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Cala a boca n√£o! 06.05.2020
Por Renata Abreu
 
Os brasileiros mais velhos estão vivendo um flashback? E nós, filhos nascidos a partir da transição para redemocratização, estamos num déja-vu, como se estivéssemos dentro de um filme que já vimos, com passado, presente e futuro transformados numa coisa só?
 
Qual deveria ser a nossa prioridade máxima agora? Enfrentar o coronavírus. Com mobilização total, união de forças na luta pelo que há de mais sagrado na existência humana, que é salvar vidas! Recordes diários de mortes têm sido batidos, são mais de 100 mil pessoas contaminadas. E isso é só subnotificação, porque a Covid-19 é mais rápida que nossa capacidade de contabilizar todos os números em tempo real. Quanto mais se sai às ruas, mais mortes ocorrem.
 
E em meio ao caos epidemiológico, pra complicar a coisa, estamos acompanhando de longe, em casa (para aqueles que estão respeitando a quarentena e preservando a nossa vida e a dos outros), manifestações, aglomerações, confrontos em espaços públicos, afrontamento às instituições, ameaças a autoridades e seus familiares ou a quem quer que seja "opositor". Ataques e agressões a jornalistas, artistas, professores, profissionais da Saúde remetem aos anos de chumbo, quando um regime autoritário foi instalado.
 
Por 21 anos, o Brasil viveu com restrição à liberdade, com repressão e censura, com eleições indiretas, num processo antidemocrático, com 16 atos institucionais, que se sobrepunham à Constituição, e onde quem estava no governo tinha o controle da Câmara dos Deputados e do Senado.
 
Mas quando voltamos ao passado? Quando não se permite que pontos de vista sejam colocados à prova porque não há argumentos para defendê-los. Quando se perde a capacidade de escutar o que os outros têm a dizer e, quem sabe, até mudar de opinião e se transformar. Quando se descarta serenidade, sabedoria e bom senso para gritar  cala a "boca".
 
Me assusta a enorme dificuldade de manter diálogos. Como tratamos os outros mostra como realmente somos. Ser cordial apenas com aqueles que comungam conosco e intolerante ao menor sinal de contrariedade é um caminho perigoso para o Brasil, que já passou por isso quando era uma Nação com surdez crônica.
 
Pelo bem da democracia, temos de defender o direito de todos se manifestarem, com respeito, sejam quais forem seus pontos de vista. Voltar a ouvir o outro, ser tolerante com ideias e opiniões que divirjam das nossas, antes que seja tarde ou fracassaremos como Nação!
 
Renata Abreu é presidente nacional do Podemos e deputada federal por São Paulo
 

ABC POLITIKO - LINHA DIRETA COM O PODER

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