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Porandubas Políticas 19.09.2018

Gaudêncio Torquato

 

Abro a Coluna com um “causo” de Arandu, em São Paulo.

Empregue o plural, Zé

Arandu, em São Paulo, começou sua história como pequeno povoado, no bairro do Barreiro, no município de Avaré. Em 1898, um pedaço de uma fazenda leiteira da região foi doado para a construção de uma capela. Elevado a distrito de Avaré - SP, em 1944, recebeu na ocasião a atual denominação. Em 1964, conquistou a emancipação política. No primeiro comício, os candidatos a prefeito foram fartos em promessas. Dentre eles, o agricultor José Ferezin. Subiu ao palanque e mandou brasa:

“Povo de Arandu, vô botá agua encanada, asfaltá as rua, iluminá as praça, dá mantimento nas escola...”.

Ao lado, um assessor cochichou:

“Zé, emprega o plural”.

O palanqueiro emendou:


“E mais: Vô dá emprego pro prural, pro pai do prural e pra mãe do prural, pois no meu governo não terá desemprego”.


(Historinha enviada por Márcio Assis) 

Primórdios 

“Rastreie, vá ao encalço de homens de toda e qualquer região, passe a conhecê-los, cultive e fortaleça a amizade, cuide para que em suas respectivas localidades eles cabalem votos para você e defendam sua causa como se fossem eles os candidatos”. (Quinto Túlio Cícero aconselhando o irmão Marco Cícero, o grande tribuno, em 64. A. C., quando este fazia campanha para o Consulado de Roma)

Afunilamento

A campanha está afunilando. Depois de meses de nebulosidade, eis que os horizontes começam a clarear. Os nomes e cenários finais começam a surgir, mostrando a tendência do eleitorado composto por mais de 147 milhões de eleitores, dos quais 52% são mulheres. Jair Bolsonaro, no posto de candidato de extrema direita, consolida sua boa posição e tem ingresso praticamente certo no segundo turno. Fernando Haddad, ungido pelo eleitor de maior influência eleitoral no país, Luiz Inácio Lula da Silva, é o mais indicado para fazer companhia ao capitão. Mas pode haver, ainda, a onda do voto útil nos 15 dias finais de campanha.

Voto útil

Se a onda do voto útil aparecer - Aécio Neves se aproximou de Dilma em 2014 nos últimos dias ancorado nesse tipo de voto - é possível que Ciro Gomes ou Geraldo Alckmin ascendam ao posto que hoje é de Haddad. Para vencer Bolsonaro, as pesquisas apontam Ciro como o candidato com a maior diferença. O voto útil, se ocorrer, virá especialmente do Sudeste. São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro somam mais de 60 milhões de votos. Nesses três Estados, que formam o Triângulo das Bermudas, onde navios perdem o rumo e acabam afundando, estão as mais esclarecidas classes médias, as maiores entidades de organização social, os maiores contingentes de profissionais liberais, enfim, os mais fortes polos de voto racional.

A questão é...

Ocorre que o eleitor é pragmático. Se perceber que Bolsonaro pode levar a melhor logo no dia 7 de outubro, pode despejar seu voto na direção do capitão. Por que Alckmin não se beneficiou desse voto? Porque errou muito ao bater em Bolsonaro em vez de bater no PT, alvo principal. Não conseguiu se formar como o antídoto contra o lulopetismo. Só agora começa a bater. Parece tarde. Já Ciro Gomes deveria ter fixado mais o pé no eixo São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde estão as maiores fatias do eleitorado.

Brasil rachado

O país que irá às urnas em 7 de outubro está rachado ao meio. Seja qual for o vencedor, vai enfrentar um eleitorado dividido, com cerca de metade da população distante de sua posição. O PT, se for o vencedor, vai reabrir feridas. Os petistas habitam um pedaço do território que consideram de sua exclusiva propriedade, são vingativos, loucos para voltar a ocupar a máquina do Estado e, dessa forma, continuarão a criar um mundo à parte, escancarando as fontes que derramam bílis e sangue sobre o tecido social. Para os petistas, não foi o ciclo lulopetista que abriu o lamaçal, a partir do mensalão, e quebrou o país. Dilma foi praticamente relegada ao esquecimento, não sendo responsável pela maior recessão econômica que o Brasil enfrentou na contemporaneidade.

Quem ganhar

As projeções apontam para uma margem mínima entre os dois candidatos que chegarão ao 2º turno. Quem ganhar, terá entre 2% a 3% de diferença do perdedor. Pau a pau.

O Brasil sob Bolsonaro

Se Jair Bolsonaro for o vencedor, governará um país rachado. E se, por acaso, puser em prática sua visão extremista - com a adoção de posições radicais - vai ter problemas sérios com a base parlamentar no Congresso. O mercado poderá esperar pelas medidas liberais de seu ministro da Fazenda, Paulo Guedes, mesmo assim, sob a lupa do mercado. Quanto à visão armamentista - e liberação de armas para a população, por exemplo - é razoável apostar em ampla discussão da matéria pelos canais da sociedade. Poderá costurar uma teia de acordos com o Parlamento, mas sob o signo da desconfiança. Há militares que defendem um “autogolpe” em “caso de caos”. A recordação dos anos de chumbo será recorrente. O mito demoraria muito tempo na cabeça das pessoas?

O Brasil sob Haddad

Nesse caso, o Brasil ficará sob o império de Lula. Que mandará no governo, podendo assumir o que quiser, segundo acaba de garantir a senadora Gleisi Hofmann. Haddad já é um fantoche. E continuaria no papel caso seja o vitorioso. O Brasil do PT vai buscar medidas de caráter populista, acabando com o teto de gastos, fomentando o consumo, procurando ampliar o colchão social. Conseguirá? Os petistas vão ocupar as extensões da máquina, tentando recuperar antigos cargos e criando outros. Vai ser uma festança. As parcerias partidárias serão refeitas. Sob a teia da fisiologia. A divisão na sociedade será marcante. O ódio fluirá das destilarias fincadas no meio da pirâmide.

1º turno?

Há análises apontando eventual vitória de Bolsonaro no 1º turno, empurrado pelo “voto útil” do centro e do centro-direita. Esse voto seria um esforço eleitoral para evitar a volta do PT. Não se sabe se o capitão venceria Haddad em um 2º turno. João Doria levou no 1º turno a prefeitura de São Paulo, na esteira do temor da volta de Haddad.

Anastasia e Dilma

O senador Antônio Anastasia distanciou-se bem de seu adversário, o governador Fernando Pimentel, na campanha para o governo de Minas Gerais. Interessante é o voto do mineiro. Enquanto tende a eleger um tucano para o comando do Estado, pode levar ao Senado a ex-presidente Dilma Rousseff, que naquela Casa deve passar os primeiros tempos sob a amargura do discurso “golpista”, quando tentará repaginar sua identidade. Na verdade, vai conviver lado a lado com “os golpistas” que aprovaram seu impeachment. Será uma das boas histórias que viveremos em 2019.

Afinal, poderia?

A pergunta está na boca de juristas. Um presidente afastado perde os direitos políticos. O trambique combinado pelo ministro Ricardo Lewandovski e o então presidente do Senado, Renan Calheiros, teria sido uma afronta ao Direito. Garantem eminentes juristas.

A norma? Ora, bolas

Alguns candidatos continuam a usar os velhos métodos de propaganda eleitoral. Principalmente na parte da fala do povo. Muita fajutice. O PT, por exemplo, mostra no programa do Haddad uma senhora, Cleide da Rocha, que diz ter sido cortada do Bolsa Família. A mulher aparece chorosa. Só que recebeu R$ 269 em agosto. Deixará doravante de receber por ter renda de beneficiários superior ao limite. Um blefe. Mas a Justiça Eleitoral só age ante as denúncias sobre os malfeitos.

Falso

Circula no Facebook a imagem de um “levantamento” que teria sido feito pelo Instituto Paraná Pesquisas, dando a Jair Bolsonaro mais de 50% das intenções de voto nos Estados do Brasil, exceto Ceará e Alagoas. A imagem informa que pesquisa foi registrada no TSE. Usuários do Facebook solicitaram que o material fosse analisado. O site Lupa analisou. É falso. O último levantamento do Paraná Pesquisas foi em 12 de setembro, mostrando Bolsonaro com 26,6% das intenções de voto. Não há qualquer discriminação de percentuais por Estado nesse estudo.

Os ciclos da política

Um dos maiores pensadores belgas, o jornalista e cientista político David Van Reybrouck, em um livrinho intitulado Contra as Eleições, lembra os ciclos da política:

1- Antes de 1800


Do período feudal à época absolutista, comanda a aristocracia.
O poder pertence ao soberano. Atribui-se sua autoridade à origem divina. Com conselheiros nobres (cavaleiros, membros da corte), ele dita as leis.
Não há esfera pública.

2- 1800


A Revolução Norte-Americana e a Francesa limitam o poder da aristocracia e instauram eleições para dar voz à soberania popular. A autoridade não vem mais do alto, mas de baixo. O direito a voto é ainda restrito à elite. O debate público acontece, sobretudo, nos jornais.

3- 1870-1920


Duas evoluções cruciais por toda parte: surgimento de partidos políticos e instauração do sufrágio universal. As eleições tornam-se uma luta entre grupos com interesses divergentes que procuram representar a maior fatia da população possível.

4- 1920-1940


A crise econômica do período entre-guerras coloca a democracia representativa em alta-tensão. Caem disjuntores aqui e acolá. Experimentam-se novos modelos políticos: o fascismo e o comunismo sendo os principais deles.

5- 1950


A democracia representativa é surpreendentemente reestabelecida. O poder está nas mãos dos grandes partidos políticos. O contato com o cidadão é feito através de uma série de organismos intermediários (sindicatos, corporações, em alguns casos estabelecimentos de ensino e mídias privadas). Há grande fidelidade partidária e os resultados das urnas são previsíveis. A mídia (rádio e televisão) pertence ao Estado.

6- 1980-2000


Dois desenvolvimentos decisivos: desfazem-se os organismos intermediários e a mídia comercial ganha poder. O sistema eleitoral torna-se instável. À medida que a esfera pública se preenche com atores do setor privado (a mídia pública também adota a lógica do mercado), deteriora-se a fidelidade partidária. Os partidos políticos não são mais os principais representantes da sociedade civil, e sim meros órgãos da periferia do aparelho do Estado. As eleições transformam-se em uma disputa midiática para conquistar eleitores (indecisos).

7- 2000-2020


As redes sociais e a crise econômica colocam a democracia representativa novamente sob pressão. A nova tecnologia traz autonomia, mas coloca o jogo eleitoral sob ainda mais pressão: a campanha eleitoral tornou-se permanente. O exercício do poder sofre de febre eleitoral, sua credibilidade está sempre à prova. A partir de 2008, a crise financeira joga mais lenha na fogueira. Prosperam o populismo, a tecnocracia e o antiparlamentarismo.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato
 



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