Brasília, 18 de Novembro de 2017
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Assaltaram o estado, de gravata ou macac√£o 02.09.2017

Marco Antônio Pontes

 

Estado capturado

 
Ruy Fabiano, atilado como sempre, destacou em sua coluna semanal no site Abc Politiko (www.abcpolitiko.com.br) uma frase do ministro Raul Jungmann (Defesa) que passou quase despercebida na imprensa: “O crime organizado capturou o Estado”.
“Ele se referia ao Rio – constata Fabiano – mas o fenômeno é nacional, abrange os três poderes e é mais visível e palpável em Brasília”.
 
Falou e disse
 
O crime organizado, tal qual referido por Jungmann, centra-se ao tráfico de dro-gas e ramificações – contrabando de armas, roubos a bancos e a empresas de guarda e transporte de valores, cargas rodoviárias.
Seus agentes tomaram de assalto o Rio de Janeiro combalido por fatal combina-ção: de um lado a queda nos preços e produção de seu principal ativo, o petróleo extraí-do no mar territorial, de outro sucessivos governos irresponsáveis, gastadores e ineptos, a par de corruptos. Já é desastre pra ninguém botar defeito, tanto mais quando se ramifica Brasil afora com crescente sucesso.
 
Gravata e macacão
 
Tragédia maior, porém, é a detectada pelo atilado repórter e analista.
Mais que o Estado do Rio – a unidade federada, e outras que o tráfico quer sub-meter – o estado brasileiro, a instituição criada pela sociedade para estruturar e adminis-trar a nação é vítima de organização criminosa mais difusa, descentralizada em compa-ração com seus congêneres do tráfico.
Entretanto, sobretudo nas duas décadas inaugurais deste século e milênio, os criminosos antes ditos ‘de colarinho branco’ (hoje disfarçam-se em macacões operários, também) organizaram-se e sistematizaram a corrupção de forma inédita nestas plagas.
 
Corrupção sistemática
 
Se há quase dez anos o mensalão desvelou nova e eficiente maneira de assaltar o estado, visando à manutenção do poder e ao enriquecimento seus ocupantes, agora a Operação Lava a Jato revela-lhe níveis insuspeitados de eficácia.
Em ações bem ordenadas, às vezes quase burocráticas o conluio entre empresá-rios amorais e agentes corruptos do Executivo e Legislativo (até do Judiciário, descobre-se) desviou recursos que se contam em bilhões. Tudo de forma sistemática, estruturada verticalmente no poder federal e disseminada, em parte ‘espontaneamente’, nas demais esferas.
 
Contra tudo e todos...
 
É desolador constatar que a revelação de tantos crimes, a resultar em inéditas punições de expoentes do empresariado e seus comparsas no cume do poder político, impressionou pouco os habitantes do ‘andar de cima’ da corrupção. Concluiu-se no STF a Ação Penal 470, a que processou os 40 ladrões do mensalão – dizem que faltou o Ali Babá da quadrilha –, condenou e aprisionou a maioria deles.
 
...nada aconteceu e...
 
A Lava a Jato foi mais fundo, apanhou políticos ainda mais poderosos e empre-sários mais ricos, sentenciou vários deles – até o ex-presidente em cujos mandatos (e nos as sucessora-poste) institucionalizaram-se as falcatruas. E mesmo assim corruptos da mesma ou diversa extração insistem em iguais práticas, como se nada houvesse acontecido.
 
...o hábito persiste
 
É impressionante a força do hábito, a persistência da sensação de impunidade.
Prisão no Brasil sempre foi para ‘os três pês’: pretos, pobres e periféricos. Os moradores de bairros nobres, os ricos e os ‘brancos’ – em nossa curiosa acepção que ‘branqueia’ mestiços de variados tons, desde que bem vestidos e posicionados – costumam sobrepor-se à lei.
As consequências do mensalão e a evolução da Lava a Jato indicam reversão dessas expectativas, mas os historicamente privilegiados parecem não acreditar: não foi sempre assim?, como poderia mudar?
 
Estranha ausência
 
“Em algum lugar entre o fígado e a alma...” – tomo emprestada a inquietação de Mino Carta nos bons tempos em Veja – ...assalta-me sensação estranha, de faltar algo nas revelações das trampolinagens de agentes do estado.
Abrem-se as entranhas do Executivo, quase duas centenas de congressistas são investigados e vários deles já são réus, até no Judiciário descobrem-se juízes a vender sentenças, desembargadores a fraudar procedimentos, um arraigado nepotismo e o vezo velho de ignorar, mascarar e justificar remunerações acima do teto...
 
Limbo conveniente
 
Em meio a tanta lama duas instituições encarregadas de removê-la, parceiras do Judiciário na limpeza, têm-se mantido à salvo de suspeitas e denúncias: o Ministério Público e a Polícia Federal.
Coincidentemente ambas preservam-se numa espécie de limbo institucional. Procuradores e promotores integram com juízes e advogados o tripé da Justiça porém não o Judiciário, ante o qual são autônomos e tampouco se subordinam aos outros dois poderes da República. Por sua vez os policiais federais pertencem aos quadros do Executivo mas têm ampla liberdade de ação – e é bom que assim seja, em ambos os casos.
 
Inquieto, só torço
 
A inquietação poderia expressar-se num dito popular: “Esmola demais, o santo desconfia”.
Procuradores e policiais federais estariam, por alguma razão, infensos às tenta-ções sob as quais soçobram juízes, congressistas, ministros de estado, dirigentes de em-presas estatais? Ou não?, apenas teriam o velho e útil corporativismo a ocultar-lhes eventuais deslizes?
Torço pela primeira hipótese.
 
Ouviu o galo cantar,...
 
Prestigiada jornalista formada na velha e boa escola do Jornal do Brasil, com passagens pela Folha de S. Paulo e outros veículos de ponta, Eliane Catanhede equivocou-se ao comentar o ‘inchaço’ das metrópoles e tentar explicá-lo em Brasília (Globo-News, Em pauta, 30.08).
Em vez de exercitar os dotes de repórter que a elevaram ao merecido status, che-car fontes, conferir informações, preferiu reproduzir um já desmentido equívoco ao afirmar que o Distrito Federal cresceu além do razoável porque seus governantes criaram núcleos urbanos e ofereceram lotes de graça, com o que teriam atraído migrantes de sua área de influência.
 
...não soube onde...
 
Foi nada disso. Brasília de fato atrai migrantes de um vasto espaço que extrapola seu entorno imediato goiano e mineiro, aqui chegam famílias vindas de áreas mais re-motas, inclusive do Norte e Nordeste. Porém esses novos retirantes não deixam suas plagas por falta de lugar onde morar: sabidamente, a terra não é recurso escasso naqueles sertões empobrecidos.
 
...nem por quê
 
Lá eles tinham teto, mesmo precário e terra, embora seca. Só não tinham meios – técnicos, financeiros – com que produzir no ambiente adverso, nem infraestrutura econômica que lhes desse suporte – energia, transporte, acesso a tecnologia –, muito menos serviços sociais que equalizassem oportunidades – socorro aos mais desvalidos, educa-ção, saúde.
 
Emprego, saúde
 
O que fez crescer a população de Brasília muito além das projeções de seus construtores, à semelhança do ocorrido nas capitais nordestinas e nas metrópoles nacio-nais, foi a busca de oportunidades quando escasseavam alternativas nos rincões originais.
No caso de Brasília e seu entorno imediato, além de emprego os imigrantes buscavam (buscam) socorro tão mais decisivo na medida em que sua ausência é fatal: os serviços de saúde. Tudo o mais o mais parece secundário, ante tal emergência.
 
De BH a Miami
 
Meu amigo Ronaldo Junqueira, brilhante jornalista propenso a boutades iconoclastas, há coisa de quarenta anos explicou o desequilíbrio entre oferta e demanda por serviços de saúde no Distrito Federal numa frase tão simples quanto verdadeira:
– O HDB [hoje Hospital de Base) é o único hospital decente entre Belo Horizonte e Miami.
Claro, hoje há outros nesse caminho, dentro e fora do Brasil; mas a rede de saúde brasiliense segue pressionada pela clientela que vem de longe e tem de ser atendida, evidentemente.
 
Lembrando o Granbery
 
Granberyenses de Brasília, reservem a data: dia 7 de outubro, sábado, teremos nosso encontro anual de confraternização.
 
Marco Antônio Pontes
marcoantoniodp@terra.com.br
 
 


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