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Populismos, liberdade e outras li√ß√Ķes da hist√≥ria 30.10.2018

Marco Antônio Pontes

 

 Que país é esse?

 
Imagine, leitor, um país que há coisa de seis décadas conseguira integrar-se terri-torial, política e culturalmente, iniciando um tempo de crescimento econômico e conso-lidação institucional.
Não que tudo fossem flores, houvera percalços, retrocessos, até convulsões, mas o futuro parecia alvissareiro. Remanesciam, porém, feridas mal curadas de recentes e dolorosos traumas, que afinal cobraram seu preço: acumularam-se frustrações, o povo já não se sentia representado pelos partidos e políticos tradicionais.
Assim foi que de repente as instituições democráticas foram desafiadas por um líder populista, vindo de obscuros porões em que se cultivavam ódios e ressentimentos; nas circunstâncias, seu discurso correspondentemente raivoso pareceu encarnar a insa-tisfação geral.
As pessoas ignoraram-lhe a falta de propostas claras, afirmativas, deixaram-se conduzir na busca de bodes expiatórios dos males que as afligiam: o demagogo era con-tra ‘raças’ diferentes da sua, contra homossexuais, contra a diversidade.
Foi assim que um populismo tosco, indigente de ideias e projetos, exacerbou o radicalismo e para chegar ao poder assumiu o lugar da extrema direita – que, pressurosa, concedeu-lhe mais e mais espaços.
 
Lições da história
 
O leitor provavelmente associará a descrição da nota anterior ao Brasil de hoje. Eu também o faria.
Mas convido-o a recordar a história da Europa na primeira metade do século XX e buscar interpretação alternativa: encontrará na Alemanha de 1933 um populismo ideo-logicamente mal ajambrado que se valeu das frustrações da guerra recentemente perdida, de longa e severa crise econômica, do desprestígio dos políticos ‘antigos’, tudo para tornar majoritário no parlamento um subestimado Partido dito ‘Nacional-Socialista’, depois conhecido pela sigla Nazi.
Consequentemente seu líder, então um obscuro, intelectualmente primário ex-militar, chegou ao poder e tornou-se tragicamente célebre sob o nome Adolf Hitler.
 
Bons tempos...
 
Sim!, leitor, os tempos são outros, palavras e expressões como ditadura, estado autoritário, censura, golpe e respectivos conceitos estão banidos do léxico e práticas políticas atuais, inclusive no Brasil.
Aqui o estado de direito, arduamente conquistado, não sofre contestações há mais de três décadas, as instituições seguem imperfeitas mas funcionam razoavelmente.
 
...ou nem tanto
 
Longe de mim profecias catastróficas. Mesmo assim lembro que a Europa dos anos 1930 contava pelo menos um século de persistente evolução democrática nas na-ções mais expressivas – a Alemanha incluída.
E foi justo na pátria do racionalismo que o irracionalismo ganhou corpo e de-sembocou no improvável o nazismo, que encantou seu povo com promessas de glória e entregou-lhe ruínas, humilhação e opróbrio.
Além de provocar a guerra mais destrutiva da história, dezenas de milhões de vidas sacrificadas – inclusive o ignóbil holocausto de judeus, eslavos, ciganos...
 
Liberdade vigilante
 
Contrariamente à frase feita, quero crer que as coincidências entre a desastrosa ascensão de Hitler e o perverso fenômeno Bolsonaro sejam só isso: meras coincidências. Porém, gatos escaldados, haveremos de ter medo até de água fria.
Convém por as barbas de molho e atentar para o que disse Thomas Jefferson, recordado nesta semana:
“O preço da liberdade é a eterna vigilância”.
 
Talento golpista
 
Pouco importa haja servido a frase, noutros tempos, a outros e menos nobre pro-pósitos, quando o malfadado Clube da Lanterna, liderado por Carlos Lacerda, usou-a para preconizar golpe de estado que impedisse Juscelino Kubitschek de confirmar o favoritismo nas eleições presidenciais de 1955.
Lembro até uma boutade de Lacerda que bem reflete seu enorme talento, embora em malévola empreitada: “Kubitschek não pode ser candidato; candidato, não haverá de eleger-se; eleito, não tomará posse; empossado, terá que ser deposto.”
 
Combate ao retrocesso
 
Hoje se resgata a recomendação de Jefferson em seu exato conteúdo. Se confir-mada a eleição do ex-capitão, será preciso vigiar (e orar, quem tem fé) para que os ar-roubos autoritários de seu discurso fiquem na retórica eleitoreira, encerrem-se com a contagem dos votos, não se convertam em projetos de governo.
Se insistir, e transformar em políticas de governo a pregação retrógrada em temas ambientais, educação (tem um general, dito futuro ministro, que pretende ensinar criacionismo!, o mito de Adão e Eva nas escolas!), economia, questões comportamen-tais... – então haveremos de redobrar a vigilância, organizar a oposição e legalmente, democraticamente combater o atraso.
 
Nada de bom
 
Cláudio Machado aprova a crítica que fiz na semana passada de nossa tragédia anunciada e preocupa-se:
– Vamos ver que rumo tomará nosso país...
Aproveito-lhe o mote: vença Bolsonaro ou Haddad, ambos empenhados em campanhas populistas de escassas propostas, teremos nada de bom à frente.
Na mais provável (e pior) hipótese – afora reversão de última hora –, enfrentaremos obscurantismo empenhado em reeditar aqueles ‘anos de chumbo’.
Entretanto, convido Cláudio e demais leitores a um breve retrospecto histórico.
 
Populismos vencidos
 
A sociedade brasileira já venceu o populismo petista nas urnas de 1998, 1994, 1989 (quem sabe? naquele primeiro embate teria sido melhor testá-lo, em vez de seu equivalente collorido...). Depois o afastamos via impeachment quando exacerbou o aparelhamento do estado, a incompetência, a corrupção.
Também superamos populismos outros, tão ou mais iníquos: Collor em 1992, Jânio em 1961 (este nem precisou de impeachment, impediu-se na própria loucura), Vargas em 1945...
 
Populistas no poder
 
Populismo é vício malévolo e persistente. Quando o supomos extirpado ele res-surge livre, leve e solto em insuspeitadas ocasiões. Até o autoritarismo pós-1964 cedeu à tentação, para horror de Cordeiro de Farias, Golbery, Castelo e outros generais-intelectuais: pois não tentaram popularizar ‘seu Artur’, o linha-dura Costa e Silva?, Médici com seu ‘rádio de pilha’ no ouvido em jogos do Flamengo e Grêmio?, Figueiredo chamado “João sem medo” pelos puxa-sacos de plantão?
Custou caro, mas ultrapassamos tudo isso; não se faz história sem sofrimentos, retrocessos... e superação, avanços.
 
Solução ‘natural’ (?!)
 
Uma querida amiga condoeu-se de minhas angústias e acenou-me pálido, quase cínico consolo:
Anime-se!, pior que seja o resultado desta eleição, sairá derrotado um dos polos populistas que infelicitam o Brasil: ou o que se finge esquerdista depois de destroçar nossa legítima esquerda, ou o que resgata a indigente direita brasileira do lixo histórico do qual nunca deveria ter saído.
 
Ex-esquerda desastrada
 
Em diferente contexto mas pertinente ao atual impasse, registro manifestação de Clemente Rosas sobre diálogo entre Everardo Maciel e este velho escriba, a propósito de esquerda e direita no Brasil: 
– Quem bem conceituou os petistas e parceiros foi o senador Cristovam Buarque: trata-se de eXquerda [ex-esquerda], a grande responsável pelo desastre iminente. Nada a ver com os heroicos militantes do inglório ‘combate nas trevas’ que, mesmo equivocados, merecem nosso respeito.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 
 
 


ABC POLITIKO - LINHA DIRETA COM O PODER
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