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Porandubas Políticas 19.12.2018

Gaudêncio Torquato

 

Abro a coluna com o verbo da Bahia.

 
Cosme de Farias foi um grande advogado dos pobres da Bahia. Enveredou também pela política. Vereador e deputado estadual por muito tempo. Vejam a historinha.
 
Um ladrão entrou na Igreja do Senhor do Bonfim e roubou as esmolas. Cosme de Farias foi para o júri:
 
– Senhores jurados, não houve crime. Houve foi um milagre. Senhor do Bonfim, que não precisa de dinheiro, é que ficou com pena da miséria dele, com mulher e filhos em casa com fome e lhe deu o dinheiro, dizendo assim:
 
– Meu filho, este dinheiro não é meu. Eu não preciso de dinheiro. Este dinheiro foi o povo que trouxe. É do povo com fome. Pode levar o dinheiro.
 
E ele levou. Que crime ele cometeu? Se houve um criminoso, o criminoso é o Senhor do Bonfim, que distribuiu o dinheiro da Igreja. Então vão buscá-lo agora lá e o ponham aqui no banco dos réus. E ainda tem mais. Senhor do Bonfim é Deus, não é? Deus pode tudo. Se ele não quisesse que o acusado levasse o dinheiro, tinha impedido. Se não impediu, é porque deixou. Se deixou, não há crime.
Cosme de Farias ganhou no verbo. O réu foi absolvido.
 
A quebra de paradigmas I
 
O ano chega ao final sob inacreditável queda de paradigmas na esfera da política e de processos em seu entorno. O mais evidente foi o rompimento das teias de vetores que sustentam (ou não mais) o marketing político. A visibilidade de candidatos, até então fruto da comunicação eleitoral – tempos de TV e rádio – garantida aos partidos, não foi elemento decisivo na campanha. Quem esperava alta visibilidade e, por conseguinte, melhor condição para convencer o eleitor a lhe dar o voto, quebrou a cara. Quem teve maior tempo de TV, entre os candidatos presidenciais, foi Geraldo Alckmin, que teve votação menor que a do cabo Daciolo.
 
A quebra de paradigmas II
 
O Fundo Partidário chegou a R$ 1,7 bilhão. A ideia dos caciques foi a de aumentar os recursos do Fundo como forma de fazer uma repartição que viesse a beneficiar os candidatos mais poderosos e tradicionais dos partidos. Ou seja, as cúpulas partidárias. E isso foi feito. Sem resultados. Pelo menos um grupo dos mais endinheirados acabou na rua da amargura. Perdeu feio. E candidatos que quase não puseram a mão no bolso ganharam assento no Parlamento e nos Executivos estaduais. Ou na cadeira principal do país, caso de Jair Bolsonaro.

A quebra de paradigmas III
 
Praticamente o eleitor deu costas aos costumes da velha política. Não se encantou com os abraços, apertos de mão, pedidos de voto, feitos de maneira tradicional. Muitos perfis nem tiveram tempo de burilar suas imagens. Foram surpreendidos com extraordinária votação, caso dos eleitos governadores Zema, de Minas Gerais, Witzel, do Rio de Janeiro e outros. Os ventos sopraram na direção de figuras que incorporaram as prementes demandas sociais. O eleitor deu um tchau ao déjà vu.
 
Reconstrução
 
Nos Estados, forma-se um novo batalhão de protagonistas da política que deverão fincar estacas para garantir suas posições. Os antigos vão acompanhar as operações dos novos com um olho no próximo pleito municipal, em 2020. Será a luta da vanguarda contra a retaguarda.
 
Lição ficará
 
As lições dadas pelo eleitor no pleito deste ano permanecerão nas páginas da história. É evidente que os velhos políticos tomaram susto. Muitos vão mudar, outros tentarão voltar ao cenário envergando a velha vestimenta. Mas o eleitor descobriu mesmo a força de sua vontade. A urna será sua arma letal doravante. O país abre um novo ciclo. Os partidos também levaram uma surra, com exceção de pequenas siglas – PSL, Novo – que apareceram bem na fita eleitoral. O PSL fez a segunda maior bancada na Câmara, 52 deputados. Se souber aproveitar seu cacife, será fortalecido. Mas sua direção precisa de oxigênio. O Novo tende a crescer.
 
Fazendo a reforma
 
A tão propalada reforma política continuará no rol de promessas. Verdade é que alguns passos já foram dados. Proibição de doação de recursos por parte de empresas, adoção da cláusula de barreira, proibição de coligações proporcionais integram o acervo de algumas decisões já tomadas. Mas há muito mais a fazer. A novidade é que o eleitor está fazendo a reforma, a seu modo. Se os políticos não querem fazê-la por completo, o eleitor continuará mudando aqui e ali, sob a égide de seu poder, o voto.
 
Estilo
 
O estilo bolsonaro se revela. Na gestão, força para a descentralização. Na estética, reforço à identidade militar. A continência, maneira de homenagear o interlocutor. Um ministério cheio de militares. Na semântica, frases incompletas, onomatopeias, certos cacoetes o aproximam do homem comum.
 
Ênfases
 
Ênfases ficam por conta de expressões em defesa da família e, em matéria de relações externas, alinhamento incondicional com os Estados Unidos; afastamento do Brasil de Nações comprometidas com o ideário dos direitos humanos, compreendendo, entre outras coisas, acolhimento sem restrições a imigrantes que vivem em estado de carências em seus países. Sinalização com a promessa do chanceler escolhido, Ernesto Araújo, de tirar o Brasil do Pacto Global de Migração, assinado por 164 países. Identidade conservadora nos costumes e nas relações internacionais vem sendo burilada com estridência.
 
A fama e a lama
 
Tenho lembrado que o patamar da fama fica a um milímetro do patamar da lama. João de Deus sai de um para outro. Ninguém é considerado culpado até o trânsito em julgado – diz nossa Constituição. O médium, que teria feito centenas de curas, padece agora no banco dos acusados. A Justiça tem de apurar as denúncias que se multiplicam contra ele. Já são mais de 400. E os relatos são muito contundentes. E plenos de fatos sequenciados. Seria tudo isso “armação”, como ele alega? Contra um sujeito idolatrado? Trata-se de um caso emblemático. Uma personalidade glorificada cai no despenhadeiro da má fama.
 
Cesare Battisti
 
O italiano, que recebeu de Lula o passaporte da liberdade, no último dia de seu governo, está foragido depois de receber do presidente Michel a extradição para a Itália. Foi condenado na Itália por crimes perpetrados no passado. A PF está em seu encalço. Será que já escapuliu? Temos quase 17 mil km de fronteiras com dez países na América do Sul.
 
A faca no sistema S
 
O futuro ministro da Economia Paulo Guedes afirma ser necessário “meter a faca no Sistema S também. Estão achando que a CUT perde o sindicato, mas aqui fica tudo igual? Como vamos pedir sacrifício para os outros e não contribuir com o nosso”? CNI e FIESP deverão liderar as batalhas para manutenção do sistema. Promete que empresários parceiros sofrerão menos cortes. Reitera necessidade de formar um pacto federativo envolvendo políticos das esferas estaduais e municipais. Garante que “o toma lá dá cá” acabou.
 
Onde está Skaf?
 
Paulo Skaf, que mais uma vez perdeu as eleições, está recôndito. Não tem aparecido, como é seu feitio, no cenário político-institucional. Por onde andará? Até que seria um bom nome para disputar o pleito municipal de São Paulo em 2020. Skaf, não desista. Na política, a menor distância entre dois pontos nem sempre é uma reta como na geometria euclidiana. É uma curva. Lembrete: FHC perdeu um pleito para a prefeitura paulistana. Ganhou, mais adiante, as eleições presidenciais.
 
Doria e seu ministério
 
O governador eleito de São Paulo, João Doria, compõe um Secretariado de nível ministerial. Do governo Temer, traz 7 ministros. Um feito. Henrique Meirelles é o perfil de maior evidência. João começa a ler, hoje, as páginas do amanhã. É um obstinado. Vai adiante em sua meta.
 
Afif
 
Guilherme Afif é um dos mais qualificados homens públicos do país. Empresário, liderou por muito tempo a esfera dos micro e pequenos empresários. Foi presidente da Associação Comercial de São Paulo (duas vezes) e da Federação das Associações Comerciais; foi candidato à presidência da República e ao Senado Federal; foi vice governador de SP e deputado Federal constituinte. Acaba de deixar o comando do Conselho do SEBRAE nacional. Como se vê, Afif é um tocador de muitos instrumentos. Com essa imensa bagagem, dará suporte a Paulo Guedes no “board” que o ministro da Economia está criando. Ambos são velhos amigos, desde a campanha presidencial de Guilherme. Um gol de placa no campo liberal de Bolsonaro.
 
A ambição pelo poder
 
Robert Lane, em Political Life, que explica como a ambição desmesurada pelo poder funciona como um bumerangue. “A fim de ser bem-sucedida em política, uma pessoa deve ter habilidades interpessoais para estabelecer relações efetivas com outras e não deve deixar-se consumir por impulsos de poder, a ponto de perder o contato com a realidade. A pessoa possuída por um ardente e incontrolável desejo de poder afastará, constantemente, os que os que a apoiam, tornando, assim, impossível a conquista do poder”.
 
E Hartung, hein?
 
Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo, é considerado um dos melhores quadros do país. Sua performance na administração capixaba é muito elogiada. Teria passaporte para integrar qualquer governo.

E Arthur?
 
E para onde irá o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio? Fundador do PSDB, ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República no governo de Fernando Henrique Cardoso e líder da oposição no Senado ao governo do ex-presidente Lula, o prefeito afirma que o resultado das eleições no primeiro turno pôs sua legenda num papel secundário e que está pouco esperançoso com o futuro do partido. Virgílio avalia abandoná-lo após quase 30 anos e pensa em formar um novo partido.
 
Promotor
 
Participando de uma solenidade na cidade de Jardim de Piranhas, no Seridó/CE, o senador Dinarte Mariz é ovacionado por dezenas de pessoas. Uma festa de popularidade. Integrando o evento, um jovem promotor público é apresentado ao “Velho Dida”, apelido carinhoso dado ao senador. O cumprimento passa da formalidade.
 
– Senador, eu soube que o senhor teve pouco estudo. Imagino se tivesse estudado, o que o senhor não seria, hein? – comenda o promotor, sem qualquer má-fé.
 
Com seu jeito espontâneo e inteligência na produção de frases lapidares, instantaneamente Dinarte emenda:
 
– Seria promotor em Jardim de Piranhas...
 
(Carlos Santos – “Só Rindo 2”)
 
 
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato


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