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Os cĂşmplices do vĂ­rus e a tempestade perfeita 24.06.2020

 Marco Antônio Pontes

 
Norma profissional
 
Jornalistas, por definição, somos generalistas, portanto especialistas em coisa nenhuma. Até os ditos ‘especializados’ – repórteres, editores, analistas que tratamos de política, economia, cultura, segurança, costumes... – não podemos nem devemos substi-tuirmo-nos aos políticos, cientistas políticos, juristas, economistas, médicos e demais detentores de conhecimentos específicos nos temas em que nos aventuramos por dever de ofício.
Os coleguinhas que transgridem esta ‘norma de ouro’ da profissão costumam dar-se mal, exemplos recentes não faltam.
 
Pretensos juristas
 
Quando o STF condenou os criminosos do ‘mensalão’ houve jornalistas, alguns de merecido prestígio, que exerceram ilegalmente profissão alheia, autoproclamados juristas a contestar votos dos juízes, fenômeno repetido nos processos resultantes da Operação Lava a Jato.
Até hoje alguns se atrevem a afirmar que Zé Dirceu, Lula, Dilma Rousseff e Eduardo Cunha, os irmãos Vieira Lima, Renan Calheiros sofreram (sofrem) processos políticos. Pouco se lhes dá que os tenham julgado agentes do estado aos quais legitima-mente compete aplicar justiça, conforme evidências “a salvo de qualquer dúvida razoá-vel”, no jargão dos tribunais.
 
Abertura precipitada
 
A participação da imprensa – jornais, revistas, emissoras de rádio, TV aberta e por assinatura, mídias ‘sociais’ – nestes estranhos tempos de pandemia oscila entre a excelência na obtenção e tratamento de copiosa informação e a indigência na interpreta-ção de alguns fatos.
Ao terminar esta terceira semana de junho, enquanto governadores e prefeitos fraquejam na prevenção e combate à COVID-19 e o governo federal recusa qualquer aju-da – antes atrapalha –, os noticiários veiculam depoimentos de médicos e pesquisadores a condenar a reabertura, que consideram precipitada.
 
Unanimidade
 
Exibem também, os meios de comunicação, crescentes aglomerações nas cidades e reportam as agruras das autoridades ante os fluxos de pessoas, que em sua avaliação aumentam precocemente.
Editorialistas são unânimes na reprovação, acompanhados por articulistas e de-mais colaboradores, ao tempo em que se unem todos às advertências dos cientistas quanto aos perigos da reabertura fora de hora. As críticas dirigem-se também às pessoas, chamadas irresponsáveis, ignorantes dos riscos que impõem a si e aos demais.
 
Generalização burra
 
Num de seus típicos exageros, Nelson Rodrigues disse certa vez que “toda una-nimidade é burra”.
Eu não chegaria a tanto ao avaliar o comportamento da imprensa, mas parece-me que a atual confluência de opiniões passa ao largo de aspectos importantes da crise sani-tária provocada pelo SARSCOV-2 e suas repercussões socioeconômicas.
Não duvido das advertências dos médicos, fundadas no conhecimento científico, mas desconfio da generalizada condenação dos executivos das unidades federadas e municípios que tentam reabrir controladamente o comércio, serviços, indústria e pro-gramam o mesmo para as escolas, atividades esportivas, culturais.
 
Quem há de...?
 
Cientistas estarão certos nas respectivas ciências, não necessariamente conhece-rão o cotidiano das cidades, as necessidades prementes das pessoas. Governadores e prefeitos é que têm de haver-se com os milhões de trabalhadores não-formalizados que precisam ir às ruas para sobreviver.
É simples e é cruel: vendedores ambulantes, catadores de recicláveis, diaristas e assemelhados ganham num dia o suficiente, se tanto, para as necessidades imediatas, inclusive o alimento dos filhos – quem haverá de condená-los se ignoram recomendações dos cientistas e determinações das autoridades?, sabendo-se ademais que o poder federal, que controla o caixa geral da nação, tergiversa e sonega o auxílio que poderia mantê-los em casa?
 
Cúmplices do vírus
 
Decerto não me refiro aos que se julgam corajosos, quiçá imunes (seguiriam o exemplo do presidente “com histórico de atleta”?) e vão às praias, ruas, praças e parques confraternizar ou se ajuntam em bares e festas, tanto faz se nas favelas ou bairros ricos.
Uns e outros são irresponsáveis, em diferentes graus.
Os mais pobres, geralmente menos informados, não sabem o quanto se arriscam e, pior, arriscam os familiares e as comunidades em que vivem.
Já os aposentados de classe média e média-alta que voltam ao carteado, ao do-minó ou às amenas conversas regadas a chopinhos nas calçadas da Barra, Copacabana, os apreciadores de petiscos refinados e drinques idem nos bistrôs da Vila Madalena ou Bela Vista têm desculpa nenhuma: são cúmplices conscientes do SARSCOV-2.
 
Disputa macabra
 
Tendo a acreditar que prefeitos e governadores reduzem danos ao procurar, pelo menos, controlar a volta ao trabalho, portanto aos espaços e transportes públicos, que ocorreria com ou sem permissão. Pior seria ignorar a realidade, insistir em normas em si corretas mas de improvável aplicação e perder quaisquer possibilidades de minimamente, que seja, dosar a invasão das ruas pelos que delas dependem.
Mas não é perigoso? – perguntaria o preocupado leitor.
Claro que é, mas penso que a alternativa seria catastrófica: reabertura ainda mais descontrolada permitiria ao vírus tomar o freio nos dentes, acelerar os contágios e em breve o negacionista da COVID-19 que despacha no principal gabinete do Palácio do Planalto poderia, amuado, invectivar Donald Trump, amado ídolo que o despreza:
– Eu sou mais eficaz que você, ‘talquei’?!
 
Ameaças e palhaçadas
 
A semana ora encerrada foi a pior, desde o início do governo, sob o ponto de vista do presidente Bolsonaro e sua famiglia – avaliam dez entre dez analistas na im-prensa.
Ainda no sábado, 13.06 o governo do Distrito Federal fizera cumprir a lei e reti-rara da Esplanada dos Ministérios aquele esdrúxulo, ilegal acampamento de milicianos bolsominions, confessadamente armados.
Na segunda-feira foi presa sua líder, grotesca ex-feminista excluída do movi-mento por furtar-lhe dinheiro; ela postara um vídeo com ofensas e ameaças explícitas a ministro do STF e esteve no comando de duas palhaçadas: uma pantomima inspirada no Klu Klux Klan, ajuntamento de supremacistas brancos fora da lei dos EUA e a simulação de ataque ao prédio do Tribunal com fogos de artifício.
 
Terremotos, tsunami
 
Houve mais: avançaram as investigações da Corte maior sobre os propagadores de notícias falsas, algumas decisivas para o êxito da campanha que elegeu o presidente em 2018.
Um proeminente deputado da tropa de choque bolsonarista teve a residência e o gabinete no Congresso investigados por policiais federais, a pedido do Procuradoria Geral da República. Onze congressistas dos mais próximos ao presidente ingressaram no rol dos investigados pela PF, suspeitos de afrontar a Constituição com pregação anti-democrática.
Não bastassem tantos terremotos, na quinta-feira desabou sobre o Planalto o tsu-nami da prisão de Fabrício Queiroz, factótum da família.
 
Concorrente (?) afastado
 
A onda de péssimas notícias abateu-se sobre o presidente com tamanha força que mal conseguiu encenar o teatrinho mambembe com que pretendia prestigiar (para o eleitorado-raiz) e ao mesmo tempo exibir desagrado (ao demais público) ante o final-mente ex-ministro Weintraub.
Desastre ambulante na Esplanada por longos 14 meses, segundo a UNE e todas as entidades que congregam docentes, entre outras, o pior ministro da Educação de todos os tempos, dizem as más línguas que disputaria com Bolsonaro a primazia do atraso, com pretensões de assumir o comando da extrema direita – portanto um presumível concorrente em 2022.
Precisamos de um subprojeto de tiranete?
 
Tempestade perfeita
 
Foi lamentável o desempenho do ex-capitão, mesmo em ambiente controlado e sob foco de câmeras amigas.
Mostrou-se desacorçoado, o semblante ensombrecido talvez pelas nuvens plúm-beas de uma certa tempestade perfeita antevista pelos ‘meteorologistas’ políticos.
O que de nos leva de novo ao ex-sumido Fabrício Queiroz, que teria potencial de desestabilizar de vez a família Bolsonaro e com ela seu governo.
 
Delação obstada?, ou...
 
Tais conjeturas pressupõem eventual cooperação premiada de Queiroz com o Ministério Público e-ou Polícia Federal, subjugado pelas ameaças à família – agora à sua, literalmente: à mulher também objeto de mandado de prisão, considerada foragida desde quinta-feira e às filhas, por enquanto não formalmente acusadas.
Faz sentido, mas o raciocínio teria uma falha: a crer-se na versão de que Fabrício Queiroz faria parte ou seria próximo de milícias, bem saberia o destino a que se condena um delator – e também à família.
 
...quebra-se a omertà?
 
Há objeções à objeção, porém.
Talvez milicianos adotem mesmo, dir-se-ia, ‘precauções’ análogas à omertà dos mafiosos de variada extração: um ‘código de honra (?!)’ a obrigar silêncio cuja quebra pune-se com morte dolorosa do transgressor (e bota dor nisso!), ‘sentença’ extensível a ascendentes e descendentes.
Entretanto – argumenta-se –, ainda assim tem havido circunstâncias em que ma-fiosos mudam de lado e entregam velhos parceiros.
A ver no que dá, pois.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 
 


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