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A autocrítica improvável e a síndrome da repetição 08.10.2017

Marco Antônio Pontes

 

 Admissão impossível

 
Finalmente retomo as discussões abrigadas aqui há duas semanas e submeto aos leitores minha própria opinião, a partir das observações de Géraux, Carlos Abreu e sub-sequentes conjeturas de Jesus Ivandro Campos.
Ao encerrar lúcida abordagem destes tempos e “fatos temerosos” (inevitável, o trocadilho), o mais recente interlocutor indaga-se e de pronto responde:
– Como o ‘homem mais honesto do mundo’ pode apresentar um mea culpa ao povo brasileiro, à ONU e ao mundo? Ele enveredou por uma via sem volta.
 
Nem Frei Beto
 
Ivandro reporta-se a entrevista de Frei Beto – “um homem íntegro e petista de corpo inteiro” – ao jornal espanhol El País.
– Ao ser questionado sobre quem estaria dizendo a verdade – relata –, se o ex-presidente ou Palocci, ele não defendeu de pronto o ex-presidente, como fez em tantas ocasiões. Optou, apenas, por “pedir cautela” no julgamento. [...] Para mim, Frei Beto cresceu.
 
Estuário atraente...
 
Para mim também, Ivandro.
Frei Beto é sobrevivente de heroico grupo de frades dominicanos que enfrentou o autoritarismo. Convivi com muitos deles, de vários fui parceiro, sofri com os que foram presos, torturados e morri um pouco quando alguns ‘desapareceram’, junto com o aliado Marighela e outros oponentes do regime.
Como tantos intelectuais de esquerda naqueles tempos dramáticos Beto confluiu no recém fundado PT, então um estuário de várias correntes – marxistas, católicos da teologia da libertação, vanguardistas de confissões tradicionais do protestantismo, outros socialistas de variada estirpe – cujos partidos e militantes foram dizimados (literalmente) pela ditadura na virada dos anos 1960–70.
 
...e fatal
 
Muitos descobrimos cedo que o PT populista de Lula seria nunca o partido de esquerda que sonhávamos, nascido ‘de baixo pra cima’ conforme a leitura vigente dos cânones marxistas, ungido pela raiz proletária ‘redentora do mundo’.
Foi assim que intelectuais de proa que ajudaram a fundar o Partido [que deveria ser] dos Trabalhadores desiludiram-se e buscaram outras aventuras. Iniciaram o cisma filósofos marxistas como Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho, poetas (Ferreira Gullar), imaculados políticos (Plínio de Arruda Sampaio), jornalistas (Fernando Gabeira), juristas (Hélio Bicudo)...
 
A fila anda
 
Outros tantos não perceberam – a melhor dizer, não puderam nem quiseram ver – o embuste e aferram-se ainda hoje à opção equivocada. Há que lhes compreender a angústia: é muito difícil reconhecer o sacrifício de décadas de vida e luta por uma causa malograda, e se não inicialmente inglória certamente apropriada em seguida por interesses escusos.
Se bem lhes interpreto a agonia, julgo notar que os últimos líderes intelectuais ainda no velho PT, aquele gerado nas lutas sindicais do ABC, aprestam-se à autocrítica e buscam saída do labirinto em que se perderam.
A julgar pelo que (não) disse a El País, Frei Beto estará na linha de frente.
 
Comunicação impossível
 
O leitor não entende por que Lula mantém altos índices de preferência nas pesquisas?, apesar de já condenado por corrupção, réu em seis outros processos, investigado em mais um (por enquanto)? Menos ainda parece-lhe crível que intelectuais de impecável currículo desdenhem tudo o que já se provou em tribunais e ainda o apoiem?
Por via indireta, responde a tais perplexidades o parágrafo final do artigo de Célio Alves Costa (Folha de S. Paulo, 01.10), que desanca sem dó o PT e seu caudilho:
Não me dirijo a crentes. Do mesmo modo que não apelo a terroristas do estado islâmico para diálogo e demais práticas civilizadas.”
 
Síndrome da repetição
 
É inacreditável como as pessoas podem aferrar-se a determinada alternativa de solução de um problema, deixando de considerar quaisquer outras. Insistem em algo que já não deu certo e inexplicavelmente esperam resultado diferente. É como se a repetição aprisionasse-lhes o raciocínio, vitimado por algum tipo de síndrome ainda não catalogado pela psicologia, talvez em sua vertente social, que as tornasse incapazes de agir de outra maneira.
 
Invento. Posso?
 
“Você pode até dizer que estou inventando”, leitor, como nos versos da canção. E estou.
Tenho nenhuma autoridade para invadir a seara dos psicólogos e não me improvisaria descobridor de mais disfunções – já bastam TOC, síndrome do pânico, hiperatividade e demais para afligir-nos, não raro insuspeitadamente.
Pareceu-me apenas uma forma de jogar com palavras e atrair atenção para fenômeno muito presente na política brasileira: a tendência a fazer outra vez, mais uma e ainda outra o mesmo de sempre, apesar das evidências de que não funciona.
Refiro-me pois à síndrome da repetição, até que me provem que não existe ou encontrem melhor explicação do transtorno coletivo.
 
Reduzir, não ampliar
 
E eis que mesmo inventada vitima-nos a tal síndrome, quando os parlamentares buscam desesperadamente meios de financiar (re)eleições. Partem do pressuposto de que os valores astronômicos requeridos pelo atual modelo têm que se obter de qualquer jeito e isso fosse um dado do processo.
A ninguém ocorre que a solução está na outra ponta: é preciso reduzir os custos. Na forma atual as campanhas requererão sempre mais verbas, o que a sociedade não aceita sobretudo se retiradas dos combalidos caixas do estado.
 
Destino inaceitável
 
Só não vê quem não quer: o contribuinte percebe que o produto de seus impostos não retorna em serviços suficientes de educação, saúde, segurança, transportes e por isso o cidadão rejeita que parcela ainda maior da arrecadação seja usada para financiar candidatos – ainda mais se muitos deles estão sob suspeita de desviar dinheiro para o próprio bolso.
 
Menos é mais
 
Há como reverter o processo insano e com muito menos recursos ensejar mais e melhor informação.
Por exemplo, imprimir radical mudança e transformar o mais decisivo instrumento das campanhas – o programa eleitoral dito gratuito, patrocinado pelo estado sob supervisão da Justiça Eleitoral – em abrangente e efetivo processo de interação com o eleitor e discussão das propostas dos postulantes.
No atual formato o programa é território exclusivo da propaganda, que custa caro e só exalta as virtudes de candidatos e partidos, escondendo os defeitos.
 
Menos é mais (II)
 
Um novo formato, já abordado nesta coluna, reformularia o processo para atribuir maior espaço à informação objetiva, imparcial, sem excluir a propaganda claramente assumida pelos protagonistas.
Reitere-se: com muito menos dispêndios, informar-se-ia muito mais.
 
Solução reversa
 
A miopia coletiva não se manifesta só nas grandes questões nacionais. Turva também a apreciação de conflitos mais prosaicos, como o que opõe taxistas a seus concorrentes mobilizados via aplicativos na telefonia móvel, Uber e similares.
Só se pensa em gravar a modalidade emergente, submetê-la a obrigações análo-gas às impostas à tradicional.
Que tal? ensaiar o oposto: em vez onerar a nova alternativa, desonerar os bons e velhos ‘carros de praça’?
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br


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