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Lição da greve: sob o rodoviarismo não há salvação 03.06.2018

Marco Antônio Pontes

 

 Bom começo, mau fim

 
Ao encerrar seu movimento os caminhoneiros e aliados haviam sido atendidos em quase todas as reivindicações. Não lhes foi difícil dobrar um governo fraco, surpre-endido pelos fatos, hesitante ao enfrentá-los, tímido na contenção das ilegalidades.
Mas na sequência os líderes perderam o controle do processo, ao final apropriado por ativistas da direita reacionária e da esquerda idiota, em conluio para prolongar e radicalizar os bloqueios de ruas e rodovias – as ‘infiltrações’ denunciadas até por repre-sentantes dos caminhoneiros.
 
Irracionalidade e violência
 
O resultado foi um crescendo de irracionalidade e violência. A manutenção, após o atendimento das exigências, dos piquetes nas estradas, refinarias e centros de tanca-gem excluiu aliados naturais da greve e lock out – por exemplo o agronegócio, grande consumidor de derivados de petróleo, foi imediatista e apoiou os paredistas para em seguida sofrer prejuízo bilionário com o colapso dos transportes.
O mesmo vale para o comércio, os demais serviços, a indústria e assim o respaldo ou condescendência da opinião pública esvaiu-se na medida em que faltavam com-bustíveis e escasseavam alimentos.
 
Barbárie
 
O atraso na chegada de insumos hospitalares colocou vidas em risco e a violência dos bloqueios escancarou-se com depredação de veículos, saque de cargas, agressões a caminhoneiros que tentaram seguir viagem.
A barbárie exacerbou-se com dois homicídios – trágico fim de um movimento que precisava de mais nada, ganhara tudo há dias.
 
Anomalias costumeiras
 
Em sua erupção, desenvolvimento e conclusão a ‘greve dos caminhoneiros’ exi-biu dramaticamente o que chamei aqui, há três semanas, de “normalidade anômala”: a persistência no Brasil de disfunções, equívocos estratégicos e outros mais prosaicos porém igualmente deploráveis sob qualquer exame atento, mesmo o do senso comum; apesar disso, de tão costumeiras as anomalias acabam tacitamente aceitas por todos.
 
Energia esgotada
 
A sociedade parece vencida pelo cansaço, a energia revelada nos protestos de 2013 como que se esgotou nas manifestações pelo impeachment daquela “presidenta”.
Assim quase ninguém percebe, ou se o faz desdenha, os absurdos que nos viti-mam, vários deles há muito tempo.
Mas o caos recente pôs a nu a insânia do rodoviarismo que preside o setor de transporte, objeto de minhas anotações na semana passada.
 
Força injusta
 
Outra anomalia é a disfuncional e injusta estrutura tributária brasileira, evidenci-ada na solução da crise via menor taxação do diesel: os contribuintes pagaremos para atender um segmento dotado de força de pressão.
Se agora foi o dos transportadores, antes fora o da indústria de veículos e cone-xas, ‘cartório’ associado às corporações de operários metalúrgicos e, aliás, muito ativo nesta crise; ou o das também poderosas corporações que deveriam representar todos os funcionários do estado mas privilegiam a elite dos três poderes, seja com desproporcio-nais remunerações, seja via subterfúgios como o famigerado auxílio-moradia.
 
Tem menos, paga mais
 
O tema dará “mais pano para as mangas”.
As agruras do governo com o novo ‘buraco’ nas contas, coisa de R$ 13,5 bilhões de subsídios e gastos conexos até o fim deste ano, ensejam críticas a uma ordem tributá-ria engessada em irracional complexidade, fortemente regressiva (quer dizer, cobra mais de quem ganha menos), fundada na taxação do consumo, do trabalho e na isenção ou parcimônia ante as rendas do capital.
O debate extravasa os corpos técnicos e chega à imprensa, como no bem funda-mentado artigo de Kleber Cabral que li no Correio Braziliense de terça-feira passada (ele é auditor fiscal da Receita Federal).
 
Pode isso?, Everardo
 
Aguardo, em feliz expectativa, o que dirá do assunto Everardo Maciel, papa do tributarismo brasileiro. E se me refiro a intelectual que agrega ao rigor técnico e domínio do métier uma vasta erudição e formação humanista, provoco-o a opinar sobre outra anomalia entre as que penso detectar, embutida no atendimento das reivindicações dos ‘caminhoneiros’ – o subsídio ao óleo diesel:
estará certo?, de cambulhada, estimular a queima do combustível que mais polui a atmosfera, cujo uso deverá reduzir-se a curto prazo e tender a zero, em favor da sobre-vivência da humanidade?
 
Eficaz, mas ilegal
 
O movimento dos ‘caminhoneiros’ e seu eficiente modo de impor as reivindica-ções das corporações e ‘cartórios’ do setor desvelou outra anomalia, perversamente co-onestada porque habitual, jamais questionada pelas autoridades e raramente pela im-prensa: o bloqueio de vias públicas por manifestantes.
É recurso eficaz, atrai atenção para os movimentos, pressiona governos.
Mas é ilegal, extrapola os legítimos direitos a greve e manifestação ao ofender outro direito igualmente garantido na Constituição, o de ir e vir.
 
Ameaça à vida
 
Quando atacam setores sensíveis, como o transporte fortemente concentrado no modo rodoviário, tais bloqueios paralisam o país. Além de obstar a mobilidade, atentam contra algo que de tão importante se costuma considerar sagrado, o direito à vida.
Convém reiterar: caminhoneiros e aliados puseram vidas em risco em hospitais a que não chegaram insumos, ameaçaram desestabilizar e agravar a violência em cidades do norte e centro-oeste ‘apagadas’ por falta de combustível nos geradores de energia, impediram o transporte de produtos para tratamento de água em várias metrópoles, imobilizaram ambulâncias e carros de bombeiros. Finalmente, não se sabe se pela mão dos próprios colegas ou de estranhos a que permitiram infiltrar-se em seus piquetes, assassinaram dois motoristas.
 
Concorrência predatória
 
Além dessas lições, a crise exige-nos identificar com precisão suas reais causas. E os seguidos e elevados reajustes do óleo diesel não motivaram o incêndio, foram só a espoleta que deflagrou a explosão.
O material inflamável fora providenciado anos antes por decisão econômica des-cuidada, imprevidente dos efeitos que geraria: a concessão de isenções fiscais e outros benefícios à produção e venda de caminhões, elevando a oferta além do que deveria absorver o mercado e provocando competição predatória entre os agentes do setor.
 
Desequilíbrio secular
 
Aquele infeliz ato governamental atendeu à pressão de um dos mais poderosos ‘cartórios’ empresariais aqui instalados, o das montadoras de veículos, associado aos dos produtores de autopeças, a outros afins e às corporações sindicais de seus empregados.
Aqui voltamos à causa remota e preponderante desta e de outras crises: a quase secular permanência do desequilíbrio intermodal no setor de transportes, em grande parte resultante da atuação desses mesmos grupos de pressão.
 
Soluções alternativas...
 
Sirva-nos de exemplo e impulso para reformar radicalmente o setor de transportes a maneira com que dois dos principais aeroportos brasileiros e uma cidade média paulista enfrentaram sem traumas a crise.
Guarulhos e Galeão, abastecidos por oleodutos, operaram normalmente e ade-mais socorreram, respectivamente, Congonhas e Santos Dumont. Indiretamente ajuda-ram os aeroportos a que se destinavam o voos, liberados com querosene suficiente para decolar de volta ou para outros locais abastecidos.
 
...e eficazes
 
O outro paradigma, Bauru, organizada urbe e influente centro regional, atraves-sou galhardamente a crise. Serviu-se, na emergência, da circunstância de receber por ferrovia uma parte significativa dos combustíveis e outros produtos que consome.
É uma rara exceção no quadro de abandono dos demais modos em favor do de-sastroso rodoviarismo. Ao lado da previdente condição dos aeroportos servidos por du-tos, a alternativa ferroviária de que se beneficiou Bauru é exemplo e argumento em favor do necessário equilíbrio intermodal nos transportes.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br


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