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Na pandemia, o melhor e o pior da humanidade 17.05.2020

 Marco Antônio Pontes

 
Crises reveladoras
 
Situações críticas exacerbam, para o bem e o mal, os atributos das pessoas envolvidas. Ante o impacto de catástrofes, naturais ou provocados pela incúria humana, afloram as melhores habilidades, atitudes, sentimentos dos indivíduos e grupos como também seu oposto.
Dá-se o mesmo, é claro, com os encarregados de administrar as crises, os que eventualmente discordam de como se as enfrentam e também os que relatam tudo isso.
 
Contrastes
 
A pandemia provocada pelo SARS COV-2 impõe ingente desafio à humanidade, certo o maior desde a Segunda Guerra Mundial, talvez mais drástico que o da similar anterior, a Gripe Espanhola.
E enquanto se desconhece como evoluirá – o processo apenas começou – faz aflorar contradições intrínsecas à condição humana e, mais agudamente, expõe compe-tências, fragilidades, qualidades e defeitos, assim como o caráter de protagonistas naci-onais e mundiais: por exemplo a carantonha física e moral de Donald Trump, aquela avantesma em contraste com a despojada eficiência de Jacinda Ardern, jovem primeira-ministra da Nova Zelândia e com a serena, testada competência de frau Merkel.
 
Hora da verdade
 
Cada qual se houve como pôde. Chegada a hora da verdade Trump não se desmereceu, fez como sempre o pior e potencializou os efeitos da COVID-19, transplantan-do-lhe o epicentro da Europa para Nova Iorque.
Enquanto isso Ardern e Merkel safaram as tão diferentes nações de modo análogo: discretas no discurso e eloquentes na ação, promoveram rigoroso distanciamento social e minimizaram a crise.
Algo semelhante ocorreu (ocorre ainda; o risco não está afastado) nas disciplina-das sociedades do leste da Ásia, na China onde tudo começou e no Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura, cada qual com quarentena dosada conforme as respectivas situa-ções.
 
Imprudência caricata
 
Quase todas as nações europeias fizeram o mesmo e as exceções deram-se mal.
Na Itália um trêfego prefeito sacou o lema “Milano non se fèrma!”; a cidade não fechou e abriu a Lombardia, depois toda a Itália e finalmente a Europa à COVID-19.
O Reino Unido, combalido econômica e politicamente pelo Brexit, liderado por aquele primeiro-ministro caricato (não só na versão casual do topete de Trump...), pre-tendeu deixar rolar sua particular epidemia e apostou tudo na eficácia do sistema de saúde britânico; só se esqueceu de que o emblemático NHS, outrora o melhor do mundo, fragilizara-se desde que Mrs. Thatcher implantou o nefando conceito de ‘estado míni-mo’; deu no que deu.
 
Êxitos e fracassos
 
Na demais Europa quase todas as nações precaveram-se e adotaram variados graus de afastamento social. Assim como no Reino Unido, porém, nelas o estado de bem-estar exitoso por décadas debilitou-se com a prevalência do neoliberalismo, que negligencia políticas sociais.
Evitaram o pior as nações que melhor se houveram em quarentenas e as de eco-nomia mais sólida como a citada Alemanha e mais Suíça, Noruega, Dinamarca, Finlândia.
 
Recompensas
 
Não por acaso os governantes que cedo ou tarde enfrentaram adequadamente a pandemia e comandaram o bom combate foram recompensados com crescente respaldo social – nada como inimigo externo para unir povos em torno do líder.
Uma espécie de ‘anistia’ popular chegou a beneficiar dirigentes que titubearam mas recuperaram-se, como o desastrado prefeito de Milão que entretanto desculpou-se, contrito e o presidente da França às voltas com o principal esporte nacional, protestar contra o governo; até o primário Boris Johnson, ademais objeto de compaixão (tempe-rada de ironia...) ao ser gravemente vitimado pelo SARS COV-2.
 
Estranhezas
 
Estranho foi o ocorrido na Suécia; o governo sobrevalorizou a excelência do sis-tema de saúde e-ou subestimou a potência do vírus, ao dar-lhe raia livre. Foi trágico, o país sofreu muito mais contágio e mortes que os vizinhos, logo converteu-se ao isola-mento.
E embora não seja exatamente de estranhar-se, nestes tempos de desgoverno da-quela avantesma, contraria o senso que os Estados Unidos hajam-se convertido no pior exemplo para a humanidade e detenham macabra liderança na morbidade e letalidade da COVID-19 – justo a nação mais rica, que possui mais centros de excelência em ciência e pesquisa, muitos deles associados ou mantidos pelas maiores e melhores universidades do mundo.
 
Padrões comportamentais
 
E aqui se retoma o mote inicial desta coluna, o comportamento das pessoas sob pressão, principalmente ante megacrises como a que hoje enfrenta a humanidade.
Ouso até estender as lucubrações às reações de comunidades, sociedades e po-vos, submetidos ao formidável fluxo de informações e correspondentes sensações pro-vocado pela atual pandemia. Alguns fenômenos curiosos afloram, a sugerir que povos e sociedades preservem desde sempre padrões que lhes informam atitudes e atos em situ-ações-limite.
 
Padrões comportamentais (ii)
 
Nas primeiras manifestações do SARS COV-2 que ainda nem tinha nome, lá dentro da China mais profunda onde viceja populoso núcleo da milenar civilização pouco conhecida no Ocidente, a doença emergiu avassaladora, ceifou de pronto milhares de vidas, assustou comunidades e autoridades que entretanto reagiram rápido, essas e aque-las, valendo-se das citadas características: no caso – se não me iludo com estereótipos – os tradicionais hábitos de higiene e distanciamento corporais, traço cultural a que somam outros, como a disciplina social adquirida em milênios de evolução em ambiente hostil.
Em tal cena indivíduos e comunidades terão reagido como em análogos desastres passados, que precisaram suportar com mínimos recursos – que agora se revelam poderosos.
 
Padrões comportamentais (iii)
 
Assim, no combate ao novo coronavírus a China terá prescindido de instituições autoritárias, que ao contrário do imaginado no Ocidente não se revelaram superiores àquelas da democracia em emergências que tais.
Se de autoritarismo valeu-se o governo de Pequim foi para ocultar do próprio povo e demais povos, no início, a gravidade da ameaça, ferindo primeiro e mais dura-mente a própria sociedade que, informada, haveria de espontânea e precocemente apro-fundar os antigos, saudáveis costumes de higiene e distanciamento social.
 
Padrões comportamentais (iv)
 
Simetricamente pouco terão ajudado os povos do Ocidente, neste episódio, con-ceitos e preceitos arraigados em nossa cultura. O direito individual de ir e vir, quase um fetiche, opõe-se ao distanciamento indispensável em surtos de doenças contagiosas, quanto mais em epidemias e pandemias, sobrepondo-se a direitos outros, coletivos, à saúde e à vida.
Pois não se alega? o absurdo ‘direito’ de recusar vacinas? – a qualquer idiota (ou religioso fundamentalista; dá no mesmo) faculta-se arriscar vida, mesmo expondo a risco a vida de todos.
 
Padrões comportamentais (v)
 
Outra conquista da civilização coloca-se em cheque, a liberdade de expressão do pensamento. Nesta emergência apostam na catástrofe os que se voltam contra a ciência, ‘acusada’ de ‘globalismo’, ‘marxismo cultural’, ‘ambientalismo’ – como fosse xinga-mento...
Os arautos do atraso dispõem de amplos recursos para invadir, a pretexto da li-berdade de expressão, a imprensa tradicional e avassalar as redes de mídia, massificar mistificações, distorcer o debate democrático que ao fim e ao cabo pretendem suprimir.
Tem de ser assim mesmo? ou será lícito conter-lhes os arroubos ditatoriais – a restrição de espaços a quem prega o fim da democracia seria antidemocrática?
 
Hordas do atraso
 
O que nos traz de volta ao Brasil, assolado simultaneamente pelo avanço da pandemia e por hordas de pregadores do atraso.
O número de mortes cresce à proporção em que se reduz a resposta positiva da população, à míngua de socorro eficaz aos que perderam as fontes de sustento e obri-gam-se a sair às ruas, aglomerar-se, expor-se ao contágio e disseminá-lo.
Não bastasse esse fator de difícil controle os arautos do caos, grupelhos pouco numerosos mas barulhentos, organizam carreatas e ajuntamentos para exigir o fim do distanciamento social e imediata reabertura de todas as atividades, na contramão do que recomenda a ciência e tentam fazer governadores e prefeitos, entretanto desarticulados e carentes de recursos na empreitada.
 
Golpistas investigados
 
A tal insanidade aqueles alucinados acrescentam outra, verbalizada em ataques à democracia e suas instituições: pedem a volta do Ato Institucional nº 5, emblema do autoritarismo, o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, até golpe de estado que transforme o atual presidente em ditador.
São, como dito, grupos pouco numerosos porém aguerridos. Um deles, armado, montou acampamento na Esplanada dos Ministérios e oferece ‘treinamento’ a seus ‘re-crutas’; está na mira do Ministério Público e da Polícia do Distrito Federal, mas até este fim de semana ninguém fora preso; tem as ‘costas quentes’ e respaldo financeiro.
Esse apoio, como o aos demais baderneiros, está sob investigação do STF.
 
Omissão, imposição
 
Em vez de repudiar essas hordas, o presidente da República confraterniza com os arruaceiros, supostamente porque lhe apoiam a recusa do isolamento social, sem no entanto distingui-la da pregação golpista.
E no ambiente escuro assombrado pelo CoV-2, as ações defensivas carecem de coordenação nacional: o Executivo federal omite-se e seu chefe demite os ministros que tentam fazê-lo.
Assim a COVID-19 segue a ceifar vidas enquanto as autoridades desentendem-se e o presidente, alheio à tragédia nacional, inventa uma disputa em torno da tal hidroxi-cloroquina, medicamento cujo uso indiscriminado quer impor apesar da duvidosa eficá-cia e comprovada ameaça aos usuários.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br


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