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Trump e a aposta no erro 25.06.2018

Podem confiar...

...em Donald Trump, leitores. Apostem sem receio: aquela avantesma, sabe-se lá por que artes de um demônio galhofeiro feita presidente da nação mais poderosa da terra, não decepcionará os seguidores, muito menos seus críticos.
Ele sempre escolherá a pior entre duas ou mais alternativas.

Normalidade ‘democrática’

Tomo emprestadada a frase, e o vício de quem faz sempre o pior, de episódio ocorrido coisa de dois anos após o golpe de estado de 1964.
Realizava-se no Rio uma Assembleia da Organização dos Estados Americanos e a ditadura incipiente pretendia coonestar-se no evento, exibir normalidade, impor a versão de que aqui se preservava a democracia.

Imprensa (quase) muda

Ainda não se censurava a imprensa, nem precisava: os militares haviam fechado a Última Hora, jornal ligado ao governo deposto, quase todos os demais os apoiavam, idem as emissoras de rádio e TV; de oposição mais ou menos declarada só o Correio da Manhã – dizia-se que tolerado para conferir aparência democrática ao regime.

Intelectuais da OEA

Ante a escassez de discordâncias abertas, um grupo de intelectuais resolveu a-proveitar o evento, sob foco da imprensa internacional, para protestar barulhentamente contra o governo autointitulado “revolucionário”.
Eram intelectuais conhecidos e admirados no Brasil e exterior. Claro, seriam presos – justo o que pretendiam, seu prestígio potencializaria a repercussão.
Ao abrir-se a Assembleia (no Palácio Tiradentes, centro do Rio) eles se reuniram em frente, atraindo a atenção dos repórteres e dos próprios chanceleres dos países-membros.

Confiança na burrice

Entre cartazes, faixas, palavras de ordem, no melhor figurino da época, logo juntou gente a aplaudir, apoiar o protesto, cinegrafistas e fotógrafos a postos. Só que passou mais de hora... e nada de prisão.
Preocupavam-se todos quando um deles, Millôr Fernandes, declarou: “Fiquem tranquilos: eu confio no Juracy Magalhães” (então ministro da Justiça). Ante o espanto, explicou: “Confiem na burrice do Juracy.”
Não deu outra, foram presos em seguida

Automatismo

Outra curiosidade da época, bem a propósito. O mesmo Juracy fora pouco antes ministro das Relações Exteriores e respondera a críticas ao ‘alinhamento automático’ do governo aos interesses de Washington com frase tristemente célebre:
“O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.”

 (Ressalve-se:...

...Juracy Magalhães, politico baiano de grande expressão nacional desde a Revolução de 1930, de que foi importante líder, tinha nada de burro e sua adesão ao autoritarismo foi episódica. Outros personagens até então impecavelmente liberais, como o mineiro Milton Campos, também apoiaram o golpe para ‘salvar a república’, dita ameaçada por fantasiosa conspiração ‘comuno-sindicalista’ (?). Juracy redimir-se-ia anos depois, opondo-se ao poder quando a ditadura escancarou-se. Desde então seus descendentes estão aí, a reafirmar a tradição política e democrática da família.)

Factoide travestido

Mas não era pra falar do presidente dos Estados Unidos? – perguntará o leitor impaciente. Peço desculpas, alonguei as reminiscências; de volta, pois.
E logo advirto: quero nem saber do factoide travestido de ‘encontro histórico’ com o ditador norte-coreano, tão ridículo em sua retórica quanto o inimigo que posa de aliado; registre-se que Kim Jong-un foi único beneficiado pela retumbante conversa de que nada resultou.

Idiota dinâmico

Mercê de um intelecto primário – se é que o substantivo próprio ‘Trump’ e o comum ‘intelecto’ podem frequentar a mesma frase –, ele passa por cima de conceitos como estado de direito, concerto internacional, além dos famosos freios e contrapesos da democracia estadunidense.
À exponencial ignorância acrescenta perigoso componente de caráter: é um idiota ativo, dinâmico (apud Jorge Cavalcante), portanto capaz de causar danos, tanto maiores quanto mais poderoso.

Combinou com os russos

Não lembrarei todas, só algumas das tramoias e trapalhadas geradas na mente doentia que jaz sob aquele topete ridículo; uma delas:
diferentemente de nosso bom Feola, treinador da seleção brasileira de 1958, in-vectivado por Garrincha numa preleção tática antes da partida contra a equipe da URSS (“O senhor já combinou com os russos?”), Trump acertou tudo com Putin e o conluio foi decisivo para derrotar Hilary Clinton.

Complexo falido

A pré-campanha com que submeteu a orgulhosa direita republicana e a subse-quente vitória nos anacrônicos colégios eleitorais valeram-se de muitas mentiras e uma fraude básica: a promessa de reversão da nova e irremovível economia planetária, que gerou nos EUA o tal ‘cinturão de ferrugem’.
A expressão sintetiza a falência de um complexo industrial pouco competitivo e agressor da natureza, por isso condenado à extinção.

Poder red neck

Trump elegeu-se com o voto iludido dos red necks, denominação pejorativa dos que trabalham sem paletó e gravata, como os operários de siderúrgicas, metalúrgicas, geradoras de energia a partir do carvão – a economia do ‘cinturão de ferrugem’.
Essa gente, frustrada pela reversão da ascensão socioeconômica que pensara e-terna, compareceu massivamente às urnas e somou votos decisivos para Trump.
Ele governa para esses mesmos red necks, que o apoiam contra tudo e todos. Resta saber se o salvarão, e seu partido, de anunciada debacle nas próximas eleições.

Tudo errado

Presidente graças à fraude, Trump não desaponta seus enganados eleitores, que por sua vez não veem alternativa senão dobrar a aposta no que não dá certo. Por isso insiste em tudo o que é retrógrado, equivocado.
Descrê do aquecimento global pelo efeito-estufa e retira-se do tratado ambiental de Paris. Reverte a tradição de livre comércio dos Estados Unidos, abre guerra econômica com a China. Descumpre acordos firmados (com o Irã e União Europeia, por exemplo), insulta os parceiros do G-7, isola e enfraquece sua própria nação.

Estranha compulsão

Pode ser a gota d’água, diria Chico Buarque, a que faz transbordar o copo já até aqui de absurdos, a cruel separação de crianças dos pais, imigrantes ilegais. Adultos são presos, deportados e seus filhos engaiolados noutro lugar.
Parece irracional a compulsão de mexicanos, guatemaltecos, hondurenhos... e brasileiros que sonham ingressar ilegalmente no paraíso hoje convertido no inferno de Trump. Pois igualmente irracional, a par de desumano, é ignorar os laços familiares.

Chantagem

Comoveram o mundo as imagens de crianças confinadas em gaiolas. Feriram ouvidos e corações, provocaram lágrimas em calejados jornalistas os apelos reproduzi-dos em áudio do menino (sete, oito anos?) que soluçava e implorava por seu pai, ou ao menos a tia...
Cenas assim excruciantes não impressionam Trump, que usou o sofrimento das crianças ‘latinas’ (‘Ora!, são só latinas’...) para chantagear o Congresso a mudar as leis de Obama.
Recuou, ante o escândalo mundial e reações internas, mas não se iludam, leito-res, sigam a apostar na irracionalidade e insensibilidade dessa avantesma, que recrudescerá no atual como em outros males.

Eu também

Antecipo resposta a prováveis cobranças: sim, como todo brasileiro, acompanho a Copa do Mundo de futebol e torço por nossa seleção – no meu jeito discreto de torcer, morigerado – diria o amigo Onaldo Pompílio.
Terei comentários a fazer, e já antecipo os suscitados pela excelente crônica de Ana Dubeux no Correio Braziliense, domingo passado. E certamente elogios e críticas ao desempenho de Tite e seus comandados – não sou exceção entre os 200 milhões de ‘técnicos’ brasileiros.

Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 



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