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Sistema financeiro 09.05.2018
André Gustavo Stumpf
 
A Operação “Câmbio Desligo” deflagrada pela Polícia Federal lança um olhar sobre o sistema financeiro brasileiro. Setor longamente protegido, que esconde seus erros, imperfeições, defeitos e jamais perde. Ganha todas e sempre está ao lado do poder. O absurdo das taxas de juros praticadas no país (Selic 6,5% a.a. – juros no crédito rotativo do cartão de crédito 334% a.a.) é somente parte da usura. Fortunas ilícitas entram e saem do país à vontade, sem controle, nem fiscalização.
 
Existe um sistema financeiro clandestino muito bem montado em funcionamento no Brasil há bastante tempo. Os doleiros possuem competências específicas para montar transações de determinado volume. Quando a quantidade de dinheiro ultrapassa qualquer previsão eles precisam se socorrer uns dos outros e naturalmente contar com a boa vontade do sistema formal. Há alguns anos, o HSBC foi proibido de operar nos Estados Unidos depois que a Justiça daquele país entendeu que o banco tinha uma relação de clientes preferenciais que operavam além da regulamentação do setor. Agora, órgãos oficiais no país descobriram que mais de 100 brasileiros possuem juntos, bilhões no HSBC na Suíça.
 
São pedaços de informação que chegam ao conhecimento público. O fato é que a absurda movimentação de dinheiro dos envolvidos na Operação Lava Jato brincou debaixo dos olhos da fiscalização. Essa é a parte, agora, reconhecida. O mesmo critério é aplicado ao comércio clandestino de drogas, armas e munições. O pagamento destas encomendas é feita em dinheiro ou transações originárias de paraísos fiscais. Grandes traficantes entram na selva colombiana adquirem cocaína e pagam na hora. O dinheiro salta de uma conta para outra no mesmo instante. O lucro produzido no Brasil volta para o dono do negócio em algum lugar do mundo.
 
Alguns envolvidos nos malfeitos da Lava Jato comentaram que a investigação nunca se aproximou do setor financeiro. Agora, os investigadores da Polícia Federal decidiram seguir o dinheiro. Perceberam que havia um esquema perfeitamente montado para tirar dinheiro do Brasil e fazer com que a ele retornasse. No caso do ex-governador Sérgio Cabral a necessidade alcançou o volume recorde de US$ 1 milhão por dia. 
 
Para controlar as transações, os colaboradores da rede recorrem a um sistema paralelo on line próprio, chamado de Bankdrop, que guarda registros de transações internacionais, dados de contas, bancos, beneficiários, datas e valores. O transporte, a custódia e a liquidação dos recursos, eram realizados por outro sistema informatizado que funcionava como conta corrente e controlava a movimentação de dólares e reais. Os doleiros também usam transportadores e alugam salas comerciais com controle de acesso para armazenar dinheiro, em nome de empresas de fachada.
 
A operação chamada de dólar-cabo é antiga. Empresas estrangeiras remetem recursos para suas sucursais no Brasil. Os doleiros aqui, que mantém contato com a rede bancária local, compram os cheques ou as ordens de pagamentos em reais. Então, retornam a ordem ou os cheques em dólares ou euros para a origem. Além disto os doleiros contam com a colaboração de empresas offshore em dezenas de países.
 
Empresas sonegadoras de impostos fazem um contrato de câmbio no Banco Central com o valor de seus bens de importação subfaturados e emitem Nota Fiscal falsa. Os doleiros quitam o restante do valor com a companhia exportadora em créditos no exterior depois de receberem a quantidade equivalente em dinheiro vivo no país. Estas manobras permitiram que propina originária de dinheiro ilícito depositado no exterior, se transforme em investimento no Brasil ou em doação a partido político. Recursos ilícitos e dinheiro do tráfico de drogas transitam pela mesma avenida.
 
André Gustavo Stumpf, jornalista.


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