 03, deputado que se confinaria no ‘baixo clero’ não fosse a ascen-são anômala do pai, provocou crise diplomática ao atacar o governo e autoridades sanitárias da China.
 
Estratégia maligna
 
Ataque gratuito, sem mais nem por que – afora a adquirida capacidade dos Bolsonaro, qual vírus maligno que se requalifica e recompõe-se para incrementar a senda destruidora, de aproveitar o próprio primarismo, a absoluta incompreensão de seu papel no concerto social para gerar crise sobre crise, de tal maneira que a atual sobreponha-se à anterior e não haja tempo para que sociedade compreenda e reaja à ignomínia da vez.
 
Idiotice, vergonha
 
Em si, a manifestação idiota do Bolsonaro-deputado mereceria poucas linhas na imprensa, como antes as do pai em seus indigentes sete mandatos na Câmara.
Nas atuais circunstâncias, porém, provocam instabilidade e geram intrigas nas relações do Brasil com seu principal parceiro comercial, ainda mais se agravadas pela nota emitida pelo ministro das Relações Exteriores – outro apedeuta propenso a atear fogo às vestes, não fosse o traje que suja e amarrota o mesmo que identifica o Brasil na comunidade internacional – que vergonha!
 
Outros vírus
 
A pronta e irritada reação do embaixador chinês em Brasília, se razoável ao opor-se à irrazoável agressão, talvez haja exagerado a veemência: Yang Wanming reportou-se à delegação brasileira que visitou Trump na Flórida – numa farra a invocar todos os demônios infectantes – e de lá teria trazido outro e insidioso vírus para molestar as mutuamente proveitosas relações entre chineses e brasileiros.
Além da igualmente insidiosa e já estabelecida Covid-19, reitero, que contami-nou 20 membros (por enquanto) da comitiva presidencial e inscreveu o Distrito Federal entre as unidades federadas mais ameaçadas.
 
Rumo ao caos
 
A ver se o absurdo – o mais recente, de 03 e seu comparsa no MRE – servirá aos propósitos dos Bolsonaro, enquanto declinam seus apoios nas redes ‘sociais’ (que haverá de confirmar-se nas pesquisas de opinião), aumenta a reação popular ante os desatinos de um governo mal construído, pior administrado e cada vez mais inarticulado, in-competente, caótico.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 
 


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