Brasília, 23 de Fevereiro de 2019
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O raio que caiu duas vezes 02.02.2019

 Marco Antônio Pontes

 
 
Raios coincidentes
 
‘Tá certo, o raio não caiu exatamente no mesmo lugar: Brumadinho dista uns se-tenta, oitenta quilômetros de Mariana em linha reta – um nada na extensão territorial de Minas, o que dizer do Brasil.
Mas a potente descarga fulminou duas vezes e no mesmo estado a mesma mine-radora, uma das mais eficientes do mundo e entretanto descuidada, omissa, incompeten-te ao limpar a própria sujeira.
 
Montanhas de rejeitos
 
Este é o problema, a cordilheira de rejeitos resultante do irracional, obsoleto (e barato) processo de tratamento primário do minério. Há mais de duas centenas de barragens semelhantes, a maioria em Minas Gerais, muitas prestes a explodir.
Governos são ineficazes na fiscalização e a legislação, leniente, compele-os a confiar na prevenção alegada pelas mineradoras – faltam-lhes pessoal, tecnologia e verbas para de fato controlar.
 
Processo obsoleto, prevenção indigente
 
Citei na nota anterior dois aspectos do problema: a obsolescência do beneficiamento do minério, predominante no Brasil e a indigência na prevenção de riscos.
Até o ministro do Meio Ambiente, cujas declarações anteriores sugeriram uma ‘raposa a tomar conta de galinheiro’, mostrou saber que há processos que não acumulam mares de lama em represas sempre precárias. E a ineficiência da fiscalização haveria de superar-se com melhores normas e reforço dos instrumentos públicos de controle.
 
Irracionalismo
 
Por que será? que pouco ou nada se fez, nas mais de sete décadas em que a extração de recursos do subsolo vem-se afirmando uma de nossas principais atividades econômicas, para superar práticas arcaicas e melhorar a segurança?
Há muitos fatores envolvidos, por certo, mas podem resumir-se num único (considerados seus desdobramentos): a ânsia de lucro rápido e fácil, que induz ignorar as consequências da exploração irracional, predatória inclusive da própria empresa desavisada, a longo, médio e até no curto prazo.
 
Cegueira geral
 
A cegueira voluntária (“O pior cego é o que não quer ver”) não incide só nas mineradoras.
Por exemplo, o moderníssimo agronegócio brasileiro só recentemente acordou para a inevitabilidade do desenvolvimento sustentável – mesmo assim premido pelos clientes no exterior; tudo bem: antes tarde (e interesseiramente) do que nunca, mas grande parcela, talvez a maioria dos empresários rurais ainda se aferra a velhas práticas predatórias.
 
Risco assumido
 
Assim a mineração brasileira protela a introdução de práticas que prescindam do uso intensivo de água na separação do material inservível. Além de desperdiçar um recurso escasso, o método acresce peso e instabilidade às montanhas de rejeitos cujo controle estrito custaria muito caro, reduziria os lucros dos acionistas e os milionários bônus de seus executivos – por isso arriscam, na irresponsável expectativa de que nada aconteça.
 
Prevenção obstada
 
As empresas do setor – a Vale à frente – mobilizam lobbies que obstam medidas preventivas. Para nem citar tentativas anteriores – a primeira no governo Itamar Franco –, desde o desastre de Mariana dormitam em escaninhos do Congresso projetos neste sentido; simultaneamente, iniciativa análoga foi barrada na Assembleia Legislativa de Minas.
 
Vidas ceifadas
 
Mais uma vez predominaram os interesses dos cartórios empresariais, associados a corporações ditas sindicais: após o desastre de Mariana muitos sindicalistas aliaram-se à Samarco, supostamente em defesa de seus empregos.
Podem apostar, daqui a pouco a aliança vai repetir-se em Brumadinho mas, quem sabe?, desta vez algo possa mudar: a tragédia, talvez não tão formidável em termos ambientais, foi mais dramática pelo maior número de vidas imediatamente ceifadas.
 
Perdas em série

Não que pretenda relativizar os sucessivos crimes cometidos pela Samarco (vale repetir, subsidiária da Vale) contra os habitantes de Mariana e demais cidades mineiras e capixabas, rios abaixo até o Oceano Atlântico. Uma só vida sacrificada é tragédia a lamentar, afora a obrigação de apurar responsabilidades. Os 19 mortos sob o primeiro impacto das toneladas de lama tóxica da barragem do Fundão não serão menos prantea-dos que as duas centenas ou mais que pereceram em Brumadinho.
E nem só essas vidas ter-se-ão perdido, as consequências ambientais ceifaram e ceifarão outras mais, agravaram a pobreza dos ribeirinhos no rio Doce e farão o mesmo no Paraopeba – oxalá! não atinjam a represa de Três Marias.
 
Mariana, Brumadinho... e Barcarena!
 
Torçamos também por que, ao menos, alguma lição aprenda-se no infortúnio. Talvez o governo Bolsonaro desista da estratégia ecologicamente suicida, nociva às próprias atividades empresariais, de relativizar preceitos ambientais e controles de em-preendimentos potencialmente danosos à natureza.
Se não é possível trazer de volta os que morreram em Mariana, Brumadinho e Barcarena (não dá pra esquecer! o recente crime ambiental cometido por mineradora de bauxita no Pará), que doravante se impeça que mais vidas soterrem-se por rejeitos mal localizados, pessimamente contidos e nada fiscalizados em Minas Gerais e Brasil afora.
 
Do nome e do mapa
 
Vá uma pitada de humor (negro) nestas entristecidas considerações. Há coisa de três anos um ambientalista espírito-santense glosou o comportamento da ex-estatal, nas-cida Companhia Vale do Rio Doce:
“A Vale tirou o Rio Doce do nome, agora quis tirá-lo do mapa.”
É preciso detê-la e suas congêneres antes que nos destruam o Paraopeba, o das Velhas..., até o São Francisco!
 
Sem reticências...
 
Mário Arcanjo é assíduo leitor desta coluna e frequentemente me fustiga com cáusticas, quase sempre oportunas críticas. Desta vez ele vem cheio de exclamações:
 
– Tudo bem! O velho escriba [...] se explicou no final. Mas explicou e não justificou! [...]! O cerco se fechando no 01, o governo ameaçado e você fica derramando platitudes sobre ruas e praças de Brasília! [...] Seus leitores [...] não admitem reticências!
 
Ficção política
 
Compreendo-lhe a impaciência, meu caro Arcanjo, mas não vi razão pra tanta pressa. O governo Bolsonaro não me parece (ainda) ameaçado e o cerco sobre o filho certamente levará tempo para fechar-se, se é que chega lá. Estará você fora do Brasil?, já não se lembra de nossas urgências (postergáveis) e prazos (elásticos)?
Devo entretanto minorar-lhe a angústia e, como prometi na semana passada, tento de novo.
(À míngua de informação concreta, ofereço um microensaio de ficção política.)
 
“Tem que limpar!”
 
00 convocou 01 para uma nova reunião de manhã inteira no Alvorada, ou quem sabe uma tarde na bucólica Granja do Torto. Conversa nada amena, porém, como se imaginará:
 
– Rapaz, você fez m....; agora tem de limpar isto aí!, tá oquei?
–Mas, pai, eu não fiz nada de mais!, só o que todo mundo faz... Você sabe, ‘rachadinha’ na Assembleia, na Câmara... todo mundo faz!
– [interrompendo] Todo mundo p.... nenhuma!, eu não fiz!
 
É ficção, lembre-se, Arcanjo – e a partir deste ponto o inventado diálogo comporta dois desdobramentos:
 
Alternativa 1
 
– ‘Tá bem, ‘tá bem, pai, eu pisei na bola, mas agora o que é que eu faço? 
– Ora!, você tem de limpar tudo isso aí!, se for preciso entrega logo esse Quei-roz...
– [nova interrupção] Mas, pai!, Fabrício é amigo, acompanha a gente há tanto tempo, nos negócios e tal...
– Não quero nem saber!, se você não entregar ele eu entrego ele você!
– [longo silêncio; suspiros] Você... o quê?... eu não...você não vai me fazer esta...
– Por que não pensou nisso antes, p....? Agora não tem mais jeito, ou vocês se explicam ou... [fim – provisório – do primeiro desdobramento].
 
Alternativa 2
 
– Pra cima de mim?, pai, você só não foi pego! E a Wal do assaí, e os 24 mil...
– [interrompe, furioso] Não fala isso nem pra você mesmo sozinho no escuro, car....! Quer me f....? [longa pausa; recomeça, mais sereno] Não vamos brigar que não adianta nada, tá oquei? Tem é que dar um jeito nisso aí.
– [aliviado] Tá certo, a gente pode ganhar tempo, apelar de novo pro F.. ...
– [é interrompido outra vez] Sem essa de repetir aquela cag...!, cac...! [nova pausa] Também não vai dar, a imprensa comunista ‘tá de olho...
– Mas, pai, você é o presidente e...
– [outra interrupção] Não é assim que a banda toca, garoto. ‘Tá cheio aí de se-nador em cima..., já tem general inquieto... e se o Moro acordar e botar pra quebrar?! E o posto Ipiranga?, com a corja dos empresários dele, daqui a pouco me puxa o tapete...
– Então, pai, o que que a gente faz?...
– Não sei não, tem que pensar com calma nisso aí, tá oquei?...
 
Sinuca, dilema
 
Você já percebeu, meu caro Arcanjo, que o diálogo é inconclusivo, mesmo sendo fictício. Já a ‘sinuca de bico’ em que se meteu a primeira-família tem nada de ficção: “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.”
Em linguajar mais castiço, aos Bolsonaro o affaire impõe um dilema:
caso tentem, conforme os movimentos até aqui, procrastinar soluções na expectativa de que tudo se supere por fatos novos (ou factoides, como detectados na semana passada),
ou, alternativamente, pretendam tomar a iniciativa, confrontar as suspeitas (a exemplo do apelo do senador eleito ao STF, cuja liminar foi ‘vitória de Pirro’ e acabou revertida pelo ministro Marco Aurélio),
em qualquer situação os riscos são enormes.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 


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