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Anotações sobre a violência 15.01.2020

 Marco Antônio Pontes

 
Limite elástico
 
Como prometi, volto às observações de Célio Alves Costa quanto à retórica beligerante do presidente da República e a violência policial. Para meu desgosto devo novamente discordar do persistente leitor, quando diz:
Nunca vi Bolsonaro apregoar violência, a não ser nesse limite (o elástico limite aceito por Célio, que a mim preocupa, seria armar o cidadão honesto).
Talvez fosse mera diferença de grau (malgrado de muitos graus) nossa discordância, se me inclino a aceitar que se autorize porte de armas em casos singulares, como de moradores na zona rural.
 
Uma história,...
 
Entretanto, divirjo essencialmente das afirmações seguintes:
Quem vejo há décadas incentivando e praticando violência são os ‘esquerdo-PaTas’ [sic; a brincadeira gráfica começa a cansar...]. Aliás a história do esquerdismo ou comunismo desde Marx é um constante apelo e incentivo à prática violenta.
Aceito olimpicamente o risco de que Célio me rotule “esquerdopata” (ou o faça o formulador de tal ‘patologia’, o jornalista Reinaldo Azevedo – direitista notório de notável, excelente texto), mas julgo ler história diversa da que tem lido o missivista.
 
...outra história
 
Parece-me que a esquerda não deflagra, antes reage à violência ancestral exercitada pela direita, cujos integrantes detêm os meios de produção desde que se asseguraram a posse da terra e demais recursos naturais até a da sofisticada tecnologia que hoje nos serve à vida (e condiciona-a), passando pelos fatores da revolução industrial e contando com intermediação dos controladores do dinheiro – tão eficazes na administração dos meios que acabam por determinar os fins da atividade produtiva e o comportamento do agentes econômicos.
Esse domínio produziu sociedades injustas, em que poucos têm quase tudo e muitos quase nada – não é violenta, tal situação?, ademais quando não raro se usa força armada para subjugar os insurretos?
 
No Brasil...
 
Certo a incorrer na ira dos senhores da ‘verdade’ conservadora, tento dar exemplos do que afirmo.
Na virada dos anos 1950–60 a esquerda brasileira tentava, pelas vias institucionais e pacíficas do convencimento, mobilização social e lides parlamentares, implementar projetos de redução das desigualdades e afirmação da nacionalidade. Parte dela buscava tais desideratos via adoção do socialismo, outra parcela de um capitalismo autóctone, outra ainda de um compromisso entre ambas as vertentes.
A resposta foi um golpe de estado e a ditadura consequente torturou e matou o-positores.
Os quais, inclusive os armados, resistiram à violência, não a provocaram.
 
...como em Cuba,...
 
Arrisco mais: convido o leitor a lembrar o que acontecia em Cuba antes da rebelião comandada par Fidel Castro.
A paradisíaca ilha convertera-se em bordel dos vizinhos endinheirados e os ful-gencios batistas da vida, ditadores impiedosos, associavam-se ao que pior havia no bas fond do capitalismo estadunidense. Contidos no país de origem desde a repressão aos chefões da Cosa Nostra, os mafiosos e seus aliados cubanos nadavam de braçada na corrupção e espoliação.
Ah!, mas Fidel e compañeros apelaram ao paredón!
Lastimável!, diria, pior ainda se prolongaram o autoritarismo até nossos dias.
Porém é inelutável constatar: eles reagiram a violência tão ou mais iníqua que a praticada por sua revolução.
 
...na Rússia e...
 
Já antecipo objeções: a revolução bolchevique foi cruel e desembocou no stalinismo, uma das mais perniciosas ditaturas de que se tem notícia.
Concordo e nem me demoro no registro do que a gerou: o nascente poder soviético foi confrontado pela reação do velho regime, pela intervenção externa e só se afirmou ao vencer uma guerra cruenta.
Entre os escombros de uma nação esfacelada os líderes soviéticos engalfinha-ram-se em disputas por hegemonia que, azares da história, resultaram no populismo sanguinolento de Stalin, personagem tão tosco e perverso quanto Mussolini, Hitler, Franco e, ceteris paribus, Trump, Orbán, Duterte..., Bolsonaro.
Passo ‘de passagem’ por tudo isso porque, no caso, interessa é que o desastre soviético foi antecedido e gerado no despotismo sem peias da Rússia dos czares, horror em estado puro.
 
...em França
 
Outro salto atrás na história: nos caóticos avanços e recuos do processo desencadeado pela tomada da Bastilha (símbolo da derrubada da monarquia absoluta), as facções à esquerda protagonizaram atos violentos na afirmação do novo poder.
Foi o tempo dito do ‘terror’, emblematizado pela execução na guilhotina do rei e rainha depostos e líderes do ancien régime – e em seguida de próceres da própria esquerda.
Aliás ocorreu na Assembleia Nacional, fonte do poder popular, o batismo de ‘direita’ e ‘esquerda’, respectivamente, dos moderados que pretendiam superar sem destruir o status anterior e dos radicais para quem nada haveria a aproveitar, só erradicar.
Interessante: no começo as denominações referiam-se apenas aos locais ocupa-dos por moderados e radicais, os primeiros à direita e os segundos no lado oposto do plenário.
 
Síntese de contrários
 
É igualmente curioso, naquele conturbado e rico período dito da “revolução francesa” – que se costuma balizar (simplificando) por eventos decisivos, da queda da Bastilha em 1789 à derrota dos exércitos franceses em Waterloo e subsequente restauração da monarquia em 1815 – que a resultante das forças em conflito só se desse sob Napoleão Bonaparte, chefe militar logo convertido em líder político maior.
Primeiro sob égide da república, elegendo-se ‘primeiro cônsul’, finalmente autocoroado imperador com poderes análogos aos dos reis absolutos que a revolução pretendera banir, entre tais contradições Napoleão conseguiu a síntese entre os projetos radical e moderado, esquerda e direita.
 
Ideais concretizados
 
As vitoriosas guerras napoleônicas submeteram praticamente toda a Europa à hegemonia de França e disseminaram os ideais e conceitos sócio-políticos do iluminismo, sob o lema ‘liberté, egalité, fraternité’.
Ademais, foi Bonaparte que consolidou a revolução e institucionalizou-lhe os preceitos básicos: o estado de direito com tripartição dos poderes, a conceituação da educação e saúde públicas, as concepções fundadoras da democracia em nosso tempo – tudo explicitado no código dito napoleônico, a ensejar consciência crítica do processo histórico e consequência prática das ideias de Locke, Voltaire, Montesquieu, Rousseau...
 
Fim de um ciclo...
 
A era de Napoleão encerrou-se com a derrota das tropas que pessoalmente comandou nas campinas belgas.
Há quem veja em seu desastre final mero acidente de percurso, conforme a his-toriografia que estudei em Edward Burns (História da civilização ocidental), Winston Churchill (História dos povos de língua inglesa), Eric Hobsbawn (A era dos impérios) e sobretudo no melhor relato que li, o de Victor Hugo na pesquisa cuidadosa que enxertou no monumental romance Os miseráveis.
 
...ou, melhor:...
 
Conforme as narrativas, o embate resolveu-se em lances fortuitos: guias e bate-dores recrutados pelos franceses equivocaram-se e, do outro lado, seus correspondentes serviram eficazmente à coalizão anglo-austríaco-prussiana que se lhes opunha.
Se não prevalecessem tais detalhes, hipótese em que Bonaparte venceria de no-vo, o que mais não teria feito? e como ficaria o mundo, em tal alternativa?
Mas como o ‘se’ tem escassa valia na conformação dos fatos e fenômenos da história – embora útil em sua interpretação –, valem as conjeturas enquanto prevalece, inconteste, o encerramento de um ciclo.
 
...recomeço da história
 
O corso, derrotado, foi confinado e morreu em Santa Helena, ilha atlântica a centenas de milhas das costas d’África e distante em dobro daquelas da Europa que tão radicalmente transformara.
Fim da história? – apressar-se-ia um Fukyama daqueles tempos. Nada disso, hoje como então.
O legado da revolução francesa sobreviveu ao esgotamento de seu poder, graças principalmente à habilidade de Napoleão em harmonizar (mais que contrapor) as diferenças e firmar compromissos políticos antes, durante e depois das guerras vitoriosas.
E também das que perdeu, memória que imprimiu na história.
 
Brutalidades em choque
 
Assim é que este velho colunista, que só tem dúvidas, questiona as certezas de Célio Alves Costa: ele garante que a esquerda advoga a violência.
No caso, parece certo que o ‘terror’ da segunda fase revolução francesa e as guerras de Napoleão deflagraram-na, em ambos os casos na tentativa de impor ideias então revolucionárias – de liberdade, igualdade, fraternidade.
Permanece entretanto o paradigma: a violência revolucionária não inaugura o ciclo de brutalidade, antes reage – nos termos da época – àquela do absolutismo monárquico.
 
Há mais
 
Ainda não esgotei a análise das objeções de meu aplicado leitor. Prometo retomá-la, justo no que me parece a essência da opinião que emitiu e mais discrepam nossos enfoques: a violência intrínseca que atribui ao marxismo.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br
 
 


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