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Vai mudar. Mudar o quĂŞ? 28.05.2020

 Marco Antônio Pontes

 
Muda o mundo
 
Cogita-se de se e como mudará o mundo em função dos estragos provocados pe-la pandêmica COVID-19. No calor dos atuais embates, sob o impacto de tanto sofrimen-to, não é esta boa hora para perscrutar um futuro que, embora deva chegar em alguns meses, parece-nos distante como se em outra vida.
Mesmo assim arrisco dois palpites.
O primeiro é lugar-comum, que entretanto vale a pena constatar: a humanidade não será a mesma depois de passar pela trágica experiência.
 
E daí?
 
– Até aí morreu o Neves – constataria o afoito leitor, a citar dito popular cujo significado poderia resumir-se, ao jeito de vocês-sabem-quem, em meras duas palavrinhas ou quatro letras, um espaço e um ponto de interrogação: “E daí?”
E já antecipo, por mim e o interlocutor hipotético, o receio de que se reprove por politicamente incorreto o emprego em vão do honesto sobrenome lusitano.
Quero menosprezar ninguém, muito menos agourar, ainda mais se o sobrenome consta da certidão de nascimento da prima Tânia, dos primos José Luís e Carlos Augusto Neves Dias e mais da prima que me emprestaram, Thais; legado da Tia Aída, doçura de minha infância, por sua vez herdeira do caráter de dona Júlia, portuguesa da melhor cepa de quem dizia o genro, meu querido Tio José, ter sido “a inventora da austerida-de”.
 
Refúgio
 
O leitor haverá de compreender-me o devaneio familiar. Nestes tempos duros de viver é bom que a gente possa refugiar-se em memórias que nos acolhem e dão alento, segurança ante assombrações como o tal SARS COV-2.
Aliás, bem poderiam ter-lhe arranjado sigla menos tétrica; a mim ela ressumbra à etimologia de SARCófago e nada ajuda o apelido simplificador pespegado pela irreve-rência brasileira: CoV!..., cova?!
 
Ninguém sabe
 
Retomo o fio da meada (rendo-me hoje ao lugar-comum...): muita gente boa tem dito que a humanidade certo se transformará, embora ninguém assegure que o fará para melhor. E se o leitor insiste no “e daí?” digo que não sei, duvido que alguém saiba e quem disser que sabe “terá que provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu e assinada em baixo ‘Deus’; e com firma reconhecida!” – apud Vinícius de Moraes, Samba da bênção.
 
Ortodoxos fora
 
Tento não decepcionar inteiramente os leitores, os afoitos como os prudentes e passo ao segundo palpite:
a ortodoxia econômica liberal tenderá a zero na ‘nova normalidade’ pós-catástrofe.
Dificilmente se esquecerão os europeus de que lhes faltaram leitos hospitalares e demais recursos com que salvar vidas na emergência da COVID-19 e de que tal aconteceu porque os preceitos e práticas neoliberais vigentes desde a era de Mrs. Thatcher sucatearam-lhes o wellfare state.
Tampouco perdoarão os estadunidenses que Donald Trump, aquela avantesma tenha desfeito um feito de Barack Obama, primeira e bem sucedida tentativa de dotar os EUA de sistema de saúde amplo e abrangente – que teria sido vital na resistência ao ataque virulento.
 
Ignomínia
 
No Brasil, então... que dizer? da absoluta insensibilidade social dos radical-liberais, ultra ortodoxos liderados pelo medíocre ex-posto (exposto) Ipiranga, que retardam o auxílio às multidões de desvalidos para economizar uns trocados e permitem aos bancos sonegar empréstimos prometidos aos micro e pequenos empreendedores?
Até parece de propósito, embora repugne acreditar em tamanha ignomínia.
 
Eugenia socioeconômica
 
Será?, mesmo!, um frio cálculo econômico-financeiro?, tipo livrar-se de pequenas empresas que dão emprego mas dão trabalho ao mercado porque reivindicam, per-turbam-lhe a suposta racionalidade?
Pior: será? que deliberadamente se abandonam dezenas de milhões de trabalha-dores informais, empurrados ao contágio pela necessidade de ir às ruas ganhar o pão?
Afinal, vão morrer os ‘três pês’ de sempre – pretos, pobres e periféricos – e mui-tos mais proscritos, como prostitutas e pederastas apenados pela pudicícia pseudocristã de palavreado piromaníaco a prescrever-lhes perenes provações – de preferência no fogo do inferno.
Estará em curso uma nova eugenia, agora socioeconômica?
 
Economia política
 
Recuso-me pensar, quanto mais crer no impensável e tento voltar à razão.
Não me arvoro pensador da economia, meus parcos estudos permitem talvez ir só um pouco além daquele conselho, esqueço de quem mas cito assim mesmo:
“Todo mundo precisa saber algo de economia, quando nada para defender-se dos economistas.”
Mas não precisamos defender-nos de André Lara Resende, pensador da economia política, não do arremedo de ciência nada política nem social cultuada pelos soi dissant ‘liberais’ (com ou sem ‘neo-’).
 
Dogmas questionados
 
Em longo artigo (de fato um pequeno e denso ensaio) na Folha de S. Paulo de domingo passado, escrito em bom vernáculo que escapa do ‘economês’ habitual em muitos colegas, ele deu sequência a questionamentos que tem feito ao liberal-fundamentalismo reinante e atacou os dogmas da ortodoxia.
No título ele já diz a que vem: Moeda é dívida pública, ponto de partida para afastar falsas premissas e exorcismar fetiches como a rígida separação entre políticas monetária e fiscal.
 
De pai pra filhos
 
Permitam-me os leitores outra digressão.
Não me lembro de conhecer pessoalmente André mas leio-o com favorável expectativa desde os primeiros e inovadores textos, quando buscava alternativas à dicoto-mia ‘monetarismo’ versus ‘estruturalismo’, doutrinas que se digladiavam no Brasil aí por 1960, 70 sem resolver nossos persistentes problemas.
Explico a expectativa: seu pai, Otto Lara Resende, um dos mais luminosos intelectuais brasileiros, fora meu mestre e mentor quando me iniciava no jornalismo.
Mais tarde encontraria o irmão mais novo Marcelo, em minhas revisitas ao IPEA na segunda metade dos anos 1990 e conferi: o DNA do velho amigo afirma-se na descendência, cujo sucesso acompanho.
 
Quebra de paradigmas
 
Pois André Lara Resende, dizia, esteve entre os pioneiros daquela quebra de pa-radigmas – na verdade mais superação que contestação ou substituição da herança de luminares estruturalistas (seu emblema é Celso Furtado) e de sua disputa então pouco produtiva com os monetaristas liderados pelos igualmente respeitáveis Roberto Campos, Ernane Galveas, Afonso Celso Pastore.
Na senda de outros revolucionários da economia política brasileira – o grifo é deles –, como Antônio Barros de Castro, Dércio Munhoz, Joanílio Teixeira, buscavam novas formas de atuar no macrossistema social, e encarar seus conflitos, pensadores como o próprio André e mais Edmar Bacha, Pérsio Arida, José Carlos Oliveira, Luís Carlos Bresser Pereira, Francisco Lopes, Paulo Haddad...
 
À luta
 
Nem sempre trabalhando juntos, mas em conjunção de conceitos e prospecções de horizontes, esses economistas políticos (insisto no destaque) valeram-se da redemo-cratização e da conjuntura propícia a heresias para sair do ambiente hígido da academia e descer à cena ‘contaminada’ pelos embates políticos.
Foi assim que liberaram muita imaginação iconoclasta e propuseram soluções inusitadas para os impasses econômicos de então, formularam seus projetos e foram à luta por eles, como no ‘Plano Cruzado’ do governo Sarney e outros, subsequentes.
 
Marco revolucionário
 
Entre êxitos e fracassos – aqueles creditados à audácia inovadora que frutificaria, decisiva, na década seguinte e esses debitados menos aos próprios erros que a cir-cunstâncias político-partidárias adversas –, eles geraram massa crítica que cresceu ex-ponencialmente e produziu nova safra de projetos heterodoxos, afinal bem sucedidos na síntese que se convencionou chamar Plano Real, corajosamente bancado pelo governo Itamar em 1994.
Foi um marco decisivo da correção de velhos vícios (que se refletiam na inflação) e introdutor de novas abordagens em política econômica e gestão de estado.
 
De volta à ortodoxia
 
Sucessos, porém, são por definição provisórios, precisam confirmar-se em cotidianas progressão nos acertos, revisão de equívocos e reformulação de procedimentos.
Falhamos nesse processo, permitimos desgastar-se a inovação, por conseguinte o retorno de antigos vezos e mitos Assim a ortodoxia liberal retornou – também em função de conjuntura mundial marcadamente reacionária –, empolgou o poder e cavou o buraco em que nos flagrou a COVID-19.
 
Construção incompleta
 
Construíramos um Sistema Único de Saúde democrática e generosamente universal, idealizado pelos constituintes de 1997–98. Mal alçava voo, porém, foi alvejado pela doutrina liberal (com ou sem ‘neo’-) e por isso não conseguiu completar-se, modelar gestão eficiente e muito menos consolidar fontes adequadas de custeio.
Daí as carências e deficiências que hoje exibe, fragilizando-se ante o ataque maciço e massivo do SARS COV-2.
 
Catástrofe humana
 
O colapso da estrutura do SUS em muitas cidades e áreas metropolitanas debita-se, parcialmente, a décadas de aplicação da ‘receita’ fundamental-liberal que tem no estado mínimo um irrecorrível dogma – e portanto mínimo enfoque na educação, mobi-lidade urbana, habitação, segurança e... saúde.
Foi assim que sucessivos orçamentos anuais reduziram – na contramão do projetado – as verbas do Sistema, gerando o desastre social (e catástrofe humana) a que hoje assistimos.
 
Psicopatia
 
Fosse pouco, apanhou-nos uma armadilha dos fados (bastante ajudada por irreprimível propensão a escolher mal entre o ruim e o péssimo) ao eleger presidente incapaz de empatia com as dores de seu povo e alheio à tragédia que não inventou mas agrava com o comportamento errático, irresponsável.
Não bastasse tudo isso, o ex-capitão dá mostras de habitar esferas estranhas à realidade – e eu não inventei tal ‘diagnóstico’, devo-o a psicólogos, psiquiatras, psicana-listas em cujas análises veiculadas na imprensa emerge cada vez mais a palavra...
...psicopatia.
 
Ciúmes e...
 
Menos de um mês após a demissão de Luís Henrique Mandetta – sacrificado por explícitos ciúmes do chefe –, o sucessor tentava tomar pé na maré montante da crise quando lhe foi exigido protocolo terapêutico que recomendasse uso indiscriminado de uma tal cloroquina.
O medicamento já se comprovou ineficaz para tratar COVID-19, a ciência só lhe atesta efeitos colaterais muito graves. Nelson Teich preferiu demitir-se.
 
...apostas arriscadas
 
Entretanto o presidente resolveu apostar pra valer na tal cloroquina e sua varian-te, hidroxicloroquina. Tentou até ideologizar a disputa: “A direita toma cloroquina, a esquerda...” – e permitiu-se piada chula, extemporânea.
Não se sabe que textos científicos terá lido para adquirir tal convicção, muito menos se lhe conhecem qualificações com que refutar unânimes recomendações da ci-ência.
Mesmo assim ele insistiu, mandou que o ministro interino da Saúde, um general alheio à área médica, providenciasse o ansiado protocolo.
 
Troféu macabro
 
Enquanto isso Donald Trump anunciou que usa a tal cloroquina “preventiva-mente” – será verdade?, daquela avantesma espera-se tanto insanidade quanto mentira.
Seria música aos ouvidos de Bolsonaro, caso gostasse de música e não sofresse simultânea desfeita: o presidente dos Estados Unidos ameaçou proibir entrada de brasi-leiros em seu país (“Não vou permitir que nos venham infectar”).
A par de vilipendiar-nos, a bravata ignora um detalhe: os EUA de Trump já são campeões mundiais neste macabro certame, ante a impossibilidade de que seu admirador daqui, embora se esforce, arrebate-lhe o ‘troféu’.
 
Veio de lá
 
O governador da Flórida, correligionário de Trump, endossou-lhe os receios. Al-guém deveria mostrar-lhe que a recíproca é mais plausível:
o SARS COV-2 chegou a Brasília na caravana do presidente brasileiro que regres-sava... da Flórida.
 
Puro horror
 
Terminava a semana quando se conheceu a gravação da fatídica reunião do Mi-nistério em 22.04, aquela que deflagrou a queda de Sérgio Moro.
Deixo para edição próxima, após melhor exame, os comentários cuja vontade de digitar já me coça os dedos, porém não sonego aos leitores a primeira impressão:
foi horror em estado puro, presidente e ministros proferiram grosserias que pon-tuaram equívocos, talvez crimes, a revelar quão baixo caiu o nível da cúpula do Execu-tivo federal.
E só esse inacreditável evento, afora anteriores, produziu material suficiente para dez impeachments do presidente e outros tantos processos criminais contra seus minis-tros mais próximos.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 


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