Brasília, 23 de Fevereiro de 2019
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Brasília para principiantes 26.01.2019

 Marco Antônio Pontes

 
Novos tempos, velhos erros
 
Há duas semanas reclamei de placa de sinalização colocada na Esplanada dos Ministérios, defronte ao Palácio dos Arcos, que lhe ‘troca’ o nome para “Itamaraty”. Em seguida reagi a manifestações de formadores de opinião que irresponsavelmente repetem velhos equívocos sobre Brasília, num desserviço público.
É inacreditável: tanto tempo passado e ainda há quem reclame de que Brasília não tenha ruas, esquinas, gente andando a pé... e até afirme que a capital está longe de tudo – para esses o Brasil não se afasta muito do litoral, de preferência Rio e São Paulo.
 
Topônimos errados
 
Coincidentemente, dias antes o amigo Roldão Simas Filho escrevera oportuno artigo sobre nomes (ou apelidos) de logradouros da capital – começou pela ponte situada no fim do Eixo Rodoviário Norte, erroneamente chamada “do Braghetto”:
– O certo (...) é “Ponte da Braghetto” – explica, tendo o cuidado de citar o leitor do Correio Braziliense João Pelles, a quem deve a informação: Braghetto foi a empresa que construiu a ponte “e o nome não foi dado em homenagem a seu dono” – conclui Roldão.
 
Sem fundamento
 
– A falta de nomes leva, às vezes, a criações sem fundamento, como o absurdo de chamar de “praça Kennedy” ao local da feira de artesanato da Asa Sul; o problema é que os nomes ‘pegam’ – prossegue.
Problema mesmo!, Roldão, aparentemente derivado de outro: embora já convi-vamos, os oriundos de outros lugares, com a terceira geração de nascidos em Brasília, a maioria de nós ainda não se acostumou com peculiaridades do plano urbanístico da ca-pital e ao longo de quase seis décadas reafirma o estranhamento.
 
É diferente...
 
É que o projeto de Lúcio Costa é essencialmente lógico, facilitador da orientação numa cidade diferente, inusitada e por isso revolucionário em conceitos e critérios.
Em Brasília não há ruas, avenidas porém vias, hierarquizadas conforme funções e volumes de tráfego previstos.
Os endereços não dizem respeito a essas vias e sim a setores e quadras, residen-ciais ou não.
As vias unem as diferentes áreas urbanas, dão acesso a lugares em que se vive... e só; ninguém mora, trabalha ou diverte-se na via L-1 número tal, por exemplo, mas numa superquadra, quadra comercial ou área de lazer a que se chega por ela.
 
...e coerente
 
Os parâmetros do Plano de Brasília são coerentes, de percepção intuitiva.
O brasiliense neófito terá certeza de à Superquadra Sul 103 seguir-se a 104 e aprenderá, apreendida a lógica da cidade, que contíguas a oeste estarão as SQS (super-quadras sul) 303 e 304 (sim: localizar-se conforme os pontos cardeais é parte do apren-dizado brasiliense).
Também logo perceberá que as quadras numeradas com centenas pares (200, 400) localizam-se a leste o Eixo Rodoviário e, correspondentemente, do lado oeste as ímpares (100, 300).
 
O fácil e o difícil
 
Talvez à primeira vista pareça complicado ao eventual leitor de Curitiba ou Ri-beirão Preto, do Recife ou Juiz de Fora orientar-se entre siglas e pontos cardeais, mas compreendidos os critérios tudo fica bem fácil.
Difícil ao visitante é descobrir de que lado da Avenida Paulista fica a Rua Frei Caneca, ou saber que a Rua Santa Clara vem depois da Siqueira Campos pra quem adentra Copacabana vindo do centro do Rio – os brasilienses não entendemos é essa falta de lógica dos endereços.
 
Costumes transplantados
 
Mas os planos põem e as pessoas dispõem – brinco com o dito popular. Muitos dos primeiros habitantes de Brasília, os que vieram a partir de 1956 participar da “epo-peia da construção da Nova Capital do Brasil” (conclamava Juscelino) e em seguida os funcionários federais compulsoriamente transferidos do Rio – afora pessoas que acalen-tavam o sonho de viver na cidade do futuro, como este jornalista – sentiram necessidade de transplantar para o Planalto os costumes originais.
 
Praça?, que praça?
 
Tal incluía hábitos prosaicos, entretanto arraigados, como localizar-se da mesma maneira que nas cidades tradicionais – rua tal, número tal etc. E dar apelidos familiares a vias sem nome – e eles “pegam”, alertou Roldão: rua da Igrejinha, rua das farmácias...
Assim como a tal “praça Kennedy” recusada por Roldão, houve uma certa “21 de abril” entre os SHCGS 708 e 709, inaugurada pelos moradores com placa e tudo, po-rém em alguns anos esquecida.
Na verdade, à exceção de umas poucas, institucionais como a dos Três Poderes, Brasília não tem praças. Nem precisa.
(Perdão!, leitor não brasiliense, quase deixava de traduzir a sigla: SHCGS é Setor de Habitações Conjugadas Geminadas Sul; simples, não?)
 
Floresta com ‘blocos’
 
Cada superquadra, com seu comércio local e adjacências, é uma grande ‘praça’, se por tal espaço entende-se área arborizada e gramados, canteiros de flores em que as cidades tradicionais respiram.
Quem admira de cima o que chamamos ‘Plano Piloto’ de Brasília não vê exata-mente uma cidade com árvores; contempla uma sucessão de bosques, quase uma floresta tão ou mais alta que os prédios que protege, esses homogeneamente limitados a seis andares – nossos ‘blocos’ residenciais.
 
Por que em inglês?
 
Volto ao instigante artigo de Roldão para comentar outra de suas argutas obser-vações: ele definitivamente não se conforma (nem eu) com a mania de nomear logra-douros em inglês e mui justamente implica com o Setor de Mansões Park Way:
– Não sei a razão dessa denominação (...) em inglês. Afinal por que “Park Way”? – e sugere correção – Para conservar a abreviatura SMPW utilizada no CEP e em placas, poder-se-ia traduzir para Setor de Mansões Parque Oeste.
 
Padrão elevado
 
Endosso a proposta, admitido o anglicismo da letra ‘w’ para representar oeste, já internacionalmente consagrado. E arrisco resposta à pergunta de Roldão – Por que Park Way? – em função do curioso fenômeno que suscita.
O projeto de Lúcio Costa estipulava que as vias estruturadoras do tráfego e as li-gações rodoviárias do demais Brasil com Brasília recebessem, aqui, tratamento digno de sua modernidade.
As rodovias, pelo menos em nosso quadrilátero, teriam o padrão das melhores autoestradas então existentes: pelo menos duas pistas separadas por largo canteiro cen-tral arborizado, ajardinado e florido, áreas de repouso e outras comodidades; às mar-gens, benfeitorias semelhantes.
 
Park Way, estrada-parque
 
Bem apropriadamente, elas chamar-se-iam ‘estradas-parque’. Por certo para atender a modismo recém inaugurado, de importar palavras e expressões em inglês, al-guém teve a (infeliz) ideia de batizar “park way” (estrada-parque) a primeira e então mais importante, o nosso pedaço da atual BR-040, a que ruma Belo Horizonte e Rio.
Menos mal que o vernáculo preserve-se, mesmo com algumas siglas equivocadas, nas denominações das vias que ligam Brasília a cidades-satélites: EPTG (Estrada-Parque Taguatinga), EPNB (ligação com o Núcleo Bandeirante), EPGU (com o Guará)...
 
Casas e mansões
 
Além das unidades residenciais do núcleo central, o Plano da capital destinou espaços à construção de casas, chamadas ‘habitações individuais’, inicialmente na orla do Paranoá oposta ao Plano Piloto.
Surgiram assim os SHIS e SHIN (setores de habitação individual sul e norte) e os destinados a ‘mansões’, grandes terrenos ofertados aos mais endinheirados, também nas proximidades do Lago.
Em seguida criou-se outro setor, igualmente reservado a ‘mansões’, às margens daquela estrada-parque já denominada park way.
 
Subúrbio ‘nobre’, ...
 
O ‘bairro’, para usar designação pouco comum aqui, já nasceu ‘nobre’, com lotes de dois hectares (latifúndios urbanos!).
Eles poderiam conter quatro conjuntos de edificações: moradia familiar, casa de hóspedes e dois complexos de lazer e esportes, um com salão, cozinha, churrasqueira e complementos (a iniciar uma comodidade da Brasília mais rica, os hoje chamados ‘es-paços-gourmet’), o outro provido de piscinas, quadras esportivas, saunas...
 
...nome adequado
 
Distinguia o novo setor dos similares a circunstância de estar um pouco mais distante, por isso foi inicialmente denominado Mansões Suburbanas Park Way (MSPW).
À época (virada dos 60–70 do século XX) disseminava-se entre os muito ricos estadunidenses o hábito de construir mansões em áreas suburbanas, a fugir da agitação dos centros metropolitanos, fenômeno a que terão remetido os padrinhos da denomina-ção.
 
Nobreza desprezada
 
Anos depois o ‘bairro’ seria rebatizado Setor de Mansões Park Way (SMPW); os leitores terão reparado que se retirou a palavra ‘suburbanas’. Ninguém explicou por quê, mas pode-se imaginar:
embora talvez gostassem de imitar seus congêneres dos EUA, a muitos ricaços terá repugnado a expressão que lembra os subúrbios, por exemplo, do Rio, em que difi-cilmente aceitariam morar.
Pouco lhes terá importado a nobre (sem aspas) tradição cultural, especialmente musical de subúrbios como Vila Isabel, Madureira, Estácio, Padre Miguel..., ‘Subúrbio é lugar de pobre’ (diriam) e o preconceito é avesso à cultura, inclusive ao samba...
 
Reticências...
 
Pois é, leitores: encerro esta edição sem comentar o pífio batismo internacional do presidente (também, com aquele ministro do exterior...), o cerco que se fecha sobre o primeiro-filho...
Por favor, compreendam: tudo é tão inconcluso neste governo envelhecido em menos de mês... Ou talvez, sei lá... seja só tédio do colunista..., que haverão de perdoar.
Semana que vem tento de novo, se der...
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 
 


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