Brasília, 14 de Novembro de 2018
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O choro é livre, não o ranger de dentes 03.11.2018

 Marco Antonio Pontes

 
Populismos vencedores
 
Agora é chorar o leite derramado.
Foram várias as oportunidades de evitar a disputa final entre os extremos, todas perdidas em função do personalismo, oportunismo de candidatos ditos de centro (com nuances à esquerda e à direita) e da miopia estratégica de seus partidos.
Houve condições para um amplo acordo, mas os líderes não conseguiram ou li-minarmente recusaram conversar a sério para unir forças que evitassem a desastrosa dicotomia entre populismos simétricos, igualmente iníquos.
 
Final antecipado
 
Na verdade a eleição decidiu-se no primeiro turno, quando as pesquisas de intenção de voto (afinal confirmadas) desenharam situação inusitada: entre cinco postu-lantes aparentemente viáveis despontaram justo os dois que acumulavam os maiores índices de rejeição.
Logo se percebeu que ambos alimentavam perspectiva igualmente esdrúxula: cada um só venceria seu homólogo, ante a repulsa do eleitorado a cada qual.
A ‘dar nome aos bois’: Bolsonaro perderia para Ciro, Alkmin, Marina porém venceria Haddad e este, analogamente, só poderia derrotar o ex-militar.
 
Surdez, cegueira
 
Era tudo tão claro... e quem precisava entender passou ao largo da realidade que gritava aos ouvidos, escancarava-se aos olhos.
De um lado engajava-se o populismo petista e sua retórica que usurpa e falseia preceitos da esquerda. Mesmo esvaziado, o discurso mobilizava a militância, mas apenas isso: Lula e acólitos já não convenciam sequer os aliados tradicionais exceto um, o inamovível ex-comunista Partido (ainda dito oficialmente) Comunista do Brasil.
 
Perdeu. Mas...
 
Ademais o PT, impenitente, estabelecia os objetivos na campanha: (1) tirar Lula da cadeia, (2) tirar Lula da cadeia, (3) tirar Lula da cadeia e... (n) tirar Lula da cadeia e se possível salvar alguma coisa do antigo esplendor.
A meta prioritária, por definição inexequível, viciou irremediavelmente a candi-datura presidencial petista mas serviu em parte ao projeto subsidiário: se perdeu subs-tância eleitoral, o partido elegeu a maior bancada da Câmara e não fez feio na do Sena-do, tudo porque os concorrentes tradicionais, PSDB e MDB, perderam ainda mais.
 
...não queria perder?
 
E não custa conjeturar: Lula não teria preferido a derrota de Haddad?, simples-mente para banir um possível concorrente a seu reinado no PT?
 
 ‘Aluguel’ de mandatos...
 
Outra circunstância decisiva nos rumos da campanha foi a memória dos des-mandos, desvarios e maracutaias sob o governo Lula, que os adversários atribuem ‘à esquerda’ – puro lance de marketing, populismo tem nada a ver com ideologia e a direita sabe disso.
São fatos recentes, frequentam a opinião pública: o ‘mensalão’, torpe ensaio de garantir apoio parlamentar via ‘aluguel’ de mandatos, deu partida à debacle ética do PT, exposta a miséria moral de quase todos os seus principais líderes.
 
...não foi acidente
 
Em seguida as revelações da Operação Lava a Jato, de que se concediam favores a empresários (os tais ‘campeões nacionais’) em troca de propinas para alavancar o PT e enriquecer seus caciques, derrubaram a restante credibilidade de Lula e liderados, prin-cipalmente pela constatação de que não foi acidente, tropeço de militantes e-ou dirigen-tes transviados, antes um deliberado e sistemático esquema de corrupção concebido e executado pela cúpula partidária.
Repita-se: aconteceu anteontem.
 
Conservadorismo indigente
 
Enquanto isso o outro lado aproveitava-se de triplo vácuo: o desastre petista, a impopularidade de Temer e seu MDB e a falência do PSDB, este engolfado nas trampoli-nagens de Aécio et caterva. Assim crescia o populismo hoje dito bolsonarista, que mui canhestramente assumira o discurso conservador.
Com alguma relutância e muito oportunismo a direita tradicional aceitava-o, malgrado a indigência dos conceitos e propostas que não faziam justiça ao conservado-rismo estabelecido; seus mestres mais ilustres, de Francisco Campos a Golbery, de Eu-gênio Gudin a Roberto Campos haveriam de espantar-se com a desenvoltura com que se desvirtuavam (e impulsionavam-se!) suas ideias e projetos.
 
Carreira controversa...
 
A avalanche populista que elegeu Bolsonaro, produto de campanha atípica fundada em informações não aferíveis em redes sociais, ocorreu apesar das conhecidas fragilidades do candidato.
Desde a precoce e ainda não devidamente esclarecida passagem para a Reserva do Exército, consta que por suspeita de envolvimento no surto terrorista que tentava impedir a redemocratização nos anos 1980, sua carreira é controversa e frequentemente objeto de críticas acerbas.
 
...por fundados motivos
 
E, convenhamos, ele deu motivos: defendeu a ditadura e os crimes cometidos em seus porões, homenageou o mais conhecido torturador daqueles tempos, menosprezou as mulheres, ofendeu uma colega deputada e ao fazê-lo sugeriu justificar eventual estupro, foi preconceituoso em relação aos homossexuais (“Prefiro filho morto a filho gay”) e racista ao equiparar quilombolas a animais (“Tem um que pesa mais de oito arrobas, não presta nem pra reprodutor”)...
 
Memória curta
 
Nada disso parecia impressionar seus adeptos. Tento compreender:
talvez suas inaceitáveis declarações, muitas nem tão recentes, já tenham sido es-quecidas nesta nação de memória reconhecidamente curta;
ou, quem sabe? a maioria do eleitorado concorde com elas, e em tal caso será menos democrata e tolerante do que fazem crer os louvores que políticos, intelectuais (jornalistas incluídos) costumam endereçar ao ‘povo’, esse ente quase místico cultuado pelos populistas.
 
Erros recentes
 
O certo é que Jair Bolsonaro conseguiu superar até as inconveniências, absurdos proferidos há pouco tempo, em plena campanha eleitoral.
Pois ele não justificou a discriminação das mulheres no mercado de trabalho?, não ameaçou os insatisfeitos com prisão ou exílio?, não ‘acusou’ o maior jornal brasileiro de fazer-lhe oposição e prometeu excluí-lo das verbas publicitárias do governo? (como se uma coisa tivesse a ver com a outra...).
 
Trajetória ascendente
 
Nada disso pareceu impressionar a maioria. O ex-capitão conseguiu pouco a pouco, ao longo de quatro anos, amealhar simpatizantes que se multiplicaram e trans-formaram-se em eleitores fiéis.
Desde as primeiras pesquisas até a vitória com expressivos 57 milhões de votos, passando pelo primeiro turno em que desmentiu aparentes favoritismos, ele soube con-quistar e conservar apoios.
 
Atentado revertido
 
Nisso acabou ajudado pelas consequências do ignóbil atentado que sofreu em Juiz de Fora e quase lhe tirou a vida.
Primeiro, o fato concedeu-lhe status de herói, com espaço prolongado e quase exclusivo nos veículos de comunicação, em momento decisivo do processo.
Daí ao fim da campanha, convalescente, pôde esquivar-se dos debates na televi-são, nos quais suas vulnerabilidades poderiam ser exploradas, sem reprovação pela ausência.
 
Meia verdade
 
Durante toda a campanha eleitoral os analistas tentaram explicar as razões do ‘fenômeno Bolsonaro’.
Predominou uma conclusão: ele encarnou como nenhum outro postulante o anti-petismo, objeto de majoritária rejeição do eleitorado – maior ainda que a carregada pelo próprio Bolsonaro.
É verdade, porém não toda a verdade.
 
Onda conservadora
 
Talvez mais importante tenha-lhe sido a habilidade em surfar a onda conservadora que varre o mundo e no Brasil conjuga-se, primeiro, à justa repulsa a sucessivos governos ditos ‘progressistas’ e incompetentes, corruptos e depois ao conservadorismo de grande parte da população, infelizmente eivado de intolerância, tudo agravado pela insegurança, a violência, o crime que o estado não tem sido capaz de controlar.
 
Choro, ranger de dentes
 
Enfim..., Roma locuta, causa finita – interpreto livremente o dito latino, para a ocasião: o eleitor falou, acabou a eleição.
Nada de ‘terceiro turno’, como aparentemente sugeriu o candidato derrotado no primeiro pronunciamento pós apuração.
Choremos o leite derramado, os que desejávamos alternativas outras no segundo turno, mas sem de ranger os dentes.
Apreste-se a oposição à vigilância e crítica do futuro governo, à formulação de alternativas a seus projetos, preferentemente livre de compromissos com políticos presos porque condenados conforme a lei.
 
Fala o estadista
 
Encerro estas lucubrações com uma frase de Barack Obama, inspiradora nesta quadra de tantas decepções.
(Se não o fizera antes, Obama credenciou-se à condição de estadista de nosso tempo no discurso em que reconheceu a derrota de seu partido nas eleições de 2016 – e perdeu para aquela avantesma!)
Pois ele conseguiu ser elegante e, muito mais, irrepreensivelmente democrata:
“Estou ansioso para fazer tudo o que puder para que o próximo presidente tenha sucesso.”
 
Marco Antonio Pontes, jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 
 


ABC POLITIKO - LINHA DIRETA COM O PODER
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