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Um brasileiro cordial 31.12.2018

Marco Antônio Pontes 

 

 
Luiz Carlos Sigmaringa Seixas
 
Há pouco mais que três anos apelei ao amigo Luiz Carlos – ao qual a imprensa prefere referir-se pelos sobrenomes, de expressão incomum e sonora – para que me in-termediasse um encontro com Lula. Eu recebera encomenda difícil e delicada: escrever longo artigo para uma revista portuguesa sobre o que ocorria no Brasil pré-impeachment da senhora Rousseff. Concomitantemente, o amigo Ronaldo Junqueira encarregara-me de editorial, em correlata abordagem, para a edição seguinte do JORNAL DA COMUNIDA-DE (07-13.11.2015).
 
(Anos antes encontrara-me fortuitamente com Luiz Carlos no aeroporto de Bra-sília; esperávamos amigos na área de desembarque e enquanto conversávamos chegou primeiro o dele, o ex-presidente. Seguiu-se a apresentação formal: “Lula, este é meu velho amigo Marco Antônio...” e um rápido diálogo: “Já nos conhecemos – eu disse –, encontramo-nos em Paulínia, junto como Jacó Bittar [então presidente do Sindicato dos Petroleiros] e depois aqui, no Sindicato dos Jornalistas.” Lula respondeu de bate-pronto: “É... eu me lembro...” – e apressou-se, dirigindo-se ao amigo: “Vamos?” Não lembrava, claro; nem teria por quê.)
 
Conheci Luiz Carlos Sigmaringa Seixas em 1975, por intermédio do amigo comum Nilton Correia, advogado e jornalista, meu colega no Diário de Brasília. Ele convidara-me a testemunhar na Bahia seu casamento com Jane, ao qual também convocara dois outros amigos: Ricardo (esqueci o sobrenome; perdão!) e... Luiz Carlos.
 
Foi uma bela festa, aliás belíssima sucessão de festas, como soe acontecer na Bahia e os três convidados de Brasília encarregamo-nos de prolongar os festejos em alguns dias de esticadas por praias e bares.
 
Meu seguinte encontro com Luiz Carlos ocorreria no ano seguinte; foi menos festivo e mais denso, dadas as motivações. Criava-se em Brasília do CEBRADE – Centro Brasil Democrático –, inciativa de economistas, advogados e outros profissionais ditos ‘liberais’, jornalistas, acadêmicos, intelectuais de variada estirpe, artistas, sindicalistas recentemente autoemancipados do controle da ditadura – eu entre eles, membro da dire-toria de nosso Sindicato.
 
O objetivo era aglutinar pessoas e ampliar forças na luta pela redemocratização, acrescida de reivindicação local: a representação política dos cidadãos do Distrito Federal, que viria a integrar a pauta da campanha (então apenas sonhada) pela eleição direta do presidente da República.
 
Figura de proa na instituição do CEBRADE foi o presidente da seção regional da Ordem dos Advogados do Brasil, Antônio Carlos Sigmaringa Seixas; secundava-o o filho Luiz Carlos, ainda jovem e já calejado combatente da democracia, forjado na defesa de presos políticos, entre outras frentes.
 
Foi intensa, naquela quadra a nossa convivência, para mim muito proveitosa e agradável. Luiz Carlos, como a imprensa tem justamente registrado, era por natureza afável, cortês, propenso à convivência e conciliação entre contrários, embora não transi-gisse quanto a princípios. Tais qualidades haveriam de sobressair-se mais tarde, em sua carreira parlamentar, como hoje revela a imprensa. Com seu jeito discreto, garantiu lugar na história ao lado dos melhores políticos de nosso tempo, os que encaram a política como nobre missão de buscar o bem comum, sobrepondo-o aos interesses pessoais e grupais – mesmo os legítimos.
 
O CEBRADE pouco sobreviveu ao êxito de suas propostas, inclusive as locais: a plena cidadania dos brasilienses, que passamos a escolher diretamente nossos dirigentes e representantes; antes, simplesmente não votávamos.
 
Nas últimas quatro décadas estive com o querido amigo muito menos do que gostaria. Nossas conversas, entretanto, sempre fluíram bem, soltas e amenas quase todas, algumas vezes algo tensas ou tristes, mas sempre retomadas como se continuassem as da semana anterior, embora os intervalos contassem-se em meses, ocasionalmente até anos.
 
Alguma tensão houve nos encontros, a maioria por minha iniciativa, durante a presidência de Itamar Franco, para trocar informações sobre os rumos da nação naquele período crítico e por isso mesmo criativo em que ocorreu a formulação e início de im-plementação do Plano Real. Havia conflitos internos entre os apoiadores do governo, e eu sabia que ele agia tenazmente para aparar arestas e promover entendimentos.
 
Luiz Carlos integrara na Assembleia Constituinte a bancada do PMDB, depois reelegera-se pelo PSDB; incomodava-o a luta surda entre os dois partidos pela hegemonia nos grupos parlamentares que apoiavam do governo.
 
O primeiro, partido originário de Itamar, julgava-se no direito de sucedê-lo e quase lhe exigia a indicação. Por sua vez os tucanos apostavam em seu líder emergente, Fernando Henrique, que articulara apoios desde a bem sucedida passagem pelo Palácio dos Arcos e acentuara as démarches no curto período em que comandou a economia, quando já se finalizava o formato do Real.
 
Longe de dificultar-lhe a persistente articulação, a dupla condição de ex-peemedebista e importante deputado do PSDB permitia-lhe dialogar com gregos e troianos. Em grande medida deveu-se a sua atuação, discreta e eficaz, que ambos os partidos continuassem mais ou menos pacificamente a integrar a base congressual do governo e a defesa do Plano Real.
 
Por isso nossas conversas naquele período pontuaram-se de alguma tensão. Não que o procurasse a ‘caitetuar’ apoios ou buscar inside information, nem Luiz Carlos pretenderia ‘converter-me’, muito menos espionar intimidades do governo Itamar. Mas precisávamos ter cuidado com as palavras, sequer dar impressão de assumir lados naquele conflito subterrâneo; ao mesmo tempo não admitíamos turvar nossa cristalina, antiga amizade.
 
Ouso acreditar que, naquele momento decisivo, contribuímos para manter a paz, evitar ‘fogo amigo’ entre os mais perigosos contrários – os mais próximos entre si. As intervenções quase sempre oblíquas, não raro despercebidas do brilhante articulador terão sido decisivas para assegurar a harmonia na base parlamentar e subsequente sucesso do Real.
 
Curioso: malgrado o posterior afastamento, tanto Itamar quanto Fernando Hen-rique devem muito a Luiz Carlos Sigmaringa Seixas e a sua persistente harmonização dos atores políticos. Itamar pôde consagrar-se o presidente que derrotou a inflação e foi o primeiro, desde a redemocratização em 1946, a ‘fazer’ o sucessor mediante eleição. Fernando Henrique, depois por seus próprios méritos, deu sequência e consolidou a estabilidade monetária.
 
Referi-me também a conversas tristes, e foram duas. A primeira quando lamen-tamos, juntos, a imersão do PT (cuja bancada na Câmara ele já integrava) nos charcos do mensalão. Não lhe cobrei posições, ele não me questionou as críticas da debacle petista. Não debatemos, apenas cogitamos das causas conjeturamos de como sair da formidável crise moral em que afundara o país.
 
Mais tristeza estaria reservada ao encontro seguinte, quando da condenação de José Genoíno no processo do mensalão.
 
Eu conhecera Genoíno nos tempos do combate à ditadura, pouco antes de em-brenhar-se nas selvas (metafóricas e depois concretas) da luta armada. Surpreendi-me ao vê-lo acusado, de cambulhada com mensaleiros e mensalistas – não se lhe encontrou participação direta em corrupção, ele foi condenado com base nas teses de ‘domínio do fato’: presidente do PT, não poderia desconhecer os crimes perpetrados.
 
Sabendo-o avesso a tal teoria, não abordei o tema naquele encontro. Luiz Carlos tampouco referiu-se aos aplausos desta coluna aos êxitos de Joaquim Barbosa na famosa Ação Penal 470. Só nos condoemos do sofrimento do velho lutador. Revelei-lhe minha opinião: Genoíno ter-se-ia desencaminhado por conta das ‘más companhias’. Respondeu-me com um sorriso triste, talvez reticente concordância.
 
Foi assim que acompanhei, nem sempre de perto, a trajetória do velho amigo. Entendi por que duas vezes trocou de partido: ele não mudou, mudaram os partidos – o PMDB das lutas libertárias para a disputa e manutenção do poder a qualquer custo, o PSDB a abandonar os preceitos da social democracia para aderir ao neoliberalismo, o PT...
 
Ora!,... o PT.
 
Parece-me que Luiz Carlos não teve tempo de haver-se com o que percebia erra-do ali. Fiel à prática de dialogar antes de confrontar, ele que tentou internamente a auto-crítica que o PT publicamente recusa. Não por outra razão seus últimos anos de mandato parlamentar marcaram-se por extrema discrição.
 
Discrição que também o terá levado a recusar insistentes propostas de Lula, que o queria ministro do Supremo Tribunal Federal.
 
Numa de nossas últimas conversas perguntei: por que? não quer o STF, coroamento da carreira dos profissionais do direito?
 
Ele respondeu sem titubear, como a revelar o que detidamente pensara (talvez não lhe resgate as exatas palavras, mas garanto fidelidade ao conteúdo):
 
– Sou mais advogado que jurista, minha praia é a luta nos tribunais, nos debates é que tento encontrar a verdade. Não sei como estaria na solidão do juiz que dispõe do destino das pessoas, sobretudo em Tribunal que guarda e interpreta a Constituição, às vezes decide o que serve ou não à nação. E ainda mais em conjuntura tão traumática, a sociedade dividida...
 
As reticências sugerem o não dito. Seu intrínseco, inamovível sendo de justiça não lhe permitiu assumir a função, ao sentir-se de alguma forma comprometido com uma das facções no perverso dualismo que preside o jogo político brasileiro nestes infaustos tempos.
 
Componente básico do caráter de Luiz Carlos foi a incondicional fidelidade aos amigos. Por isso ficou ao lado de Genoíno contra tudo e todos, respaldou a defesa de Zé Dirceu (pareceu-me que arrefeceu um pouco quando se revelou o enriquecimento do parceiro) e esteve, de corpo presente, com Lula até a cadeia em Curitiba, mesmo que se distanciasse do subsequente festival ‘Lula livre’ e da exploração eleitoreira da prisão.
 
Foi igualmente solidário com este velho amigo, no episódio relatado no início deste depoimento: ele pediu a Lula que conversasse comigo, o ex-presidente disse não.
 
Ao solicitar-lhe intermediação, ficou estabelecido que informaria Lula de minha avaliação negativa da evolução do PT e do governo Dilma. Daí, suponho, a recusa da conversa, mesmo em ‘off’ – recurso de jornalista para obter informações sem compro-meter o informante.
 
Ao transmitir a recusa meu amigo não se furtou a uma longa dissertação na qual expôs, tão objetivamente quanto possível, sua interpretação do pensamento de Lula, o rebatimento das opiniões do líder (ordens, em minha visão) na estrutura dirigente do partido, as motivações de vários personagens daquele episódio, as possíveis consequên-cias.
 
Dessa forma consegui preciosas informações com que desincumbir-me da dupla empreitada. Tanto pior que ‘caísse a pauta’ – quer dizer, a gíria de jornalistas: os editores da revista cancelaram o artigo. Assim, já rascunhado o texto, concentrei-me em con-densá-lo no curto e contundente editorial, afinal publicado em nosso COMUNIDADE.
 
Mereci discreta aprovação do amigo e, no episódio, fonte: Luiz Carlos enviou-me comentários elogiosos, que obviamente guardei só pra mim – até hoje guardo, preciosa relíquia da amizade que supera divergências e ensina como contrários podem conversar e conciliar em favor de um bem maior.
 
Afinal...
 
...o exemplo de tolerância, convivência entre contrários, busca de convergências – vida e obra de meu amigo Luiz Carlos Sigmaringa Seixas – enseja, até neste albor do 2019 que prenuncia conflitos e retrocessos, que lhes deseje, leitores,
 
feliz ano novo!
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br


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