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Porandubas Políticas 07.03.2018

Gaudêncio Torquato

 

Abro a coluna com uma historinha de Mossoró, contada pelo amigo Carlos Santos, com quem me encontrei nesta última segunda-feira.

 
Jumento, burro e o voto
 
Candidato a vereador em Mossoró (2004), “Ricardo de Dodoca” assusta-se à porta de uma eleitora na periferia da cidade. Olhos arregalados, oxigênio quase faltando, ele depara-se com um cartaz do adversário Flávio Tácito à parede de “comadre Maria”. Ela, teoricamente sua eleitora fiel. Com sinceridade angelical, própria das crianças, uma menina reforça a informação visual:
 
- Mamãe não vai votar no senhor!
- Por quê? - balbucia Ricardo.
-Porque o “padre” (como é conhecido Flávio) deu um jumento para ela.
- Ih... Ih... E o burro sou eu, que levou esse coice - constata o candidato com gagueira acentuada. (Livro Só Rindo 2)
 
Identidade
 
A coluna abre mais uma vez espaço para lembrar dois conceitos centrais do marketing político: identidade e imagem. O termo identidade, derivado do latim idem (igual, semelhante), corresponde à verdade de uma pessoa. Verdade que abriga sua história, tradição, valores que defende, enfim, seu pensamento. É a coluna vertebral de um perfil. Seja ele empresário, político, profissional liberal, etc.
 
Imagem
 
Já a imagem é a projeção da identidade, a percepção que o figurante transmite à sociedade. Tal percepção tem sido muito burilada nesses nossos tempos de Estado-Espetáculo, que obriga particularmente os agentes políticos a se transformarem em atores para desfilar no palco da visibilidade. A hipótese que cerca tal necessidade é a exposição pública: quanto mais conhecido o ator, mais prestigiado poderá vir a ser. Ocorre que na maquinação imagética ocorrem desvios fulcrais.
 
Dândi
 
Um dos erros, por exemplo, é tentar esticar a imagem do protagonista para além dos limites de sua identidade. Imaginemos a ideia de mapa e território. O território Brasil deve estar contido todinho em seu mapa. Não pode ser menos ou mais do que os limites traçados pelo mapa. Quando isso deixa de ocorrer, rompe-se a identidade. Daí surge a figura do dândi. Baudelaire dizia: “o dândi tem o prazer de espantar”. Para aparecer na TV em horário eleitoral, os dândis procuram adereços de figurantes espalhafatosos, ancorando-se em gestos extravagantes e linguagens obtusas a título de chamar a atenção. Fazem tudo o que os “alquimistas” lhes recomendam.
 
O Super-Homem
 
Lembro exemplos. O ex-senador Eduardo Suplicy apreciava gestos extravagantes. Certo momento, atendendo a um pedido da animadora televisiva Sabrina Sato, vestiu por cima da roupa o traje de super-homem. E isso aconteceu nos solenes corredores do Senado. Ficou ridículo. Aquela sunga vermelha por cima da calça chamava a atenção, sim. Mas derrubava sua imagem de seriedade. Suplicy apenas corroborou a impressão de que satisfaz aos apelos e pedidos espetaculosos para aparecer na mídia. Um erro querer aparecer a qualquer custo.
 
A zebra
 
Aqui em São Paulo, o presidente da poderosa Federação das Indústrias, Paulo Skaf, apareceu vestido de zebra como candidato a governador pelo então PMDB, em seu programa eleitoral, nos idos de 2014. A estrambótica imagem certamente garantiu atenção, mas descambou para o perigoso terreno da galhofa. Deve ter sido conselho do marqueteiro. Vestir-se de zebra para dar ideia de que poderia ser a “zebra” da campanha é forçar a barra. Uma apelação. Pior: uma humilhação.
 
Tiririca
 
Já o palhaço Tiririca se apresentava todo ornado de penduricalhos com seu chapéu de palhaço. No caso dele, a imagem correspondia à identidade. É um palhaço. Aparecer como palhaço abria o sorriso. Não chegava a agredir. Idem - semelhante, igual.
 
O sol do meio-dia
 
Costumo pinçar a imagem do sol do meio-dia. Uma pessoa sob esse sol tem os raios incidindo sobre o centro da cabeça. A sombra criada por seu corpo não aparece. Estaria abaixo dos pés. À medida que o sol vai declinando no horizonte, os raios sobre o corpo vão formando uma sombra que se projeta na lateral. Sob o sol se pondo, a sombra se projeta ao longo do corpo, esgarçando seu formato. Deforma a pessoa. Pois bem, a imagem de um político deve corresponder em cheio à imagem projetada pelo sol do meio-dia. E não a imagem deformada e mentirosa que se vê ao sol no poente. As imagens artificiais de candidatos equivalem a essas sombras deformadas.
 
Alguns toques
 
Candidatos, atentem para alguns toques:
 
1. Procurem expressar a característica mais importante de sua identidade - o foco.
2. Não esqueçam que o eleitor deseja travar conhecimento com o personagem. Circular no meio da massa é importante.
3. Façam grande esforço para multiplicar presença em vários locais - a onipresença é um valor insuperável. Planejar eventos rápidos em lugares e cidades diferentes em um mesmo dia.
 
Macarrão
 
Calcanhar de Aquiles dos candidatos: evitar serem flagrados em dissonância. E isso ocorre geralmente quando um candidato é instado a mudar de identidade. O eleitor percebe quando a pessoa torna-se artificial, um mero produto de marketing. E candidato não pode ser trabalhado como se trabalha um sabonete, um pacote de macarrão.
 
Flávio Rocha
 
Este consultor teve oportunidade de presenciar neste início de semana, em Natal/RN, eventos em que o empresário e CEO do Grupo Riachuelo, Flávio Rocha, expôs seu Plano Brasil 200, lançado tempos atrás. Flávio foi o inspirador do programa Pró-Sertão, que abriu centenas de micro empreendimentos de costura no interior do Estado, propiciando às costureiras a oportunidade de produzir as roupas a serem adquiridas pela próprio Grupo. Uma revolução nos moldes que o empresário viu na Galícia, na Espanha, região com similaridades ao Nordeste, especialmente o RN.
 
Intervenção no emprego
 
As cidades começavam a mudar a feição. Empregos, renda, aquisição de motocicletas, carros, impulso ao comércio local - era a moldura que se via em dezenas de cidades pobres. Tudo parecia um sonho. Alicerçado, diga-se, na lei que dava respaldo a toda essa movimentação - a Lei da Terceirização. Até que as sirenes da PF chegaram às cidades para desmontar o empreendimento. A denúncia veio de uma procuradora, sob o esquisito conceito de “subordinação estrutural”, ou seja, aquele formidável aparato de micro empreendedoras deveria ser absorvido como mão de obra efetiva da fábrica Guararapes. Pano de fundo: sob esse facão destruidor, a indústria de construção civil deveria absorver como empregados todos os contingentes que lhe prestam serviços. Idem para a indústria automobilística.
 
O Brasil 200
 
O empresário não se deu por vencido. Disposto a lutar por sua ideia, imaginou o Brasil 200, na verdade um largo ideário liberal, com uma visão do Estado adequado, com suas tarefas constitucionais, ancorado na liberdade econômica, na força da livre iniciativa e com compromissos de recuperar os eixos perdidos pelo país. Passou a contar sua história, a narrar os resultados do Pró-Sertão e, mais que isso, a estabelecer um nexo entre esse projeto e outros setores da economia. Sua intenção é puxar esse cordão empreendedor por todo o Brasil.
 
Um plano sistêmico
 
À medida que sua narrativa passou a ser conhecida, veio o apelo: ampliar a visão liberal para outras áreas - educação, saúde, transportes, segurança pública. Nessa vertente, o movimento Brasil 200 acaba de produzir um Plano Nacional Emergencial de Segurança e Combate ao Crime com estratégias para reorganização das polícias, reformulação de presídios e alterações na legislação penal. O plano contém medidas duras: extinção de audiências de custódia, fim da progressão de regime, cumprimento integral de sentenças para crimes hediondos, penas mais duras, fim do estatuto do desarmamento.
 
Candidato? Sim
 
Pois bem, o que pretende Flávio Rocha com tudo isso? Começa a correr o Brasil para expor sua visão liberal? Foi a pergunta que este consultor lhe fez. Resposta: “apresentar o Brasil 200. Se este ideário for bem aceito, como vem sendo, ponho meu nome à disposição”. Lendo melhor: Flávio Rocha é candidato a presidente da República. Este consultor não tem mais dúvidas. Já abriu conversa com alguns partidos. E se não der certo? Dará, respondem seus assessores. Na agenda, cidades-polo de todos os recantos serão visitadas. O entusiasmo com que as plateias ouvem suas exposições é grande. Se a onda não chegar à praia, em 2022, por ocasião dos 200 anos da Pátria independente, a semente hoje lançada poderá frutificar. E Flávio voltará a aparecer.
 
Muita emoção
 
A fábrica da Guararapes parou ao meio da tarde de segunda-feira. 8 mil costureiras, “companheiras de jornada”, brandindo bandeiras e balões coloridos, sob aplausos e gritos continuados, ouviram Flávio Rocha narrando sua luta. Ao lado, seu pai, Nevaldo Rocha, o fundador, em vias de completar 90 anos. “Empregador e Empregados juntos” - faixas exibindo a profunda interação entre os dois polos se espalhavam por todos os lados. Pesquisa da consultoria que faz auditoria para o Grupo mostrou um índice: o engajamento e a integração dos empregados com a Guararapes é de 98%. O dado, que é público, explica o frenesi.
 
A força moral
 
A força moral é a arma mais poderosa da campanha eleitoral deste ano. Será o maior contraponto ao estado de degradação que corrói parcela razoável de nossos quadros políticos. Trata-se de uma força que funcionará como imã, puxando a atenção e a adesão dos eleitores. Os candidatos se esforçarão em dizer que a possuem. Ocorre que a força moral não é um conceito sobre o qual se possa cantar loas. Quem a carrega, não precisa discorrer sobre ela. Será reconhecido por isso. Gandhi, pobre e despojado, era um ícone de força moral. Arrastou multidões. Como a simplicidade, a força moral é a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos. Quem possui esse tipo de força? Poucos.
 
Juízes de passeata – I
 
Desembargador do Tribunal Federal da 3ª região (SP e MS), do qual foi presidente e corregedor, com uma extensa e vitoriosa carreira na magistratura, o juiz Fábio Prieto é claro e direto nessa questão do auxílio-moradia e outros penduricalhos pagos aos juízes de todo o país, em flagrante desrespeito ao teto constitucional: a definição da remuneração no Judiciário cabe ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso Nacional e não às entidades de classe. Prieto defendeu sua posição num belo artigo publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, dia 2 de março, com o título “Juízes de Passeata”.
 
Juízes de passeata – II
 
Prieto é contra o ativismo político no Judiciário e lembra que uma tranca já foi colocada na porta das finanças públicas: “É vedada a concessão de adicionais ou vantagens pecuniárias não previstas na presente lei, bem como em bases e limites superiores aos nela fixados”. Os vencimentos dos ministros do Supremo Tribunal Federal foram fixados como teto, em nome da unidade nacional do Poder Judiciário.
 
Juízes de passeata – III
 
Mas houve uma reforma do Judiciário em 2000, segundo ele, manipulada para introduzir no sistema de Justiça a mensagem da luta de classes entre “nós e eles”: juízes de tribunal contra os "da base", de primeiro grau. E a partir de então houve a partilha dos “penduricalhos”. A pele da democracia vestida pelo assembleísmo corporativo-sindical. Esses juízes de passeata fizeram até um ato de protesto na sede do STF pela manutenção de seus privilégios. Por fim, Fábio Prieto adverte que a questão da remuneração “não pode ser privatizada pelo descansado sindicalismo de toga”.
 
Programa de qualidade
 
O Sescon-SP (Sindicato das Empresas de Contabilidade e Assessoramento no Estado de São Paulo) realiza nesta sexta, 9/3, a 13ª edição do evento para entrega da certificação PQEC - Programa de Qualidade de Empresas Contábeis, criado para incentivar a excelência na prestação de serviços. Para o presidente da entidade, Márcio Shimomoto, “pelo caráter facilitador e indicador de caminhos, o PQEC tornou-se um grande aliado das empresas e um diferencial na busca por novos mercados”. Este ano serão 482 empresas, sendo 98 certificadas também pelo ISO. O evento será no Espaço das Américas, em São Paulo.
 
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato


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