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Deu "um branco"... 18.11.2017

Marco Antônio Pontes*

Certa vez assistia a telejornal em companhia de um amigo e ante a sucessão de más notícias comentei, desalentado:

– A situação está preta...

O companheiro, que ainda não seria chamado "afro-brasileiro" mas já assumia o combate à discriminação, reagiu – um pouco a sério, mais por brincadeira:

– Racismo?, Marco, até você?

Nem por chiste quis aceitar a pecha; sorte minha, achei forma curta e grossa de redarguir:

– Desculpe, deu um branco.

Racista, traidor

O diálogo ocorreu coisa de duas décadas atrás. Fosse hoje e a conversa descom-promissada, estritamente particular "vazasse" nas redes sociais, estaríamos ambos em maus lençóis: eu por racismo, ainda que subjacente e involuntário, ele por somente reagir com uma gargalhada e, omisso, incorrer em traição ao "movimento negro".

Coisa de preto

Lembrei-me do episódio ao assistir na imprensa a desmedidas reações de militantes antirracistas, defensores dos direitos humanos e, de cambulhada, gente que não tem mais o que fazer, a expressões infelizes de William Waak, prestigiado repórter, comentarista e apresentador de alguns dos melhores programas jornalísticos da TV brasileira.

Em diálogo privado – ressalte-se: privado – com um colega, Waak não gostou de insistentes buzinadas nas proximidades e disse ao interlocutor que sabia tratar-se de “coisa de preto”.

Ao assim dizer atribuiu a má educação, impertinência ou que quer haja-o incomodado à cor da pele; falasse sério, seria óbvia a conclusão: para ele, tais defeitos seriam generalizadamente atribuídos aos "afrodescendentes(gostaram, patrulheiros?...).

Coisa de branco

Não consta que William Waak haja respondido com a presteza deste colunista e atribuído a grosseria a "um branco" no raciocínio – ou seja, a um daqueles instantes malditos em que a gente faz-se idiota, fala sem pensar e comete barbaridades.

(Aliás, será que já existe por aqui algum movimento pela supremacia da "raça" branca, a exemplo dos mantidos pelos amiguinhos do presidente Trump lá nos States? Se houver, terei de tomar cuidado pra não ser linchado como traidor...

Dizem que o jornalista simplesmente reconheceu o erro e desculpou-se pela mancada. Haveria de ser suficiente, pensava este velho escriba.

"Papa" racista

Não foi. A patrulha politicamente correta eriçou-se, encontrou chifre em cabeça de cavalo, confundiu focinho de porco com tomada elétrica e botou a boca no trombone. A melodia resultante, cacofônica, serviu de fundo a um discurso de ódio.

Tudo se passou como se Waak assumisse o papado da intolerância racista, em discurso oficial urbe et orbe contra os não-brancos em geral e os pretos (hoje é assim que se diz, eu acho...) em particular. O céu desabou sobre sua cabeça e o chão fugiu-lhe aos pés – pelo menos o céu em que se colocam as emissoras dos Marinho e chão dos estúdios do Jornal da Globo e do Painel (GloboNews), dois dos programas em que nos habituamos a aplaudi-lo.

Exagero, covardia

A suspensão do jornalista pela emissora dos Marinho parece-me exagerada; mais, um ato de covardia em submissão às diatribes "politicamente corretas". Não seria pra tanto, no ambiente de normalidade democrática que tentamos viver.

Repito e enfatizo (até pra que não sobre pra mim, nos veículos que me honram com a publicação e leitores que me dão o prazer da leitura e participação):

a frase de Waak, infeliz e inaceitável, sujeitar-se-ia a julgamento e provável condenação se dita a sério, com deliberada intenção de menosprezar, ofender alguém e por extensão todo um grupo étnico, aliás majoritário no Brasil.

Racismo inconsciente

Não me pareceu ter sido o caso, porém. Pelas descrições que li ou ouvi, o episódio em si não deveria motivar tamanho alarde. Imagino o jornalista, segundo cons-ta atarefado pouco antes de entrar no ar, de certo concentrado em antecipar as próximas falas, a irritar-se com a impertinência de uma buzina nas imediações.

Em tal contexto a reação, em conversa privada, revelaria talvez algo in-conscientemente racista, um resquício preconceituoso aliás muito presente entre os brasileiros de variada ascendência. Certamente é condenável, o preconceito não assumido, confessado ou sequer percebido e cabe-nos combatê-lo sobretudo em nós mesmos.

Autocrítica

Tal autocrítica, aliás, haverá de fazer cotidianamente (e com sucesso) o próprio Waak: se ele possui, como terá revelado na frase inoportuna, o racismo latente que nos vitima a maioria, pelo menos os de sua (e minha) geração, jamais permitiu que tal sentimento emergisse fora da esfera privada, muito menos lhe viciasse as intervenções jornalísticas – o que a este velho, talvez também contaminado escriba pareceria suficiente para absolvê-lo in limine no tribunal da opinião pública e evitar-lhe tão negras (epa!) consequências.

Monólogos odientos

Muito provavelmente o assunto não ganharia tal destaque, nem seria objeto destas longas conjeturas não fosse sintoma de fenômeno preocupante e muito atual.

Refiro-me aos meios e modos com que se apresentam discordâncias e travam-se polêmicas nestes tempos pós-eleições de 2014. É como se o fígado, ademais comprome-tido por humores venenosos, substituísse o cérebro nos debates, o diálogo fosse suplantado por superposição de monólogos, juízos preconcebidos tomassem o lugar dos argumentos e o ódio presidisse cada palavra, linha e entrelinha das contendas.

Deus e o diabo

Não sei se as eleições de 2014 seriam de fato o marco inicial destes tempos de ódio; muito provavelmente a propensão à intransigência ter-se-á afirmado mediante longa gestação, sem que a percebêssemos.

Entretanto aquele pleito, mais precisamente a campanha que o precedeu e ainda não terminou, introduziu um caráter maniqueísta até então inusual, provavelmente fruto de perversa estratégia política a opor o bem e o mal absolutos, variando os papéis de deus e diabo conforme as preferências dos oponentes.

Em tais procedimentos tudo se resume a "nós contra eles", sem nuances nem perdão. E nem vem ao caso indagar, agora, qual dos principais grupos opositores deu partida à dicotomia: ambos aceitaram-no (aceitam) tacitamente.

Anjos e demônios

Igual intransigência permeia embates não diretamente políticos, pelo menos alheios à política partidária e a eleições, como nas questões ditas comportamentais.

Assim é que pregadores de variados cultos e ideias não opõem argumentos, antes desclassificam conceitos, opiniões, atitudes e não criticam, em vez disso demonizam quem não lhe compartilha as crenças.

Nos campos de batalha em se converteram os fóruns de debates já não há oposi-tores a contestar, apenas inimigos a destruir.

Desnecessário

Tais posicionamentos costumavam-se atribuir somente a setores fundamentalis-tas, retrógrados do pensamento mais conservador. Sempre se soube, porém, que há radi-cais em quaisquer facções político-ideológicas. E este é o momento de constatar que segmentos ditos progressistas entregam-se com similar afã a práticas que criticam nos reacionários de sempre.

Absolutamente não precisamos de mais intransigência e reações hidrófobas, muito menos originadas de grupos que pregam a solidariedade, a tolerância, o respeito à diversidade e à livre manifestação.

Falta alguém

Finalmente, se houve em algum momento razão pra tanta polêmica, terá faltado alguém neste extemporâneo tribunal de Nuremberg: pouco ou nada se falou do autor da inconfidência, o colega de Waak que guardou a gravação das frases desastradas e só as divulgou, sabe-se lá por quê, tanto tempo depois do acontecido.

O que terá pretendido, em que circunstâncias deixou as Organizações Globo... pelo que sei tudo permanece oculto nos desvãos da (não) informação.

Marco Antônio Pontes é jornalista
 



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