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A greve entre aspas e a anormalidade 29.05.2018

Marco Antônio Pontes

 

Sim, eles podem

Os ‘caminhoneiros’ conseguiram o que o PT, com seus ‘exércitos’ de MST, MTST, CUT e sindicatos, que controlava à força de verbas públicas e cooptação para ‘aparelhar’ o estado, não logrou nem com Lula preso e alijado das eleições.
Escrevi ‘caminhoneiros’ assim, entre aspas, porque não veio exatamente dos motoristas de caminhão nem de seus sindicatos o ultimatum que fez o governo ajoelhar-se, obrigou os parlamentares a trabalhar em tempos de campanha eleitoral e vésperas de Copa do Mundo, (co)moveu até os frios executivos da Petrobrás.
Sim, eles podem e quase pararam o Brasil. Teriam parado, não fossem atendi-dos.

Interesses coincidentes

‘Eles’, dizia, não são apenas os motoristas de caminhão, profissionais que ope-ram máquinas poderosas mas nem por isso têm esse poder todo.
O que dobrou dirigentes governamentais, ministros e o próprio presidente, par-lamentares e o mais ativo líder do Congresso, o presidente da Câmara, além dos profissionalíssimos diretores e presidente da Petrobrás foi uma inusitada coincidência de interesses: aos dos caminhoneiros e seus sindicatos somaram-se os das empresas transportadoras, respectivas federações e confederação, já em si um fortíssimo ‘cartório’ a que se juntaram outros, os dos demais grandes consumidores de óleo diesel, à frente o agronegócio.

Apoios difusos

Ademais, potencializou a força desses ‘cartórios’ o apoio difuso da clientela, constituída por muito mais que os contratadores de seus serviços: há também a multidão de clientes, digamos, compulsórios que dependem de alguma forma do setor.
Nesta multidão estamos todos nós, consumidores diretos ou indiretos dos deri-vados de petróleo que movem cerca de três quartos dos transportes no Brasil.

Trágica conjunção

Tal incomum conjunção de propósitos confrontou um governo fraco, maculado pela corrupção, impopular e acossado pela ‘própria’ base parlamentar (novas aspas: deputados e senadores da inchada coligação que formalmente respalda o governo negociam individualmente e caso a caso o apoio, cobrando-o cada vez mais caro).
Pior ainda que tudo se passe sob a égide das próximas eleições e campanhas.

É a eleição!...

“É aí que a porca torce o rabo”, se posso apelar à velha expressão popular. O MDB lançara ‘pré-candidato’ a presidente, o que acrescentou ingredientes populistas ao imprevidente, atrasado e oscilante comportamento do governo quando a crise anunciava-se.
A também dita ‘pré-candidatura’ (esses eufemismos...) do presidente da Câmara dos Deputados ter-lhe-á condicionado a decisão de aprovar a toque de caixa uma insustentável, ilegal supressão de gravames do diesel – quis sair da crise como ‘salvador da pátria’ e deu-se mal, teve que admitir grosseiro erro de cálculo.

Desculpa esfarrapada

Por sua vez o presidente do Senado, mais preocupado com a difícil reeleição que disputará em seu estado, fez pouco da crise e bateu asas pro Ceará só para voltar correndo com desculpa esfarrapada – disse-se surpreendido pela ação dos deputados e não explicou o porquê da surpresa, se o (mal)feito do colega da Câmara ocorrera na véspera de sua viagem.

Desídia e rendição

Há lições importantes a aproveitar da crise.
Resolvemos mal e porcamente a emergência em função da desídia dos que por dever de ofício haveriam antevê-la ainda na gestação.
Para superá-la ou talvez só jogá-la mais pra frente foi preciso capitular ante os grupos de pressão: o governo cedeu em toda linha e talvez nem tivesse alternativa, consumada a imprevidência e a hesitação.

Erramos todos

Disse que resolvemos, na primeira pessoa do plural, porque somos todos partícipes da incúria que está na raiz desta e anteriores crises.
Há décadas, na verdade há quase um século fechamos os olhos ao óbvio e permitimos que insano ‘rodoviarismo’ condicione o setor de transporte. Parece que entendemos errado a frase de efeito do presidente Washington Luís, no primeiro terço do século XX: “Governar é abrir estradas”.
Ignoramos que não haveriam de ser apenas rodovias.

É só abraço...

Desde aquela fatal incompreensão desdenhamos as ferrovias, cuja implantação custa mais caro e os projetos demoram a maturar.
Parece fácil, custa menos, rende prestígio a curto prazo rasgar a terra, colocar asfalto por cima, cortar fitas de inauguração e partir para o abraço, quer dizer, para a eleição.
Pouco importou a sucessivos governos e governantes – e a nós todos, que não reagimos e seguimos a votar nos mesmo equivocados políticos – que a médio e longo prazo as estradas-de-ferro pudessem propiciar menores custos décadas, séculos a fio, a melhor recompensar o investimento.

Malha ridícula

Reflete com precisão esses equívocos um inacreditável contrassenso: enquanto o país cresceu em tudo mais a malha ferroviária minguou de já insuficientes 47 mil quilômetros em meados do século passado para menos de trinta mil hoje em operação, algo ridículo ante as dimensões do território.

Castos porque impotentes

O teimoso rodoviarismo ignorou também o extenso litoral, em cujas proximidades concentram-se a população e a atividade econômica.
A navegação de cabotagem, no passado significativa – até no transporte de pas-sageiros, nos tempos do Loyd Brasileiro e seus navios de nomes sonoros resumidos no nas três letras iniciais, os ‘ita’ de tantas saudades... – hoje é amplamente minoritária no volume e valor de cargas.
Só na Amazônia as hidrovias internas predominam e não por decisão estratégica, só pela dificuldade de implantar rodovias. Quer dizer, lá acertamos só porque não conseguimos errar.
Como no curioso aforismo, “castidade por impotência não é mérito.”

Greves e ‘greve’

Ultrapassado o ápice da crise, espera-se a reação do estado ante os crimes cometidos na ‘greve’ que foi menos greve que lock out das transportadoras.
Greves de trabalhadores são legalmente admitidas, porém sonegação de produtos e serviços por empresas é crime capitulado no Código Penal. Pelo menos um integrante altamente situado na hierarquia do ‘cartório’ dos transportes foi flagrado a açular bloqueio de via pública, óbvia participação em ato já em si criminoso.

Direito de greve...

Ato criminoso, disse, sem medo de ser exato e por isso sofrer ‘patrulha’ de ‘es-querdoides’ que me acoimarão ‘reacionário’. Explico, a quem queira examinar com isenção os fatos e feitos.
Greve é direito do trabalhador, universalmente reconhecido quando o diálogo não resolve conflitos entre trabalho e capital. A esse direito associa-se o de manifesta-ção em defesa dos movimentos de grevistas.
Aplicados tais conceitos ao movimento dos ‘caminhoneiros’ (insisto nas aspas), abstraído o comando ou conivência das empresas que os empregam e-ou contratam, há que lhes reconhecer esse direito – ainda mais se há fatos objetivos a justificar-lhes as reivindicações.

... e demais direitos

Quer dizer: ao entrar em greve eles podem ficar em casa ou sair com seus pode-rosos caminhões por estradas e ruas, parar onde for permitido, engrossar protestos.
Não podem, porém, fechar rodovias e vias urbanas, impedir o exercício de outro direito tão legítimo quanto o de greve, o de ir e vir dos demais cidadãos.
Muito menos podem mergulhar as cidades no caos, provocar desabastecimento generalizado (não só de combustíveis), por em risco pessoas internadas em hospitais em que chegou a faltar até oxigênio para doentes em grave risco.

Vai levar tempo

A semana encerra-se e a crise persiste, apesar do acordo entre líderes do setor e governo – que, vale repetir, cedeu a praticamente todas as exigências.
Finalmente, já na sexta-feira, o presidente endureceu o jogo e ‘chamou os profissionais’, determinou a desobstrução das vias, dos acessos a parques de tancagem e refinarias.
Contudo a normalização do setor, da circulação de mercadorias e da vida do ci-dadão demandará ainda um tempo.
Aliás muito tempo, no mínimo décadas para reverter a anormalidade dos trans-portes concentrados no modo rodoviário.

Ainda é tempo:...

...quem perdeu o lançamento de Pinguela, a maldição do vice na Associação dos Escri-tores pode recuperar-se e encontrar o autor, o jornalista Aylê Selassiê, no fim-de-tarde no bar e restaurante Carpe Diem, comercial da 104 Sul na próxima terça-feira, 29.05. Estarei lá, curioso da abordagem do arguto jornalista e professor no tema apaixonante – como ocorreram e houveram-se os vices nas sempre traumáticas substituições, de Deodoro por Floriano a Dilma por Temer.


Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br



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