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Uma coisa, outra coisa 25.11.2017

Marco Antônio Pontes

Meu amigo Geraldo Lúcio de Melo, aliás o jornalista Géraux, tem reparos ao que escrevi semana passada sobre o affaire William Waak:

– O homem público tá sujeito a isso. “À mulher de César não basta ser honesta...”. Inda mais nestes tempos. Não comparo a frase dele à sua (nem é pela sua brilhante saída, como sói acontecer); “a coisa tá preta”, OK, é uma coisa, agora “coisa de preto” é outra coisa, como você mesmo reconhece nessa coluna, o tal racismo involuntário ou inconsciente.

Racismo brabo

Para Géraux, a quem agradeço elogiar-me a feliz sutileza da resposta (admito, humildemente), Waak merece castigo:

– Sou bisneto de escravo e acho que a punição é exemplar, infelizmente para ele. Não sei se ajuda a nossa causa, ainda mais com aquela juíza, ministra de Direitos Humanos estragando tudo; ela nos atrasou cem ou mais anos.

E concorda comigo quando diz que “racismo é brabo, tá no sangue, tem de ser combatido dentro de nós mesmos. Este imbróglio pode até servir para chamar a aten-ção [para o problema].”

Radical-racional

Jornalista arguto, bem informado como poucos, com experiência também no setor público – assessorou o presidente Itamar –, Géraux é ativo militante da redenção de sua (nossa) gente e nisso exercita saudável radicalismo, sem afastar-se da racionalidade.

Dou testemunho: seus atos e atitudes têm nada a ver com modismos "politica-mente corretos"; e penso que o combate ao racismo é das poucas causas em que radicalizar é preciso: não dá pra contemporizar com tamanha anomalia, persistente geradora de iniquidades pessoais e sociais.

Negritude assumida

Ele invoca a própria biografia:

– Até minha família foi omissa, não a próxima, pais e irmãos, mas a maior, primos quase pretos que assim não se reconheciam. Eu, modéstia à parte, [bem cedo] comecei a assumir a nossa negritude. Muitas vezes na porrada, quando jovem.

Conceitos, não pessoas

Pois é em nome de necessários radicalismo e racionalidade na militância antirracista que me permito discordar em parte das assertivas de Géraux, no caso em tela.

O combate sem trégua nem contemporização há de centrar fogo nos conceitos anômalos, imorais, antiéticos e absolutamente destituídos de fundamento científico que presidem os posicionamentos e ações racistas, não nos autores de ofensas provavelmente involuntárias.

Emoção e razão

Reconheço a validade, até inevitabilidade da indignação e reações acerbas dos mais diretamente atingidos, assim como da solidariedade ativa de vários grupos e pessoas, fruto de nobres sentimentos e intenções. Creio que indignação e solidariedade po-dem e devem exercer-se a partir da emoção, porém a ação efetiva para erradicar o mal – ainda mais o mal em estado puro, nascido dos piores instintos e impulsos (in)humanos – deve necessariamente basear-se na razão.

Escolhas vitais

Detectar precisamente as linhas de força do confronto – e estabelecer que de confronto de trata, dos mais acerbos –, no processo escolher aliados e, bem mais difícil, identificar os reais adversários é vital para os objetivos em mira, que integram o projeto mais amplo de uma sociedade justa, igualitária. Esta empreitada pressupõe eliminar exclusões sob quaisquer pretextos, entre eles os baseados na cor da pele.

Preconceito nosso

Parece-me bastante claro que os inimigos deste desiderato – exemplifico com tertúlias outras que frequentaram a imprensa – não serão Monteiro Lobato e sua admirável personagem "tia Nastácia" (objeto do apodo da boneca Emília, "politicamente incorreta" avant la lettre: “negra beiçuda) nem Lamartine & João de Barro (“...mas como a cor não pega, mulata...”). Tampouco o vilão será William Waak, em que pese sua desastrada encarnação do preconceito nosso de cada dia.

Tática oportuna

Se bem me lembro das leituras juvenis, a frase está num dos Evangelhos e é atribuída a Jesus: “O escândalo é necessário, mas ai! de quem o provoque.”

Coube ao descuidado Waak provocá-lo e incendiar o debate (que aliás nunca deveria esfriar), porém não me parece correto nem oportuno imolá-lo neste altar pagão.

Creio até que se poderiam reeditar considerações que fizemos, os oponentes da ditadura, a cada vez que se apontavam mazelas ou deslizes de companheiros de jornada, mesmo eventuais: tem muita gente na frente de quem falar mal. É esta (deveria ser) uma bem vinda consideração tática sob a estratégia geral do bom combate ao racismo.

Por oportuno...

Recebo, orgulhosamente, os cumprimentos de Clemente Rosas “pelo oportuno e justo comentário [ainda sobre o caso William Waak], que endosso integralmente”.

Com igual satisfação, registro e agradeço que me recorde as lições de latim que mal apreendi no então curso "ginasial" – lá se vão seis décadas...: nominativo é o caso do sujeito, genitivo o do possuidor, acusativo o do objeto direto... Compartilho o oportuno reparo com os leitores:

– Se me permite a observação, a expressão latina correta é “urbi et orbi” – “para a cidade e para o mundo”. O caso latino para os objetos indiretos é o dativo, não o ablativo, que corresponde às locuções adverbiais e nesta expressão determinaria a terminação em e.

Nuremberg

Escreve-me Mário Arcanjo, eventual colaborador e pelo visto ainda assíduo, vi-gilante leitor desta coluna:

– Olá, velho escriba. Não pense que estou desatento, continuo vigiando seus escritos para criticar o que acho estranho. Desta vez não entendi a citação do Tribunal de Nuremberg, não foi o que julgou os criminosos nazistas? Acho que apareceu como Pilatos no Credo...

Nuremberg (II)

Quis estabelecer uma analogia, Arcanjo, e parece que não me saí bem. Mas desta vez Pilatos tem a ver com o Credo, como afinal explico:

Davi Nasser, então famoso jornalista, melhor em textos, títulos que no conteúdo (e confiabilidade) das reportagens e artigos, publicou ao fim dos anos 1950 uma coletânea do que escrevera em O Cruzeiro e outros veículos dos Diários Associados, então líderes da imprensa brasileira. O livro, Falta alguém em Nuremberg, referia-se (como você disse) àquele tribunal instalado logo após a Segunda Guerra Mundial para julgar nazistas que perpetraram crimes contra a humanidade.

Nuremberg (III)

Quando a edição veio à luz era muito presente a lembrança do nazismo e sua, digamos, pálida imitação brasileira, o populismo autoritário "Estado Novo" (1937–45). Nasser aproveitou o mote para cobrar punição aos autores de atos similares na recém-derrubada ditadura.

Tudo bem, não fosse o equívoco de atribuir só a um dos beleguins do regime, seu chefe de polícia Filinto Muller, toda a responsabilidade por um dos crimes mais brutais então perpetrados, pouco antes da formalização da ditadura: a deportação para o reich de Hitler – ato equivalente a condenação à morte – da mulher do líder comunista brasileiro Luís Carlos Prestes, a judia alemã Olga Benário; que ademais, sabia-se, estava grávida.

Nuremberg (IV)

Diga-se que Muller bem mereceu a execração. De fato comandou sob o "Estado Novo" as torturas e demais atrocidades do período, foi político de ultradireita no interregno democrático sob a Constituição de 1946 e em seguida participou, figura de proa, da outra e mais duradoura ditadura, a de 1964–85.

Porém a história restaurada registra que na crueldade contra Olga e Prestes ele foi mero executor de decisões do ditador Vargas e seus esteios das mais altas patentes militares, à frente os generais Goes Monteiro e Eurico Dutra.

Voltarei ao assunto.

Marco Antônio Pontes é jornalista 



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