Brasília, 31 de Maio de 2020
Página inicial
Quem somos
Contato
Cadastre-se
Anuncie aqui
Notíias | Entrevistas | Notas | Artigos | Enquete | TV Câmara | TV Senado | Agendas

Anuncie Aqui

Nas √°guas de Aldir Blanc 09.05.2020

 Marco Antônio Pontes

 
Faz muito tempo...
nas águas de Aldir
 
Venha ver uma coisa – disse-me Jorge Cavalcante mal entrei em seu apartamento no segundo ou terceiro andar do bloco da 103 Sul bem ao lado ao Eixo Auxiliar, o Eixinho W.
 
Era 1975, 76 e eu chegara pouco antes da hora para nosso habitual encontro de fim de tarde, daquela vez transferido do botequim habitual (o ‘Esquina 302’ logo ali perto) para a casa do amigo. Em seguida estariam conosco os demais convivas das lon-gas tertúlias que não raro, a desmentir a promessa de ‘fim-de-tarde’, avançavam noite a dentro, madrugada afora.
 
Antes que chegassem, porém, Jorge levou-me à janela debruçada sobre a esquina (quem disse que Brasília não tem esquina?) do Eixo Oeste Sul com a ‘tesourinha’ da 102/103, apontou-me um ponto de referência e disse que na noite anterior ouviu sons que pareciam tiros, correu à tal janela e de pronto viu nada mas pouco depois, com as luzes no teto a piscar, viaturas da polícia e bombeiros convergiram à ‘tesourinha’; em seguida percebeu que se carregava para um rabecão volume que sugeria corpo inerte, embrulhado num saco.
 
O que tem isso a ver com Aldir Blanc? – perguntará o leitor impaciente. Explico com a frase de Cavalcante ao contar o ocorrido:
 
E eu aqui, em minha janela de frente pro crime.
De frente pro crime” é título e frase final de um dos primeiros frutos da parce-ria entre Aldir e João Bosco: “Olhei o corpo no chão e fechei/minha janela de frente pro crime.”
 
É isso. Aldir Blanc bota palavras em nossa boca. Sem perceber a gente fala não só com elas mas também as inflexões do poeta, figuras de estilo e jeito de dizer qualquer coisa: irreverente, divertido ou trágico, tristonho – dá no mesmo: sua verve ou compunção penetra-nos a maneira de expressar coisas prosaicas, cotidianas e também extravasar receios, angústias, revoltas...
 
Aldir deixou-nos segunda-feira passada. Dias antes eu soubera que estava mal, internado precariamente em hospital superlotado; amigos providenciaram ‘vaquinha’ virtual e transferiram-no para adequada UTI mas não adiantou, o insidioso COV-2 já fizera seu trabalho. Morreu só, conforme os cruéis mas inevitáveis protocolos destes tempos duros. Pudesse falar com alguém, certo diria um chiste em desafio à ‘indesejada das gentes’ que lhe rondava a cabeceira.
 
Apaixonei-me por seu gênio inventivo, renovador da poesia na música popular brasileira desde a primeira manifestação, ocorrida aí por 1971, 72 quando o semanário O Pasquim escolheu a belíssima canção Agnus sei, a primeira de Blanc & Bosco, para inaugurar a efêmera editora musical chamada O som do Pasquim.
 
Foram poucos, os ‘compactos’ produzidos pela turma do Pasquim, que promovia novatos com respaldo de artistas consagrados; lembro-me só de mais um, que apresentou Fagner e sua Mucuripe junto a Caetano Veloso com A volta da Asa Branca, de Luís Gonzaga.
 
João Bosco e Aldir Blanc estrearam Agnus sei na companhia de ninguém menos que Tom Jobim, que lançava nada menos que Águas de março.
 
A morte de Blanc entristeceu-me, acrescentou dor às dolorosas perdas de Rubem Fonseca, Moraes Moreira, Flávio Migliaccio, Nirlando Beirão..., nomes conhecidos em meio à multidão anônima vitimada pela COVID-19, entretanto pessoas como eu e você, leitor, cuja morte faz sofrer pessoas como você e eu.
 
Daqueles só Aldir conheci pessoalmente. Lembro-me bem de nosso primeiro en-contro, em meados dos 1970, quando voltei a frequentar o Rio em que morara no decê-nio anterior.
 
Naquele tempo costumava encontrar-me em fins de tarde com grupo de amigos, nos velhos bares do centro. Às vezes esticávamos até a casa de uma senhora, amiga de um deles em Abolição, subúrbio da Zona Norte. A casa de Angélica tinha nos fundos ampla varanda em que aconteciam animadas rodas de samba – só imagino quantos bambas terão lá estado, sem que os reconhecesse.
 
Mas naquela casa conheci Aldir Blanc, já famoso, numa das revisitas em 1975 ou por aí. Aproximei-me, disse-lhe que convivera com seu parceiro João Bosco na terra natal, Ponte Nova e isso foi o mote inicial de nossas conversas. Na mesma década e na seguinte reencontramo-nos lá e em bares da Tijuca, Andaraí, Vila Isabel, depois o perdi de vista, só à distância acompanhei a subsequente carreira do poeta, compositor, cronista à altura de João do Rio, Lima Barreto...
 
E poeta da canção, equiparado a nossos maiores. As letras de Aldir podem ter a suavidade de Chiquinha Gonzaga (“Oh!, lua branca, por quem és!, tem dó de mim”), refletida no lirismo de Resposta ao tempo (“Ele adormece as paixões, eu desperto”) ou somar-se à agressividade de Gonzaguinha (“Roncou, roncou!, roncou de raiva a cuíca!, roncou de fome...”) na pungente denúncia em Mestre-sala dos mares: “Rubras casca-tas/jorravam das costas dos santos/entre cantos e chibatas”).`
 
É assim que os versos de Aldir colocam-no no patamar dos ilustres poetas brasileiros que esporádica ou diuturnamente foram ‘letristas’. Lembram? Paulinho da Viola em Coisas do mundo!, minha nega: “[...] Por fim encontrei um corpo, nega,/iluminado ao redor [...]” – Aldir também encontrou a tragédia urbana, na citada De frente pro crime: “Tá lá o corpo estendido no chão/ [...] em vez de reza uma praga de alguém [...].
 
Compositor de música e poesia, o grande Lupicínio Rodrigues renegou a amada ingrata num tango de andamento ralentado, quase samba-canção: “[...] Mas se algum dia estiveres sem guarida/e precisares de um prato de comida [...]” ou, noutra invectiva talvez endereçada à mesma ex-amada: “[...] Não te darei carinho nem afeto,/mas pra te abrigar tu podes ocupar meu teto [...]”. Na mesma senda o garoto nascido no Estácio, “diplomado numa roda de bambas” como poderia descrevê-lo Mansueto, compôs sua Lupicínica: “Amei uma enfermeira do Salgado Filho,/paixão passageira, sem charme nem brilho, [...] com a chama vital de Ana Karenina; dirá um dodói que Tolstói era chuva demais pra tão pouca planta: ô!, trouxa, heroínas sem par podem brotar na Rús-sia ou lá em Água Santa.”
 
E ainda permitiu-se a sutileza de emular frase lapidar de Liev Tolstoi (“Queres ser imortal?, canta tua aldeia!”) ou a ‘sacada’ do paraibano José Jofilly: “O universal pode estar no Cariri como em Nova Iorque.”
 
Em Amigo é pra essas coisas (“Salve! Como é que vais?/Amigo, há quanto tem-po!/Um ano ou mais...”), parceria com Sílvio Silva, Aldir foi mais que nunca discípulo de Noel Rosa, maior admiração: arrolou dez composições do Poeta da Vila quando ins-tado a revelar seus dez maiores sambas preferidos. E homenageou dois outros ‘monstros sagrados’, Ary (no título) e Tom Jobim em Querelas do Brasil, riqueza de palavras pesquisadas na memória enciclopédica (quem sabe?, também em enciclopédias), a con-ferir ao samba de andamento módico um ritmo frenético na sucessão de nomes de ani-mais terrestres e aquáticos, plantas, citações a esmo com aliterações e liames que resga-tou ou inventou... – vejam: “[...] Tapir, jabuti,/liana,/alamanda, ali, alaúde,/piau, ura-rau, aki, ataúde,/[...] Caandrades, cunhãs, ariranha,/ aranha, sertões, Guimarães, ba-chianas/ [...] na aura das mãos de Jobim-açu/uô, uô, uô [...]”. Não tem um quê de Águas de março?: “[...] É um estepe, é um prego, é uma conta, é um conto,/[...] é um peixe, é um gesto [...]”.
 
Poderia encontrar confluências de Aldir com Paulinho Pinheiro, Vinícius, Chico, Caetano, Gil ou Mário Lago, Pixinguinha, Ismael, Jacob, Freire Júnior, Catulo, Capiba... mas está de bom tamanho, já deu pra ver o quanto é múltiplo: sua verve abarca o universo da música popular brasileira no que tem de mais legítimo, plural, melhor.
 
Seja a penúltima lembrança a do encontro em Conservatória, terra das serenatas; seus moradores ensinam, conferi e dou testemunho: lá o casario colonial e as pedras do calçamento guardam vozes ancestrais de seresteiros e seus poemas, modinhas, choros e valsas de antigos, eternos tempos.
 
Conservatória conheço desde criança. Passava férias na casa dos avós Plínio e Zezé em Barra do Piraí e de lá ia com a tia Lucy no trem da Rede Mineira de Viação a uma fazenda de amigos, muito próxima da vila no município de Marquês de Valença. Há coisa de trinta anos voltei a frequentar a Cidade-Seresta, sempre junto com Zé Au-gusto, tio-irmão companheiro da infância (menos velho que eu; coisas das numerosas famílias mineiras...) e seresteiro emérito. Conservatória, para nós ambos, é destino.
 
Destino que me levou a rever Aldir justo num Carnaval, há coisa de vinte anos... em Conservatória.
 
Lá os carnavais são atípicos, a folia propriamente carnavalesca resume-se a uma ou duas horas, se tanto, no domingo e na terça-feira, quando os blocos desfilam na rua principal e os foliões divertem-se mais que se exibem. No resto do tempo os moradores e visitantes aproveitam o feriadão para fazer o que gostam, como também na Festa da Seresta, no Festival do Choro e eventos semelhantes: cantores, instrumentistas e quem mais se quiser seresteiro percorrem as ruas, do velho túnel da ferrovia a sua estação-museu, entoando repertório que perpassa Custódio Mesquita, Cartola, Lamartine Babo, Braguinha, Adelino Moreira, Gonzaga (pai e filho), eventualmente Cole Porter, Edith Piaff...
 
Talvez a riqueza musical, mais o sossego, atraíssem o Aldir já então inclinado à reclusão que lhe marcaria os últimos anos.
 
Era um começo de noite, eu acabara de encontrar o velho amigo Guilherme de Brito – outro habitué de Conservatória e persona da MPB, parceiro de Nelson do Cava-quinho, autor (com ele, outros ou só) de A flor e o espinho, Quando eu me chamar saudade, Folhas secas, Ponto final e... Canção para Conservatória – quando o vi a caminhar sozinho do outro lado da rua; acabáramos de chegar a um bar com mesas na calçada, chamei-o, ele veio e cumprimentou-nos alegremente; começamos o bate-papo que durou ali dois ou três chopes, logo Guilherme nos convidaria a sua casa. A conversa rendeu, varou noite e madrugada.
 
Duas décadas passadas, ele se vai e fica-me além da saudade a frustração: por que não o encontrei mais vezes?, que timidez inibiu-me procurá-lo, telefonar ou bater à sua porta e dizer, simples assim: Oi!, ‘tava com saudade, vim.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br


ABC POLITIKO - LINHA DIRETA COM O PODER
COMENTE ESTE ARTIGO   LEIA COMENT√?RIOS (0)  

Voltar a P√°gina Principal Voltar a P√°gina Principal Voltar a P√°gina Principal Voltar a P√°gina Principal
VEJA MAIS

28.05.2020 Vai mudar. Mudar o quê?
26.05.2020 O país da piada
18.05.2020 O inverno de nossa desesperança
17.05.2020 Na pandemia, o melhor e o pior da humanidade
11.05.2020 As elei√ß√Ķes municipais

VEJA TODOS

SRTVN Quadra 701 Bloco B Sala 826 - Centro Empresarial Norte | Brasília - DF | CEP 70710-200 | Fone: (61) 3328-2991 | Fax: (61) 3328-2152