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Porandubas Políticas 13.03.2019

 Abro a coluna com uma parábola aqui já narrada há tempos.

 
Há pessoas que não conseguem perceber o que se passa ao seu redor. Não veem que não veem, não sabem que não sabem”.
 
Pequeno relato
 
Zé caiu em um poço e está a 10 metros de profundidade. Olhava para o céu e não viu o buraco. Desesperado, começou a escalar as paredes. Sobe um centímetro e escorrega. Passou o dia fazendo tentativas. As energias começaram a faltar. No dia seguinte, alguém que passava pelo lugar ouviu um barulho. Olhou para o fundo do poço. Enxergou o vulto de Zé. Correu e pegou uma corda. Lançou-a no buraco. Concentrado em seu trabalho, esbaforido, cansado, Zé não ouve o grito da pessoa: “pegue a corda, pegue a corda”. Surdo, sem perceber a realidade, Zé continua a tarefa de escalar, sem sucesso, as paredes. O homem na beira do poço joga uma pedra. Zé sente a dor e olha para cima, irritado, sem compreender nada. Grita furioso:
 
– O que você quer? Não vê que estou ocupado?
O desconhecido se surpreende e volta a aconselhar:
– Aí tem a corda, pegue-a, que eu puxo.
Zé, mais irritado ainda, responde sem olhar para cima:
– Não vê que estou ocupado, ó cara. Não tenho tempo para me preocupar com sua corda.
E recomeça seu trabalho.
 
Parábola: “Zé não vê que não vê, não sabe que não sabe”.
 
Será que os políticos não percebem a decisão estratégica de aprovar a reforma da Previdência?
 
Reacendendo a fogueira
 
Não aconteceu o que se esperava. Diástole depois da sístole, descontração após os turbulentos tempos do pleito. O presidente Jair Bolsonaro continua com a tocha acesa reacendendo a fogueira que esquenta ânimos de aliados e adversários. Os primeiros recebem fogo para incendiar as redes sociais. Os segundos rebatem com estocadas que aumentam a distância entre as duas bandas. E assim, o governo Bolsonaro faz o mesmo que o petismo fazia: cutucar adversários. O apartheid “Nós e Eles” é uma triste realidade.
 
O núcleo familiar
 
O governo alimenta o divisionismo. A comunicação governamental é uma curva sinuosa. Deveria ser uma reta. O processo de comunicação deve abrigar pré-requisitos: coerência nas abordagens, foco em prioridades, uso adequado de meios, oportunidade, racionalidade dos processos, eficiência e qualidade dos comunicadores, entre outros. O governo Bolsonaro vai na contramão de tais conceitos. Sua comunicação tem três vértices: o do porta-voz oficial, general Otávio Rêgo Barros, que lê comunicados, interpreta atos da administração e do presidente; o da Secretaria de Comunicação, afeito ao cotidiano, que opera junto aos meios e redes tecnológicas; e a modelagem familiar, coordenada pelo filho Carlos, além do próprio presidente, que veicula mensagens quentes no Twitter.
 
Conflito de versões
 
Difícil manter coerência e harmonia com múltiplas fontes, cada qual com linha própria. O general Barros dá o tom oficial; a Secom oferece suporte e o grupo familiar age como guerreiros em batalha. Natural que a comunicação familiar ganhe maior audiência: causa impacto e polêmica ao transformar pai e filhos em municiadores do exército aliado. Enquanto o general Barros tenta aparar arestas, estas são expandidas pelo próprio presidente e o filho Carlos. O princípio essencial da comunicação – coerência – é substituído por dissonâncias. Quanto mais ruído, mais dispersão, maior distúrbio no processo, minando a credibilidade da administração.
 
Redes e mistura
 
As redes sociais se prestam bem às comunicações informais, torrente que mistura emoção com achismos, bílis com desavenças. Usá-las como principal meio é misturar o público e o privado. Quando os dois territórios se bifurcam, a comunicação acaba sem rumo, desmanchando os limites da verdade.
 
O cinto militar
 
O cinturão militar que age no entorno presidencial deve estar bastante preocupado. Os militares comportam-se como pessoas de bom senso, animadas com a possibilidade de dar uma contribuição efetiva ao país, agora na frente governativa, esmaecendo o viés autoritário inerente ao setor. Há generais que pensam e falam de maneira moderada, tentando conter o ímpeto conservador/ideológico que emana de alguns figurantes, entre os quais o chanceler Ernesto Araújo, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Damares Regina e o professor Ricardo Vélez, ministro da Educação. A impressão é a que a orquestra da extrema direita está dando o tom.
 
Economia no meio
 
A equipe econômica age no meio, como um rolo compressor técnico a produzir propostas para os próximos tempos, como a reforma da Previdência e os pacotes de privatização. Não se imiscui no conflito ideológico. Paulo Guedes e sua turma estão interessados em viabilizar os meios para garantir resultados ao governo. Mas a situação é complicada porque desavenças e erros de comunicação acabam obstruindo o meio de campo. A frente política já não age com tanto desembaraço em defesa do governo Bolsonaro.
 
De olho na máquina
 
Expliquemos. Os políticos brasileiros costumam agir com um olho nas ruas e outro na máquina governativa. Se Bolsonaro pensava em governar apenas com quadros técnicos, erra feio. O que se viu, até o momento, foi a seleção de um time ancorada em critérios e indicações que levam em conta a origem dos jogadores selecionados. Quase todos eles com origem em polos conservadores. Se os políticos não reagiram em um primeiro momento, foi por cautela. Não queriam atropelar o processo de escolha e, mais, dando a entender que a adesão à base governista só se completa nos moldes do “toma-lá-dá-cá”.
 
Mudança abrupta? Jamais
 
Como é sabido, a cultura política brasileira é regada por valores tradicionais. O jogo de recompensas está entre os mais valorizados. Foi assim ontem, na República Velha, é assim hoje e continuará nesses moldes nos anos vindouros. Não se muda uma cultura por decreto ou desejo de um governante. O nosso presidencialismo de coalizão é regrado pela participação dos vencedores no processo governativo. Qual a meta do político? Chegar ao poder e com os instrumentos que ele propicia, fazer a representação da sociedade e dos entes governativos. Funções que exigem compartilhamento de cargos.
 
Meritocracia
 
O problema é: substituir o critério político pelo mérito. Daí a necessidade de indicação de quadros técnicos mesmo que tais indicações sejam feitas por políticos. Dúvidas se instalam: fulano é mais técnico ou mais político? E se os controles presidenciais não aceitarem certa indicação sob o argumento de que o figurante não agrega condições técnicas? Sob essa teia de suspeições, a frente política acaba adiando sua adesão ao governo, procura o confessionário montado nos gabinetes da articulação política para transmitir suas exigências. Se Bolsonaro não der atendimento aos políticos, será muito difícil a Paulo Guedes e Rogério Marinho aprovarem a reforma previdenciária no Congresso. A recíproca é verdadeira.
 
A articulação, o nó
 
Mas há um nó na articulação política. Se esta for muito fragmentada, dispersa, tende a corroer a base de confiança dos políticos. Hoje, essa articulação se divide entre os ministros Onyx Lorenzoni e os generais Carlos Alberto Santos Cruz, da Secretaria do Governo, general Floriano Peixoto Neto, da Secretaria da Presidência, líderes do governo na Câmara e no Senado, passando ainda por outros nomes fortes, como o próprio vice-presidente Hamilton Mourão e o general Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional. Portanto, há caminhos paralelos. Afinal, quem canaliza e filtra os pedidos? Ao que parece, é difícil desatar os nós.
 
Ataque à imprensa
 
É incrível, mas o presidente parece inclinado a manter um tiroteio contínuo e intenso sobre a imprensa. Os ataques culminaram com a calúnia contra a jornalista do Estadão Constança Rezende, acusada injustamente de querer derrubar o governo. O presidente Bolsonaro alimentou sua mensagem com fake news produzida por Fernanda de Salles Andrade, que trabalha no gabinete do deputado do PSL Bruno Engler, em MG. Até o momento ele não se desculpou pelo erro. Como pensa em aprovar reformas quando vê subindo um gigantesco balão cheio de oxigênio contra o governo? A mentira em cadeia ameaça desmanchar os traços de verdade que ainda fazem parte da imagem governamental.
 
Murillo, um grande nome
 
Murillo de Aragão, professor-adjunto da Columbia University, Nova Iorque, escritor e cientista político (mestre e doutor em ciência política) é um dos nomes aventados para assumir o cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Um nome à altura do cargo. Hoje, preside a Arko Advice, Consultoria com matriz em Brasília. Autor de importantes livros como “Grupos de Pressão no Congresso Nacional” e “Reforma Política”, o consultor tem o perfil capacitado para expor a realidade brasileira aos investidores internacionais.
 
Outro nome
 
Outro nome lembrado, que teria o apoio do chanceler Ernesto Araújo, é o de Nestor Forster Júnior. Para assumir o cargo, teria de ser promovido a embaixador. O perfil do atual conselheiro não caberia na alta relevância do posto em Washington, um dos três mais importantes do Itamaraty.
 
Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político
 


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