Brasília, 06 de Agosto de 2020
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Geoestratégia e sócio-psicologia na evolução das FAs 06.07.2020

 Marco Amtônio Pontes

 
Equilíbrio, isenção
 
Como esperava, meus leitores não ‘negam fogo’ e mergulham na discussão que propus semana passada sobre o papel das Forças Armadas brasileiras e de como o exercitam (devem exercitar) no contexto social.
Começo pelas lúcidas observações de Carlos Barroso de Abreu, primo ‘emprestado’ pela querida prima-irmã Sandra (saudades!...) e amigo por recíproca opção. Carlos é oficial superior da reserva da Marinha; temos tido prazerosas e proveitosas conversas (para mim), iniciadas quando serviu em Brasília na virada dos anos 1980–90.
Nele identifico ilustre exceção entre os pares mais conservadores do alto oficialato: avesso à extrema direita como a sua simétrica no espectro político, pauta-se pelo equilíbrio na isenta observação dos fatos.
 
Geoestratégia
 
– Forças armadas devem ser analisadas em contexto geoestratégico e no nível do Congresso – diz ele, assertivo; infelizmente nossa cultura política deixa a discussão pró-xima do nível ‘nós x eles’. [...] Suíça e Israel, cada qual no seu pedaço, por motivos dis-tintos têm forças profissionais. França e Inglaterra, entre outros europeus [...] têm poder nuclear. O Japão, que era desmilitarizado, prepara força naval de defesa [...] – e, acrescento, dotada de armas ofensivas, novidade em nosso tempo, noticiou a imprensa na terça-feira passada.
 
Si vis pacem, para belum
 
O Brasil, com potencial natural enorme – prossegue Carlos –, não pode descui-dar de sua defesa: Se queres a paz, prepara a guerra – ele traduz o brocardo latino cita-do no título desta nota e acrescenta:
– Como a demanda social é enorme e os recursos orçamentários são finitos a discussão dessa defesa tem de ocorrer [...] no Congresso Nacional, e não tem ocorrido. Mesmo a criação do Ministério da Defesa, em minha opinião uma grande mudança, perdeu-se em interesses pessoais em detrimento dos nacionais.
 
Culpa de quem?
 
Mais do arguto Comandante:
– Havendo qualquer violação [...] a culpa será de quem? Os políticos vão apon-tar para os generais... e vice-versa. A perda será de toda a sociedade, única ‘culpada’ por eleger políticos e formar generais.
Assim ele conclui, pessimista:
Espero (sem muita convicção) que ainda nesta encarnação assista no Congres-so a ampla discussão sobre estratégia nacional que abarque saúde, segurança... e, mais importante, educação.
 
Tarefa complexa
 
Célio Cunha, acadêmico de impecáveis formação e trajetória, partilha-me a difi-culdade em compreender a evolução das Forças Armadas brasileiras:
Tarefa complexa, porque também são produto da formação egoística da elite brasileira que, diferentemente de em outros países, sempre se restringiu a seus próprios interesses.
Célio compara a instituição de nossas forças de defesa com a dos Estados Unidos, parametrada na Convenção de Philadelphia em 1787, na qual se discutiram os princípios formuladores da Constituição sob a égide dos ideais iluministas e liderança de “figuras de grande visão política”.
 
Sócio-psicologia
 
É certo que o fator educação caminha pari passu – percebe –, pode-se até mes-mo escrever uma história da educação brasileira pelas inovações interrompidas, como a da UDF de Anísio Teixeira, a UNB de Darcy Ribeiro...
E então o professor, intelectual multifacetado centra a análise na evolução sócio-psicológica das Forças Armadas e sua hierarquia:
Muitas inovações iniciadas nos anos 30 [do século XX] foram abaixo sob a bandeira do anticomunismo. A campanha e perseguição aos comunistas sob a presidên-cia de Dutra, somadas à influência da era McCarthy nos Estados Unidos, podem ter contribuído.
 
Acordos armados
 
Convém atentar [ele aconselha] para os acordos das Forças Armadas brasilei-ras com as dos Estados Unidos, porém observando que lá o poder da educação é muito grande, o que talvez explique o gesto recente do general que pediu desculpas pelo equívoco de ter acompanhado Trump no episódio da Bíblia – refere-se ao incidente em que um alucinado Donald mandou a polícia ‘baixar o pau’ em manifestantes nas vizinhanças da Casa Branca para pudesse encenar uma pantomina em frente à igreja de St. John, com uma Bíblia na mão.
 
Informação impactante
 
A finalizar a intervenção, Célio Cunha sugere-me procurar mais respostas (são tantas perguntas...) “...na Biblioteca da Escola Superior de Guerra, agora também em Brasília”.
Boa ideia!, vou tentar, via internet nestes tempos pandêmicos; quem sabe? mais tarde de corpo presente, possa encontrar informação preciosa, no manuseio de documentos por muito tempo sonegados – será experiência impactante.
 
E os mineiros?
 
Leiam meu amigo e leitor Carlos Alberto Ribeiro De Xavier, primo ou sobrinho (distante, ça va sans dire, são mais de dois séculos entre as respectivas gerações) do alfe-res Joaquim José da Silva Xavier:
Muito bom você falar de nossas Forças Armadas (almadas, eventualmente de-salmadas); tudo acontece sob esse manto desde Guararapes, na ‘Guerra da Pitomba’.
O mineiríssimo Carlsalberto provoca-me a incursões nos subterrâneos da história de nossas Minas e Gerais:
Gostaria que você falasse das Forças no período da Inconfidência; sabe-se que o alferes e outros estiveram de prontidão para alguma batalha no sul. [...]
 
Revolução Mineira
 
Sobre os militares à época da Revolução Mineira (não gosto do nome ‘Inconfidência’, embora admita-o consagrado), li alguma coisa na História Militar do Brasil, de Nelson Werneck Sodré. Mas é lembrança vaga e meu exemplar do livro esclarecedor está indisponível, encaixotado como toda minha biblioteca que não consegui reconstituir desde a penúltima mudança.
Assim, Carlos, devolvo-lhe a provocação: consulte seus preciosos alfarrábios e brinde-nos, a mim e aos demais leitores, com relatos de um tempo talvez decisivo na formação de nossas Forças Armadas na então capitania mais rica do país.
 
Infiltração brasileira
 
Eram tropas da metrópole, obviamente, sob comando superior de portugueses, mas no último quarto dos 700 era crescente número de naturais da terra em seus efeti-vos, inclusive entre oficiais – o próprio Tiradentes era alferes, o que hoje equivaleria a segundo-tenente.
Essa, dir-se-ia, ‘infiltração de brasileiros’ terá sido premonitória para que o prín-cipe-regente Pedro de Alcântara contasse com exércitos leais à causa da independência, que proclamou escassos 33 anos após a derrotada insurreição dos mineiros.
 
Independência da Bahia
 
É instigante imaginar como as forças portuguesas tornaram-se brasileiras – ou ao menos dividiram-se –, a ponto de travarem-se sangrentas batalhas pela dissolução do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e instituição do Império do Brasil.
Gostamos de pensar que a soberania resultou de um ato de vontade do príncipe, o “Independência ou Morte”. Mas ainda na quinta-feira passada os baianos comemoraram mui justamente a ‘Independência da Bahia’ (meio de brincadeira, meio a sério...), data em que o general Madeira embarcou com as remanescentes tropas lusas, derrotadas, de volta à Europa, quase dez meses depois da proclamação.
 
Batalha do Jenipapo
 
Houve batalha também decisiva, dita a maior, nos campos do Jenipapo, Piauí (onde hoje está a cidade de Campo Maior), pouco antes da vitória final.
Em 13 de março de 1823 soldados e voluntários do Maranhão e Ceará uniram-se aos piauienses para vencer os numerosos contingentes portugueses do major Fidié e afirmar a primazia dos brasileiros.
Foram, todos esses, episódios marcantes da formação de nossas Forças Armadas e eles em nada sugerem origem elitista; ao contrário, grupos de extração popular rebela-ram-se contra a elite europeia.
 
Ideal republicano
 
Registre-se, em apoio à tese, que a Revolução Mineira fora republicana e não por acaso contemporânea da Revolução Francesa, ambas ocorridas na mesma década da que fundou, sob idêntico influxo iluminista, os Estados Unidos da América (do norte).
De novo não será coincidência que o ideal republicano estivesse presente em Pernambuco na Revolução de 1817 e persistisse, depois da independência, na Confederação do Equador (1824).
 
Provocação devolvida
 
Suponho que essas considerações, suscitadas pelo apelo de Carlos Alberto De Xavier, preencham parcialmente lacunas da despretensiosa sinopse historiográfica que intentei na semana passada, no concernente à presença dos militares nos movimentos imediatamente anteriores à independência. Para completar o quadro, sobretudo quanto à Revolução Mineira, conto com a resposta do provocador que ora provoco.
 
Posto, desposto e disposto
 
Ao encerrar a edição da semana passada prometera retomar as perguntas sobre a evolução das Forças Armadas, a partir dos complicados tempos do fim do Império e pedi contribuição dos leitores que, como esperava, chegam e são valiosas.
Conformo-me, pois: a parodiar em termos leigos conceito proferido sob inspira-ção mística, desculpo-me por não ir mais adiante e reconheço: o colunista põe, o leitor despõe – e dispõe.
 
Apressadinho...
 
Entretanto renovo a promessa: voltarei ao tema, certo com mais intervenções dos leitores-colaboradores, aliás coautores. E registro recentíssima invectiva de Mário Arcan-o que, apressado como sempre, exige-me chegar “aos finalmente”:
Então, velho escriba, depois de tanta conversa fiada o que você conclui exatamente? E tem propostas para mudar uma situação com que não concorda?
Calma!, Arcanjo; se ainda nem terminei de perguntar...
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br


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