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Se erram tanto, por que tanto apoio? 11.02.2020

 Marco Antônio Pontes

 
Fora de contexto
 
Eu já escrevera as notas a seguir quando o ministro da Economia chamou os servidores públicos de “parasitas” e depois se desdisse, culpou a imprensa por citação “fora de contexto”.
Mas é impossível desmentir o discurso que as TVs exibiram: ele foi injusto e aí sim, fora de qualquer contexto razoável, ofendeu os cerca de 12 milhões de trabalhadores brasileiros que servem ao estado nos municípios, unidades federadas e União.
O desastrado acólito de Bolsonaro fala (e faz) as bobagens que lhe sugerem a indigente percepção de mundo, o que a este provecto escriba surpreende nem um pouco.
 
Aposta nos erros...
 
Paulo Guedes e sua equipe erram muito!, é inacreditável que os cartórios empresariais – especialmente o das altas finanças – sigam a apostar nas promessas de sujeição do estado e sociedade à ortodoxia econômica, sonho de consumo dos irresponsáveis líderes empresariais que apoiaram Bolsonaro em 2018, e ainda apoiam.
Talvez o façam, sei lá, por falta de alternativa, já que seus velhos amigos dos partidos ditos de centro, que não conseguiram entender-se há dois anos, continuam desunidos e desarvorados, sem dar mostras de que terão candidato viável nas próximas eleições.
 
...por falta de acertos
 
O que se sabe é que o reduzido clube dos muito ricos, a nata do andar de cima sempre morreu de medo do PT, por isso jogou todas as fichas no ex-capitão, que lhes fora vendido (e fingiu ser) uma figura dócil aos conselhos do ‘posto Ipiranga’.
Já se sabe que não é bem assim, frequentemente o tosco presidente escapa das prescrições e atrapalha o processo porém a turma do dinheiro, pelo visto, confia menos ainda nos que se aprestam a enfrentar simultaneamente o bolsonarismo e o petismo. E, convenhamos, eles não são lá essas coisas.
 
Ingratos
 
Coisa mais estranha!, o pavor que o grande capital tem da esquerda, ou de tudo o que lembre socialismo ou comunismo que, entretanto, seus porta-vozes não se cansam de dizer que acabou.
No caso brasileiro eles cometem outro equívoco, o de achar que o PT é partido de esquerda e Lula um líder socialista, quando o próprio jefe já disse com todas as letras que é nada disso.
E ademais são uns ingratos: o capital financeiro nunca fora tão feliz como na era lulista, nos dois mandatos do próprio e no primeiro de seu ‘poste’, até que o excesso de incompetência (e prepotência) daquela senhora pôs a perder a lucrativa parceria.
 
Máquina abandonada
 
Mas falava de outra incompetência, a de Guedes e sua turma: que erro mais grotesco!, permitir a atual penúria de quadros que imobiliza o INSS.
Não foi da noite pro dia, o esvaziamento ocorreu durante todo o ano passado e tem explicação singela: muitos dos funcionários mais experientes, que conheciam a máquina e sabiam tocá-la, já contavam tempo suficiente e perceberam que as regras de aposentadoria iriam mudar; tendo a faca e o queijo na mão, pegaram logo seu pedaço.
O pessoal de Guedes não notou que máquina perdia engrenagens, correias de transmissão, força motriz.
 
Previdência imprevidente
 
Tamanha imprevidência no trato da Previdência – não repor os quadros e demais recursos perdidos – induziu suposição ainda pior: teria sido deliberada a desmontagem do INSS, ‘jeitinho’ de poupar dinheiro, pois sem concessão de aposentadorias, auxílios-desemprego, licenças para tratamento de saúde e recuperação de acidentes reduz-se o crescimento do déficit, a esperar os resultados da reforma que o Congresso aprovou.
Quer dizer: haveria erro ainda maior, a confundir-se com o crime de sonegar direitos aos segurados e aos mais pobres os chamados benefícios de prestação continuada, garantia de sobrevivência.
 
Pés pelas mãos
 
Melhor recusar tal hipótese, que sabe a teoria conspiratória. Até porque os a-prendizes de feiticeiro na administração pública – com as exceções habituais – que sob o neófito Paulo Guedes chegaram ao proscênio neste infeliz governo erram mesmo é porque não sabem como acertar.
A exemplo do chefe têm experiência nenhuma em funções de estado, trocam pés pelas mãos.
 
Crise de identidade
 
Às vezes beiram o ridículo, como na novela do COAF: passaram-no da área fa-zendária para a da Justiça, fizeram que retornasse ao aprisco via Banco Central, com nova sigla, voltou ao antigo nome depois de um tempo hibernado – nisso com valiosa contribuição do presidente do STF – e agora, em crise de identidade, sabe-se lá o que faz e onde.
 
Miséria de volta
 
A par de incompetentes os calouros no poder são insensíveis. Resolvem mudar (até de nome) o Programa Bolsa Família e enquanto não encontram jeito nem nome novo, param tudo.
O represamento de cerca de meio milhão de pedidos de socorro – a miséria re-produz-se pela própria dinâmica no selvagem capitalismo brasileiro – agrava o sofri-mento dos mais pobres e a desigualdade, que cresce pela primeira vez desde a redemo-cratização de 1985, quando teve um ponto de inflexão graças a iniciativas assistenciais pioneiras (como a bolsa-escola em Campinas e Brasília), o controle da inflação com o Plano Real e o movimento contra a fome de Betinho, esses no governo Itamar.
 
Boa ideia abandonada
 
Raro acerto do governo Dilma o Programa Mais Médicos foi interrompido antes da posse de Bolsonaro, em ato pusilânime do antecessor.
Consta que a ideia de suprimi-lo teria partido de Guedes, com pronta acolhida do ex-capitão que procurava solertes cubanos comunistas até debaixo das macas dos hospitais que frequentou.
Agora um aflito ministro da Saúde tenta em vão suprir a ausência dos cubanos; precisa de estímulos para motivar médicos brasileiros a trabalhar no interior e periferias mais pobres, mas faltam-lhe meios porque os ultraliberais da economia detestam projetos sociais.
 
Mais insensibilidade
 
Não dá pra contar aqui todas as mancadas do ‘posto Ipiranga’ e seus ‘frentistas’, que haverão de suceder-se ad infinitum enquanto durar este infeliz governo. Acrescento apenas a mais recente, talvez só especulação em mesa de bar – embora em bares frequentados por gente que sabe das coisas: teria sido por objeções dos fundamental-capitalistas que o governo titubeou em repatriar os brasileiros apanhados no contrapé pelo revigorado coronavírus asiático.
A hipótese combina com a insensibilidade da turma: seria cara demais a opera-ção que salvaria uns poucos indivíduos – tudo se restringiria a números, estatísticas.
 
Anacronismo
 
Em tempos em que até Donald Trump, aquela avantesma, admite (relutante) que o aquecimento global tem a ver com a ação humana;
quando o ministro do Meio Ambiente constrange-se a defender, certo da boca pra fora, a proteção dos biomas tropicais sob guarda do Brasil;
enquanto Bolsonaro, que está nem aí para florestas, meio ambiente, índios... susta provisoriamente a retórica antinatureza e decide criar um Conselho da Amazônia (resta saber-lhe a composição, conceitos, estratégias);
apesar disso tudo, vejam o que diz Ricardo Felício, professor de Climatologia (logo de quê!) da USP:
“Nós seres humanos não temos nenhum [sic] poder para influenciar o clima do planeta. Achar que temos algum controle é pura arrogância e falta de conhecimento científico.”
 
Legitimidade reduzida
 
Sempre oportuno e com admirável síntese, Sérgio Alves dá continuidade às re-flexões “sobre a democracia em nosso país e na América Latina” que esta coluna pro-põe aos leitores:
– Suspeito que o regime democrático tem apresentado preocupante redução de legitimidade e representatividade, em meio à demagogia populista, à corrupção institucionalizada, à resiliente desigualdade socioeconômica, à desarmonia dos três poderes republicanos e à violência sob descontrole.
 
Pra lá da polarização
 
– Creio desnecessário ressaltar – conclui (por enquanto) o acadêmico – ser esse fenômeno algo muito além da anacrônica polarização direita-esquerda, da qual o lulopetismo e o bolsonarismo se nutrem, sufocando alternativas mais ao centro [...]. Cabe avançar na discussão desapaixonada do tema.
Aceito o repto e repasso-o aos demais leitores.
 
De esquerda e do PT?
 
Escreve-me Paulo Alberto Muniz, que se declara “de esquerda e adepto do PT e seguidor do Lula”, a propósito de meu depoimento meio en passant, há duas semanas, sobre um querido amigo, o filósofo Leandro Konder, com quem muito aprendi em intensa convivência nos anos 1960–70 e encontros menos frequentes depois.
Leandro foi intérprete, divulgador e renovador do marxismo, internacionalmente reconhecido. Muniz afirma que ele teria “renegado a esquerda” e por isso fora “excluído pelo PT”.
 
Opiniões compreensíveis,...
 
Respeito suas opiniões, prezado leitor e admiro-lhe o malabarismo: ser “de es-querda, adepto do PT e seguidor de Lula” não há de ser fácil. Porém não endosso suas opiniões nem lhe compartilho o esforço: a mim parece que o PT há muito se assumiu populista, sob as ordens de Lula; e populismo usa retórica de esquerda mas favorece a direita.
Compreendo-lhe entretanto o drama, semelhante ao de velhos correligionários que vi apostarem a vida num partido que seria diferente, criado ‘de baixo pra cima’ conforme os cânones marxistas mas desvirtuou-se, de concessão em concessão acabou igual ou pior que as agremiações burguesas que denunciara. É quase insuportável a decepção – que eu mesmo experimentei há muito tempo –, assim entendo quão difícil é aceitar os fatos.
 
...fatos falseados
 
Diversamente das opiniões, devo dizer ao caro Muniz que não lhe reconheço o direito aos próprios fatos – no caso os equívocos sobre a biografia de Leandro Konder.
Ele jamais renegou a esquerda nem foi excluído do PT. Ao contrário, junto com o amigo e também filósofo Carlos Nelson Coutinho, deixou o partido que ajudara a criar para manter-se fiel aos compromissos que Lula e sua turma abandonaram em favor de um populismo eleitoreiro e desmobilizador.
 
Marco Antônio Pontes é jornalista
marcoantoniodp@terra.com.br


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